terça-feira, 19 de fevereiro de 2019

Na banguela


Na banguela

Sem mais, um sujeito dispara: Muito sinto o que penso.
Para sua própria surpresa, a mulher topa: O senhor sente?
No ônibus, às 6h30, o diálogo se faz.
Sinto mesmo. Penso muito sobre os meus sentimentos.
E o senhor gosta do que faz?
Sim. Quando dá, decido o que quero fazer e faço.
Como assim?
Olha, costumo colocar bombas nas engrenagens do trem. E como funciona a bomba que fabrico? É simples, e algo direto. Construo um tipo único de bomba. Tem um jeito só, mas minha bomba tem matizes diferentes. Conto com as sutilezas, moça. Porque o sutil está nos detalhes. E a bomba só explode, ela só funciona de verdade, por contar com quem está no trem. Gente que não se contenta em ser só passageiro. Se o camarada for só um passageiro do tipo que fica olhando besta a paisagem, então, a bomba não é detonada. Se a companheira for só uma turista que fica satisfeita com as comidinhas servidas a bordo, então, a bomba não irá funcionar. Agora, se as pessoas topam conversar, ouvem-se, trocam ideias, e formam uma opinião por meio da argumentação, então, a bomba já eclodiu. Entende?
Não, senhor. Estou perdida.
OK. Eu vou explicar melhor. As bombas que coloco no trem não ficam escondidas. Não encaixo num vão do assoalho nem coloco num buraco do teto. As bombas que espalho pelo trem entram nos ouvidos porque saem das bocas. São transmitidas de celular para celular. Até suportam os tipos de computador, seja de mão, de colo, de mesa. São bombas necessárias para fazer andar o trem. Então, sem as bombas o trem para. E daí a gente fica no lugar, pois não faz o trem rodar. São bombas que tiram o medo da gente. Tais bombas são para que as pessoas queiram conhecer outras paisagens, sintam vontade de ouvir mais pessoas, tenham muito mais interesse no mundo. Minhas bombas só estão nas engrenagens do trem porque as pessoas existem. Entendeu agora? Sem pessoas, nada de bombas. Eu enfatizo a palavra: pessoas. Não disse indivíduos. Não falei em exemplares. Repito: pessoa. As bombas que mais preciso são pessoas, pois sem elas a vida morre, o mundo vira pedra. E daí a energia da realidade acaba convertida em brasão de família no bolso da camisa, fica pendurada na parede do consultório, vira um teclado último modelo para unhas manicuradas. Se as bombas somos nós, então, vamos detonar a petrificação. Sem medo, o que precisamos fazer é romper com essa agonia de ir em frente só porque estamos indo em frente. Nós podemos.
O senhor fala com propriedade. Por acaso, é professor? É filósofo? Pois o senhor fala como quem sabe o que diz. Tomara mais gente pudesse ouvi-lo. Pois concordo com o senhor. Todo trem precisa de uma locomotiva.
Sem embargo, à altura do Cemitério da Consolação, ela diz: Trabalha aí? Às 6h45, o estranho salta do ônibus: Fazer o quê!

Rodrigues da Silveira
Praia Grande, dia 19 de fevereiro de 2019.

