A
leitura plausível
Consegui. Mantive-me longe do inferno.
Senti o bafo quente, mas me recusei a ser consumido por suas labaredas. Foi uma
semana difícil, tenho de admitir. Só que lutei por mim, tratei de pôr a minha saúde
mental ao largo do horror espalhado pelos ventos. O tanto que sei de mim é que,
me mantendo centrado e pouco suscetível à correria das ansiedades, posso me
fazer útil às pessoas ao ouvi-las e ajudá-las a ouvir e ajudar outras.
Penso que estar no mundo é deixar-se
viver no mundo. Não me isolo dos acontecimentos, dos fatos, das notícias.
Porque a vida corre solta aqui ao lado, nos apartamentos vizinhos. A vida está
logo ali, no ponto de ônibus, e dentro deles. A vida não tira férias, cumpre o
batente na fila do banco e segue na lida entre as gôndolas do mercado. Nas
areias do Forte, e onde haja uma faixa de praia para tanto, a vida estica as
pernas. A vida quer o cigarro na madrugada fria e um cafezinho quente numa padoca
da COHAB. A vida pede silêncio na oração pelos enfermos e é tão ruidosa na
confraternização de amigos e simpatizantes.
Quero-me simpático, empático,
tolerante. E escrevo.
O barulho ao escrever é brisa
refrescante no meio da tarde, mas a leitura produz pé de vento com genes de
tufão. Quando escrevo, com um lápis ou digitando no teclado do laptop, busco me
concentrar no que tenho a dizer e, para não me dispersar e ir por algum desvio
que faça perder-me das ideias que desejo registradas, reduzo os ruídos ao
mínimo. Quando leio, todavia, o vendaval levanta as linhas, escancara
entrelinhas, descobre o além dos acentos, faz a minha cabeça entrar no
turbilhão do compromisso com semântica, múltiplos sentidos, pois escolho, interpreto,
pondero, avalio, julgo, reflito, minto, desminto, viro e reviro, frustro, ilustro,
escarro e engulo, seduzo e sou seduzido, afinal, o texto me lê enquanto vou
lendo, e é com gosto que me deixo ser lido, assim.
Mas o dia a dia foi pesado. Massacre
em Suzano, massacre na Nova Zelândia, desabamento de escola na Nigéria, a nova velhusca
corrida pela África, Coletes Amarelos saqueando lojas em Paris, a vida boa da
elite na Venezuela, boçais chamando boçais de boçais, STF X PGR X MPF. E para
terminar o circo de horrores que não tem fim? Diz a medicina que as fezes são
um bruta remédio e, nos States, já tem bancos para vendê-las!
Que fazer?
Ao fim e ao cabo, a vida é indomável e
insubstituível.
Não vou fugir para o deserto,
enfiar-me numa caverna para ficar jejuando, vivendo de orvalho. Não vou cavar
um buraco e esconder a cabeça, fazendo de conta que o real são os meus
pensamentos de justiça, igualdade e pizza de muçarela para todo mundo. Não, não
fugirei para lugar nenhum, porque a vida está em todo lugar ─ com sol ou chuva,
de dia ou de noite, na escola ou no hospital, fazendo pose ou tirando a foto.
E para não pirar na batatinha, preciso
é manter o foco.
Rodrigues
da Silveira
Praia Grande, dia 17 de março de 2019.
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