domingo, 17 de março de 2019

A leitura plausível


A leitura plausível

Consegui. Mantive-me longe do inferno. Senti o bafo quente, mas me recusei a ser consumido por suas labaredas. Foi uma semana difícil, tenho de admitir. Só que lutei por mim, tratei de pôr a minha saúde mental ao largo do horror espalhado pelos ventos. O tanto que sei de mim é que, me mantendo centrado e pouco suscetível à correria das ansiedades, posso me fazer útil às pessoas ao ouvi-las e ajudá-las a ouvir e ajudar outras.
Penso que estar no mundo é deixar-se viver no mundo. Não me isolo dos acontecimentos, dos fatos, das notícias. Porque a vida corre solta aqui ao lado, nos apartamentos vizinhos. A vida está logo ali, no ponto de ônibus, e dentro deles. A vida não tira férias, cumpre o batente na fila do banco e segue na lida entre as gôndolas do mercado. Nas areias do Forte, e onde haja uma faixa de praia para tanto, a vida estica as pernas. A vida quer o cigarro na madrugada fria e um cafezinho quente numa padoca da COHAB. A vida pede silêncio na oração pelos enfermos e é tão ruidosa na confraternização de amigos e simpatizantes.
Quero-me simpático, empático, tolerante. E escrevo.
O barulho ao escrever é brisa refrescante no meio da tarde, mas a leitura produz pé de vento com genes de tufão. Quando escrevo, com um lápis ou digitando no teclado do laptop, busco me concentrar no que tenho a dizer e, para não me dispersar e ir por algum desvio que faça perder-me das ideias que desejo registradas, reduzo os ruídos ao mínimo. Quando leio, todavia, o vendaval levanta as linhas, escancara entrelinhas, descobre o além dos acentos, faz a minha cabeça entrar no turbilhão do compromisso com semântica, múltiplos sentidos, pois escolho, interpreto, pondero, avalio, julgo, reflito, minto, desminto, viro e reviro, frustro, ilustro, escarro e engulo, seduzo e sou seduzido, afinal, o texto me lê enquanto vou lendo, e é com gosto que me deixo ser lido, assim.
Mas o dia a dia foi pesado. Massacre em Suzano, massacre na Nova Zelândia, desabamento de escola na Nigéria, a nova velhusca corrida pela África, Coletes Amarelos saqueando lojas em Paris, a vida boa da elite na Venezuela, boçais chamando boçais de boçais, STF X PGR X MPF. E para terminar o circo de horrores que não tem fim? Diz a medicina que as fezes são um bruta remédio e, nos States, já tem bancos para vendê-las!
Que fazer?
Ao fim e ao cabo, a vida é indomável e insubstituível.
Não vou fugir para o deserto, enfiar-me numa caverna para ficar jejuando, vivendo de orvalho. Não vou cavar um buraco e esconder a cabeça, fazendo de conta que o real são os meus pensamentos de justiça, igualdade e pizza de muçarela para todo mundo. Não, não fugirei para lugar nenhum, porque a vida está em todo lugar ─ com sol ou chuva, de dia ou de noite, na escola ou no hospital, fazendo pose ou tirando a foto.
E para não pirar na batatinha, preciso é manter o foco.

Rodrigues da Silveira
Praia Grande, dia 17 de março de 2019.

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