domingo, 17 de fevereiro de 2019

A centímetros, o paraíso


A centímetros, o paraíso

A implicância começou com o travesseiro. Muito baixo.
Só poderia ter relação. O travesseiro de algodão, em vez de qualquer outro material ─ sintético ou natural. Talvez não fosse o motivo, mas a altura que tinha era razão para o desconforto. Sem dúvida. Era preciso aceitar esse porquê. As horas do sono entrecortado, com as imagens perturbadoras, servem de prova.
Passar o dia cochilando não faz bem. Não bastasse a feiura de berço. O corpo fica ridículo com o rosto amassado no vidro do ônibus. Sem mais, toca o celular.
Alguém me obriga a engolir a baba. Respondo que a Malala foi alvejada por talibãs, mas não, não foi por isso que, aos 17 anos, recebeu o Nobel da Paz. Foi por sua defesa do direito de meninas do Paquistão poder estudar.
O monitor sequestra para um mundo de infográficos. Nada me parece mais convidativo. Cochilo. A mão escora as ruínas da noite. Porque dá pouca firmeza ao maxilar, a boca começa a produzir ruídos. Conforme testemunhas, ronco.
A mensagem estridente interrompe o reinado de Morfeu. Por resposta, digito. Beber cerveja aumenta o ácido láctico e o gás carbônico, liberados ao suar. Além de cairomônios, que atraem mosquitos. Daí o maior número de picadas.
No grupo do Zap, seres especiais, cujo dom maior é o olho clínico, enxergam na pessoa o que tenta disfarçar. A tristeza, por trás do sorrisinho amarelo; por sugestões de filmes e livros, a alegria. A minha felicidade? Quando não peço nada. É leitura assombrosa, uma vez que as sutilezas dos estados de nossa alma são alcançadas a partir dos emojis que usamos.
O sinal sonoro torna o mundo telepático uma realidade. A tal vidente está clicando. E já emendo que foi na CES, a feira de bugigangas tecnoeletrônicas de Las Vegas, que um automóvel autônomo atropelou um robô. Que falta de senso das coisas. O tal carro reconhece os humanos e os robonoides não.
Na TV, governo propõe a idade mínima para aposentadoria: a de homens passa a ser 65 anos; a das mulheres, 62. Nem cinco minutos, e uma voz comanda a mente. Será possível que metade dos militares aposenta entre 45 e 50 anos?
Daí que não vou correr atrás de outro mundo. Não sou dado a querer nostalgias, por isso não vou pedir por aquela vida que um dia já foi mais tranquila, sem maiores angústias. Não quero voltar à época em que era menos informado. É certo que houve mesmo um mundo assim. Uma era sem celular, sem internet. A vida sem sem daquele mundo? Isso já foi.
Adeus ignorância que prolifera inocências. Mãos alcancem o telefone; vozes solicitem dados; dedos lutem por transparência. Que haja mídia a abrir olhos, ouvidos e bocas.
As horas de tormento? Por causa dos celulares e da WEB, a solução foi trocar de travesseiro. Centímetros mais denso, eis o paraíso. Também gosto de sabiás e riachinhos.
Para cair nas irritações do sono próprio, Doral ou Doril?

Rodrigues da Silveira
Praia Grande, dia 17 de fevereiro de 2019.

