Na
banguela
Sem mais, um sujeito dispara: Muito
sinto o que penso.
Para sua própria surpresa, a mulher
topa: O senhor sente?
No ônibus, às 6h30, o diálogo se faz.
Sinto mesmo. Penso muito sobre os meus
sentimentos.
E o senhor gosta do que faz?
Sim. Quando dá, decido o que quero
fazer e faço.
Como assim?
Olha, costumo colocar bombas nas
engrenagens do trem. E como funciona a bomba que fabrico? É simples, e algo direto.
Construo um tipo único de bomba. Tem um jeito só, mas minha bomba tem matizes diferentes.
Conto com as sutilezas, moça. Porque o sutil está nos detalhes. E a bomba só
explode, ela só funciona de verdade, por contar com quem está no trem. Gente que
não se contenta em ser só passageiro. Se o camarada for só um passageiro do
tipo que fica olhando besta a paisagem, então, a bomba não é detonada. Se a
companheira for só uma turista que fica satisfeita com as comidinhas servidas a
bordo, então, a bomba não irá funcionar. Agora, se as pessoas topam conversar,
ouvem-se, trocam ideias, e formam uma opinião por meio da argumentação, então,
a bomba já eclodiu. Entende?
Não, senhor. Estou perdida.
OK. Eu vou explicar melhor. As bombas
que coloco no trem não ficam escondidas. Não encaixo num vão do assoalho nem
coloco num buraco do teto. As bombas que espalho pelo trem entram nos ouvidos
porque saem das bocas. São transmitidas de celular para celular. Até suportam os
tipos de computador, seja de mão, de colo, de mesa. São bombas necessárias para
fazer andar o trem. Então, sem as bombas o trem para. E daí a gente fica no lugar,
pois não faz o trem rodar. São bombas que tiram o medo da gente. Tais bombas
são para que as pessoas queiram conhecer outras paisagens, sintam vontade de
ouvir mais pessoas, tenham muito mais interesse no mundo. Minhas bombas só
estão nas engrenagens do trem porque as pessoas existem. Entendeu agora? Sem
pessoas, nada de bombas. Eu enfatizo a palavra: pessoas. Não disse indivíduos.
Não falei em exemplares. Repito: pessoa. As bombas que mais preciso são
pessoas, pois sem elas a vida morre, o mundo vira pedra. E daí a energia da
realidade acaba convertida em brasão de família no bolso da camisa, fica
pendurada na parede do consultório, vira um teclado último modelo para unhas
manicuradas. Se as bombas somos nós, então, vamos detonar a petrificação. Sem
medo, o que precisamos fazer é romper com essa agonia de ir em frente só porque
estamos indo em frente. Nós podemos.
O senhor fala com propriedade. Por
acaso, é professor? É filósofo? Pois o senhor fala como quem sabe o que diz. Tomara
mais gente pudesse ouvi-lo. Pois concordo com o senhor. Todo trem precisa de
uma locomotiva.
Sem embargo, à altura do Cemitério da
Consolação, ela diz: Trabalha aí? Às 6h45, o estranho salta do ônibus: Fazer o
quê!
Rodrigues
da Silveira
Praia Grande, dia 19 de fevereiro de
2019.