Empenho
Como a crise anda feia para caramba, com
mais de 60 mil homicídios num ano, recomendável é evitar bagunça e evento
ridículo. Assim, a festa do cabide que iria oferecer a mendigas e mendigos sofreu
cancelamento. Quando soube, ô alegria!, o prédio voltou a dar o bom-dia que a gente
bem merece ouvir.
Em razão do guarda-roupa modesto,
leitora solidária e leitor compadecido, estou ocupado em doar os cabides que
pendurei lá na loja de conhecida minha. Alerto que, como tive mesmo de abrir
mão da bicicleta por absoluta falta de potássio no corpo, pois me vi aceito neste
grupo dos 13,4 milhões de brasileiras e brasileiros que, súbito, passaram a ter
um apreço considerável pelas redes sociais, a retirada é no local. Portanto, corram.
E de onde é que tiro energia para viver?
Protegido por meus óculos, encaro a vida de frente. E há um confronto que não
se pronuncia. Passo os olhos pelo cenário. Preciso sentir o mais que posso o
que o mundo me esconde. A mim nada me fala a sua linguagem dos sinais. Mas,
coruja perspicaz, percebo que externar minha ignorância daria a impressão de
que avalizo o que me avalia ignorante. Não vou cair no buraco que cavo com minha
língua. Prefiro tirar à fortuna o cara ou coroa dos meus fracassos. Mesmo que o medo ou a ansiedade causem tantos estragos, dissimulo outras afetações. Para
medrar como quero.
Não pago pela vela que me leva apagado
à chama de quem me chama. Querem-me dizimado? Querem-me alquebrado?
Na luta, leio e escrevo para mais bem
me apreender.
Escolho os fatos que revelem o homem
cujos feitos menos me contradigam. Busco refúgio em mim. Pelo que passei, pelo
que tenho passado por aí, reflito sobre o que me reflete. Sem o passivo da
descoberta de achar no bucéfalo o bucelário, há que se revelar um desconhecido
que veicule o factível.
Jogo com as palavras?
Jogo. Não para superar as contradições,
mas, para adensá-las, agudizá-las. Pelo divertido, o lúcido da aposta bem sabe
a instrutivo quando, por elas, dou lume ao irritante da máscara. Problematizo, para
mascarar o que me faz risível.
Concordo com o escritor Anzanello
Carrascoza que propõe: “se você escreve, é porque está ali sentindo sua
existência e compartilhando com quem está ao redor”. Existo, e transbordo tal
vivacidade que, para a minha mais cívica tristeza, constato que, feito campo de
araucárias refratário à presença humana, é uma pena que não posso compartilhar as
minhas leituras com nenhum desses presos que estão algemados em viaturas pelo
Brasil afora. A Lei de Execução Penal? Ai, ai... As leis...
O sentimento de culpa é a Medusa a me avivar
as neuroses. Aprendiz de mil mestres em conflito, desejo mais é viver 30%
contingenciado. Ou os cobras da Economia vêm me cobrar o quinhão que tenho para
vender ou deitarei na pista principal de Congonhas. Afinal, felicidade tem
preço.
Rodrigues
da Silveira
Praia Grande, dia 02 de maio de 2019.