quinta-feira, 14 de fevereiro de 2019

Politicamente correto


Politicamente correto

O Brasil do jeito que anda, você sorrindo e eu com cara de idiota. É óbvio. Vamos ter de ter um papinho sobre os valores inquestionáveis para uma vida em comum. Uma vez que essas verdades tornaram-se vidraça para pedras de diversos quilates. E acredito no destino a que nos encaminham as nossas ações. O preço que estamos pagando? Parece-me um baita exagero afirmar que o país esteja condenado a perder a graça. O humor e o escracho, por acaso, estão no fundo das gavetas? Não sei dizer quando darei adeus à percepção da vida como um jogo tenso entre a alegria e a tristeza. O idiota em mim quer sorrir sem ter motivos, sem querer marcar posição como uma afronta ou para ter posicionamento político. É que levo muito a sério o sorriso. Mas sem culpa. Sei que nem é carnaval, mas encho a cara. É sem maldade alguma, só para me divertir. E os chatos vêm dizer que homem mijando na rua é uma vergonha, que é o típico exemplo da masculinidade líquida. Nem bêbado vou usar muro ou árvore como mictório. Peço que não me tome, menina, como um exemplo de pessoa civilizada. É coisa simples. Não confundo brincar o carnaval e achar política em tudo. Acho que levo uma vida normal. De repente, a culpa do gelo derretendo nas calotas polares é de quem gosta de tomar sua cervejinha bem gelada? Daí surgem os que condenam o ar-condicionado, pois causa impacto no meio ambiente. Causa mesmo. O ar fica suportável, ótimo para ver o futebol sem ficar nuzinho. Mesmo porque em casa temos você que faz da gente um reino à parte e olha o modo de falar e os gestos da gente, essas coisas. Sua mãe até curte me ver peladão, admito. Mas de boa, filha, sem esculhambar para a política. Não suporto ficar choramingando feito vítima. Fica difícil. E nem posso falar nada que já vão logo pegando o que não disse para justificar a política deles contra o que acham que falei. Isso é política de marxista que vê fascista em quem não pensa como ele. A discórdia é que nos mantém bem a distância. Política de gente que não aprendeu nada com o que aconteceu com o Muro de Berlim. E não adianta ficar esperneando. Fazendo birra? O que é preciso é ficar alerta. Há muito espertalhão à solta por aí, nas escolas, nas faculdades, são uns vendidos ao comunismo que ficam pondo minhoca na cabeça dos menos experientes que ouvem como se fosse um chamado para atravessar o mar, feito um Moisés que tivesse magia nas palavras. Não, os meninos vão na onda e acabam aprendendo a pensar mais do que deveriam. Daí nossos bebês ficam repetindo, repetindo essas besteiras. Olha, princesa, o papai acha aquela moça que está passando de vestidinho bem bonita, mas não é por isso que ele vai querer assobiar nem pensar nisso. Ando na linha porque já tenho uma princesinha linda de morrer. Quer colo, é? Tá muito quente na cestinha, eu sei. Cadê o sorrisão que eu tanto adoro, hein?

Rodrigues da Silveira
Praia Grande, dia 14 de fevereiro de 2019.


domingo, 10 de fevereiro de 2019

Aula de Português


Aula de Português

De repente, não mais que de repente. De repente, da calma fez-se o vento, e sobre o Rio de Janeiro desabou um temporal com ventos de até 110 km/h e aguaceiro que, na Rocinha foi de 165 mm, passou do volume previsto, bem acima da média de anos anteriores. Em horas, mais do que em um mês.
Por solidariedade, repasso que o IBGE informa que 444 mil cidadãos do Rio moram em áreas de risco de desastre natural. Ressalto que houve o corte de 77% da verba utilizada em 2013 com drenagem, saneamento, proteção de encostas, prevenção de enchentes. E realço que o prefeito irá ao novo ministro das Cidades, pois Crivella sabe um nada do ministério extinto.
Diante disso, prefiro mudar de assunto. Deliberadamente.
E neste domingo, escolho me separar da vereda trilhada por Vinicius de Moraes no seu belíssimo Soneto de Separação. E vou por outro caminho logo ao fim do primeiro verso, que cala fundo em mim ao dizer que de repente do riso fez-se o pranto.
Tocado com o mundo que me cerca, do soneto do Poetinha, fixam-me distanciamento, perda do contato, solidão, tristeza. E estou precisando me afastar de tais sentimentos.
Entendo, hoje, que preciso recorrer à alegria e à felicidade. Tanto sozinho quanto bem acompanhado. Por isso, amigas e amigos, que os conforte o carinho desta mensagem.
Felicidade... De repente fez-se o pranto?
Que bom que posso dizer umas palavrinhas sobre a jornada de ir do riso ao pranto. Sentindo o que penso e pensando o que sinto. Está assim, dividido e somado, para que o professor em mim possa expressar o que se passa na minha cachola.
Como, por estes dias, são tantas as notícias a me derrubar, fui levado a prestar atenção na quantidade de estudos recentes sobre os danos provocados pelo consumo do que é veiculado nas redes sociais. Prolongado e exagerado, este consumo.
Mesmo sem o perfil dos que ficam antenados em memes de piadistas anônimos. Mesmo fugindo do mel que costuma atrair os fanáticos ─ sejam eles ecologistas, economistas, moralistas, politizados. Mesmo assim, devo cuspir o pirê da batatinha.
Puxa vida. Não seria bacana se o mundo fosse do jeito que a mídia e a internet recortam. Eu, certamente, bateria no peito ter esta vaidade besta de me exibir feito crônica. Soaria datado, assinado com letra torta. Tão patético.
Nossa! Depois de linhas e linhas tentando acertar o passo, só me resta espaço para externar apreço pela Mayra Andrade, cantora que tenho visto e ouvido com gosto.
O que vibra em mim ao vê-la? A cabo-verdiana interpreta-se como artista ao entreter o público, faz-se uma representante de quem canta por vocação, todavia ao apresentar-se pela voz do corpo todo, vai além. Radiante a sorrir, saltitar, dançar, indo ao encontro dos fãs. O talento me encanta, à maravilha. Fugaz e pleno, o choro que é de felicidade conecta-me ao que diz sua Lua.

Rodrigues da Silveira
Praia Grande, dia 10 de fevereiro de 2019.

quinta-feira, 7 de fevereiro de 2019

Vou para Maracangalha



Vou para Maracangalha

De cara, aviso que a ansiedade pede passagem. Por isso, a crônica especula em voz alta, mostra a sua garra e, se houver tempo, dá de comer na boca, que o medo está louco para virar pânico. Portanto, não vamos nos enganar em vão: do pânico a se descabelar pelo time errado é um passo ou um salto, que se quebra bem na hora em que a loja está fechando. Depois tem gente que acha que é implicância ou uma... coincidência.
O tarja preta, sem receita nem bula, salta do jornal O Globo desta terça, dia 05 de fevereiro. O colunista Carlos Andreazza preconiza como obviedade comparar o parlamento a empresa ou família. Concordo que o Congresso é composto de pessoas, discordo do jornalista, porém, quando avalia que, se a matéria humana, fresca ou curtida, é ruim, ainda que haja exceções, impossível será um conjunto bom.
Com camufladas presas draculinianas, na Brasília renovada, há raposas na pele de raposa que cantam novatas e novatos à ultrassecreta transfusão envelhecedora.
Não fosse a praxe, da Câmara e do Senado escutaríamos o clamor em tom menor com sabor do novo. Mas não vou pegar essa onda, para não perder a razão ao ouvir Malandra no lugar da ladainha das sereias palhacianas. Que ânsia!
Muitos conduzem a política ao previsível, às favas contadas, sem caixinha de música que mostre mula sem cabeça atuando como a Gilda, da Rita Hayworth. Mas na política, como em tudo mais, o abominável nem sempre gera o abominável.
Alimento o coelho cartomante da cartola, Alice?
Para minha própria danação, puxo do Solano Trindade que intelectual se acomoda sem reencarnar. Dou por mim que sinto escusável o medo que toma conta das respostas automáticas a me defender do que seja surpresa, ataque ou afronta. Olha que não exijo de mim uma autoridade na defesa. Diante do perigo, presença de espírito é: correr. Pelo que me amo, sebo!
Se a circunstância me afrouxa a perna curta, minha palidez espanta assombrações, fantasmas e outros aparvalhados, pois a esperança vence por medo de sucumbir no meio da rua. Nem arma de brinquedo eu porto na bolsa a tiracolo nem sei de cor algum versículo para amedrontar quem teme a ira dos céus.
Fiquemos com a bolsa. E com o celular, no bolso.
Que treco fundamental para a ordem democrática do mundo atual. Arrisco dizer que a paz entre as pessoas de boa vontade depende do imediato acesso ao pensamento contemporâneo. Sem dúvida alguma, as ideias são constantemente viralizadas nas diversas redes. Aí canta solto o sabiá. Que beleza!
Então, para negociar longe das postagens, o recomendável é bancar o pecador arrependido. Afinal de contas, entre gente de bens, tudo tem jeito. Como quem manda tem juízo, siga no samba: Mora na filosofia. Morou, Maria?
Antes que a imagem suma pelas entrelinhas, Anália, o azul da gravata do camarada ao lado do Rodrigo Maia é moda.

Rodrigues da Silveira
Praia Grande, dia 07 de fevereiro de 2019.

terça-feira, 5 de fevereiro de 2019

Auto de fé


Auto de fé

Disse um dia, num recanto da Paris dos meus sonhos mais loucos, um bistrô tomado de gente interessada no vinho, talvez branco, na temperatura ideal que não sei qual seja, disse, tão logo se livrou da taça de champanhe, por certo era champanhe que todos bebericavam fazendo pose, foi então que o Picasso largou o seu Bordeaux favorito, certamente um tinto seco, para dizer aos presentes, embriagados o bastante para nem notar a boina bacanérrima da púbere Marie-Thérèse, foi em tal estado de lucidez que o andaluz vaticinou que “a arte é uma mentira que nos faz compreender a verdade, pelo menos a verdade que podemos compreender”.
Em verdade, digo que ficaria sem ar, e até faria aquele ar de inteligente, acaso me encontrasse lá. Como não estava, tenho de me emendar com alguma razão para escrever o que entra na página que estou escrevendo. Ocorre-me mudar o adágio: me diz com quem ando e ele dirá quem sou.
Claro está que o anexim atende a preceitos hodiernos, pela toxicidade semântica pós-cartesiana a instituir-se o excêntrico fardo. Hein? Traduzindo este Coelho Neto: nossos dias pedem que nos identifiquemos com quem somos, a partir das relações sociais. Mesmo que me digam que beber é fugir dos embates ideológicos? Falem à vontade, todavia eu cresço do meu jeito.
Assim, dou à escrita o principado do viver. E passo um terço do dia sentado, de lápis na mão, coçando a nuca, pigarreando, indo tomar água, vindo trocar as palavras. Mas não por ofício.
Escrever é minha vida. Isso rompe com as horas dedicadas e ultrapassa os limites do racional, do mais indicado à saúde.
E admito a minha entrega absoluta à escrita. Sofro, padeço, incorporo, encarno. Contudo, sem os sofrimentos do miserável, sem as maldições do azarado e sem as dores dos sifilíticos.
Pouco me importa a literatura, sigo possuído pela loucura da minha perdição. Todo submisso, me entrego à escrita.
Ando doente de palavras? No demente, o alienado.
A concórdia universal não depende do que faço. Faço, sem a pretensão de tirar quem se recolhe ao papelão. E continuo a fazer, trazendo um pingado anônimo a quem me ignora.
Minha paixão é insana, desumana, pouco dada a afagos. É amor que não me defende das injustiças do mundo. Se as vejo vindo em minha direção, pico a mula.
Por vezes me embriago na bem-aventurança de pensar que as palavras fazem por mim o que não faço. Talvez seja terçã a febre que não passa enquanto escrevo. Me entorpece a mente. Mil demônios! Não consigo parar de escrever. Mesmo quando pouco tenho a dizer aos cidadãos e às cidadãs que depositam no que tenho escrito um crédito que não mereço. Digo isso por trapaça sentimental? Por lirismo. Agora que sei...
Adeus, apostólica missão marxista.
Afinal, os juros dos boletos vencidos estão vibrando o meu celular, este silenciado tratante jamais emudecido.

Rodrigues da Silveira
Praia Grande, dia 05 de fevereiro de 2019.

domingo, 3 de fevereiro de 2019

Pétalas solidárias


Pétalas solidárias

Em dezembro passado, numa coluna do Roberto DaMatta, li que “a vivência da igualdade demanda conflito e coragem”. De pronto, cacei exemplos para esclarecer as ideias. Quanto mais busquei o entendimento, mais me senti a correr atrás do rabo.
O rabo é para indicar que padeço de alguma demência que nem sei dizer se já está catalogada por médicos, doutores e os mestres da saúde. Ou o calor fritou os meus miolos, de vez.
Como sempre, para puxar em mim o fio da meada que virou um emaranhado por eu andar à minha roda, veio a realidade.
Estava tomando suco de manga, e admito que, por timidez, sorri quando reverberou em mim a Mayra Andrade a cantar o teu pudor foi transmitido e será neutralizado. Na hora, associei a delícia da música com o prazer da minha beberagem, e, até confesso, ruborizei ao captar que pouco importa a cor do ouro, na corrida ao teu afeto, a medalha sempre é bronze.
Filtrado pelos 40 graus deste janeiro, pareço delirar.
Mas, à mesa ao lado da minha, sentam uma jovem mãe e a sua filhinha, de uns três ou quatro anos, por aí, a julgar pelas perguntas dos olhinhos. Dirigidos ao próximo, assombrados.
A pequerrucha, à deriva entre a TV e mim, fica exposta a todas aquelas violências. E como são torpes essas imagens de Brumadinho, e retratam um crime cometido contra as gentes de Minas Gerais, são o massacre hediondo contra as pessoas que têm o cotidiano à mercê dos negligentes da Vale e dos fiscais malandros e dos omissos que não fazem a justiça andar.
Quando perguntada, a mãe que, zapiando absorta e lépida, dispara que esse Brasil aí, filhota, vai mudar com o Bolsonaro. Tocada pelo sofrimento, a criança suplica misericórdia, contudo a imbecil, teclando, descarrega: Deus castiga os pecadores.
Do fel, fazer mel? É urgente um antídoto, porque me recuso a ser envenenado pelo que despeja esta energúmena.
Para meu alívio, ouço o porta-voz dos Bombeiros de Minas, o lúcido e articulado Pedro Aihara: “estamos trabalhando como se essas pessoas fossem nossas mães e nossos pais”.
Pelo respeito às pessoas e pela voz da igualdade, sou grato ao tenente. Pois não há acaso, há escolha nisto: somos gente.
Como uma história está conectada a outras, eis que me vem à ideia a da veterinária do Guarujá, do litoral paulista, que foi a Brumadinho para ajudar. Se dela não sei o nome, sei que ama a vida e o seu ofício. Posso dizê-lo, uma vez que, durante dias, ela deixou comida para um gatinho arredio. E só no terceiro dia o assustado bichano parou de correr da médica.
A vida segue em Brumadinho. Nesta sexta, sete dias após o desastre, à hora do estrondo da terra aprisionada pela cobiça, componentes do resgate espargem amor em pétalas, colhidas à coragem de quem se doa ao mundo, apesar dos espinhos.
Vendo a cena, não nego minhas líricas lágrimas indignadas, que brotam por nós ─ vivos e mortos.

Rodrigues da Silveira
Praia Grande, dia 03 de fevereiro de 2019.

quinta-feira, 31 de janeiro de 2019

Catimba de pé murcho






Catimba de pé murcho

Como diz António José Forte, no poema O poeta em Lisboa, me acompanha um fantasma que vela o passo transtornado. E o fantasma seria? A pluma pesada da ironia.
Ironia, sim. Pois na crônica de terça, O domador de oásis, tasquei que Neymar, o camisa 10 da nossa seleção de futebol, teria passado a infância, ou parte dela, na Vila Sônia.
Isso levantou vozes que me acusaram de desconhecer que o Instituto Neymar Jr está instalado no Jardim Glória, e acolhe meninas e meninos do entorno, atingindo direta e indiretamente 10 mil pessoas, do Aeroclube ao Sítio do Campo.
O Instituto tem notável e louvável atuação, sem dúvida.
E por que no Jardim Glória? Ora. Porque foi aí, neste bairro, que morou a família do Neymar. Ora bolas.
A correção, porém, veio de leitores e leitoras, cuja esperteza aguçada traveste-os em Auguste Dupin, aquele detetive criado por Edgar Allan Poe na história A carta roubada.
Mas, ali, o Sêneca em epígrafe é aviso a intransigentes que se apegam à letra do texto sem a lente da argúcia para o sutil, para outros humores. Coitadas pessoas, presas à bile de uma fidelidade factual. Não fica percebido o muro que as separa do fluido do dito com a correnteza que afasta, uma vez que, sendo eco, não tem luz. E o Sêneca epigráfico do Poe diz que nada é tão odioso à sabedoria como a excessiva sagacidade.
Ou seja, amigas e amigos, perderam-se da graça, dada pelo contexto. Afinal, mesmo o sonho que me ocorreu de pousar na crônica, justamente por vir aí, ele não ocorreu coisa nenhuma. Foi invenção, a modo de levar ao sorriso contido quem incapaz do riso desbragado.
É que, de maneira oposta ao citado Dupin, eu penso melhor no claro, pois no escuro minha memória volta e meia me deixa embaraçado pelo complexo do que me escapa da atenção.
Como desconfiança nada diz ao marrento, levo amarelo ao ser pego na banheira por todo Dupin de lupa na mão a rastrear o que faço, até em pensamento. Por falhar como preventor é que sou advertido desses meus carrinhos pela linha de fundo.
Incapaz de amestrar minha memória, esse cão que late para mosca morta, sigo mergulhado no oceano de desinformações?
Pessoal, para agravar minha posição, o nosso craque, ainda estudante da rede pública de Praia Grande, ganhou os Jogos Escolares pela Escola José Júlio Martins Baptista. Escola esta, aliás, que não fica no Glória. E a história com isso? Ouso dizer que nem o Neymar me deu caneta, pois, longe de suar numa quadra, segui cultivando a última flor do Lácio no Tio Baptista.
Ainda daquela crônica: a mãe ofendida por mim como figura ridícula? Sobre o que teria dito a ela, nada tenho a comentar; e quanto à mamãe, digo o mesmo. Porque não as confundo.
Compreendam-me, revoltados leitores e rebeladas leitoras, pela oportunidade de fintá-los com outro António José Forte:
─ Eu passo de bicicleta à velocidade do amor.

Rodrigues da Silveira
Praia Grande, dia 31 de janeiro de 2019.

terça-feira, 29 de janeiro de 2019

O domador de oásis



O domador de oásis

A vida, sempre, apronta umas travessuras que nem criança fui capaz de imaginar. Como se tivesse ganhado na loteria. Sei, ganhar é o mais desejado. Mas ganhar até mesmo sem jogar? Isso é traquinagem de gênio, de craque. Algo extraordinário.
Antes de contar o que tenho para contar, já vou dizendo que não sou nenhum domador de oásis para trazer sombra e água frescas a camelos imprevidentes. Se não bebeu, então...
Não se aborreça. Os fatos vêm abruptos, surpreendentes.
Teria alguém ligado lá em casa para avisar minha mãe que o PSG, o clube do Neymar, estaria me devendo dinheiro. Hein? Eu nunca joguei na França. Aliás, nunca fui atleta profissional. Para piorar a coisa toda, foi o próprio Neymar que teria ligado em nome do clube lá de Paris. O aviso era para ser claro. Para ontem, à minha espera tinha uma grana fabulosa. Já pensou? Da noite para o dia, ficar rico com essa bufunfa toda do PSG? E logo eu que sequer sei jogar peteca. Do nada, assim. Logo...
Logo, foi trote. Era uma pegadinha, a senhora caiu.
Para quem desconfia de tudo e de todos é fácil pensar assim, né? Diz o Sherlock Holmes que hiberna em mim, despertando para o frio da realidade nua e crua quando a esperteza alheia quer passar a perna. Ainda mais em quem a gente ama sem fazer questão, sem pensar, de peito aberto, às cegas. OK, mãe?
Pois então, bastaria a ela se perguntar se o tal alguém disse que era o Neymar da Vila Sônia. E, por um acaso, ele falou que ligava do orelhão que fica em frente da Maria Nilza? Xiii, diante desta escola não tem aparelho algum, mãe. Se ainda estivesse usando o telefone que fica na lateral da Newton de Castro, aí, sim, teria sido verdadeiro o telefonema. Mas todo mundo sabe que o Neymar menino foi morador da Vila Sônia, mãe, isso não iria carimbar como notícia batuta essa reles notícia falsa. E tem mais. A moça tinha fluente um bonito sotaque francês? Ô mãe, como é? Neymar não é nenhum nome de mulher.
Pois é. Você também está curioso: quem foi que ligou?
Ai, ai. Que danada, essa vida.
Se ao menos, a minha mãe entrasse nos meus sonhos para dar certo um recado. Porque, desse jeito, sempre vou acordar num sobressalto suarento dos infernos, sempre hei de perder o bonde da história e nunca baterá no meu peito essa esperança fulminante de me empanturrar com as verdinhas francesas.
Estou sonhando com dólares franceses?
A cabeça da gente é um campo estranhíssimo, de esquisita topografia e memoráveis partidas. Queria ter conhecimento dos quatro cantos, circular pelo gramado, subir dos vestiários ao cume das arquibancadas, inspirar gols. Gol!
Se tenho disposição e disciplina necessárias para tanto? Se navego por histórias bem ponteadas? Se for preciso, bebo dos desertos o que me cabe? Se isso é o bastante para uma vida?
Assim como bola de cristal rola redondo, mamãe, é evidente que só enxergo perguntas.

Rodrigues da Silveira
Praia Grande, dia 29 de janeiro de 2019.

domingo, 27 de janeiro de 2019

Notícias d'antanho


Notícias d’antanho

Pelo estado mental de nada esperar, sou feliz. Quando vivo os momentos de prazer ─ seja vendo House na TV, ouvindo o Beethoven do Brentano Quartet, lendo o recente Lobo Antunes ─ nesse estado, estou feliz.
Não rogo por desculpas se admito sentir a felicidade que me põe ao fio da calçada. Pedestre e não andarilho das nuvens, se me permitem a distinção. Não atribuo razão, senhora e senhor, em acusarem a mim de insensibilidade ou falta de fraternidade com o próximo. Estou cônscio de que nosso país segue fadado ao atropelo do bem-estar geral e irrestrito, mas segue na toada por defeitos de escolha.
Mesmo sabedor de que, segundo a OXFAM, há 165 milhões de brasileiros, ou seja, mais de 75% da nossa gente, que vivem com menos de dois salários mínimos mensais, isto é, no limite dos dois mil reais.
Pois bem. Mesmo de posse da informação, quando resolvo entabular uma conversa amistosa com alguém a quem tenho apreço, comento sem maiores pudores que ando com dor no fígado e aponto para a região à direita na barriga. E a pessoa, atrevida, questiona-me se não é a vesícula. Para cortar de vez o papo, tasco sem gel:
─ De que lado você está? De mim ou da minha dor?
Sim. A dor é a cabra morta em vez do bode; o deus saca de primeira e não engole a artimanha. Sofro mais e mais. E tenho que aceitar que a idade apronta das suas e, irremediavelmente, continua a fazer. Olhos, cabelos, pernas, joelhos, pulsos, e uns dois ou três órgãos, cuja utilidade nem sabia dizer qual era.
A coluna segue arcada. No meio das costas, o doloroso da protuberância. Sentado, o sofrimento que tanto desconforta. As mãos enclavinhadas à nuca, forço o corpo a endireitar-se, ereto na postura.
A Venezuela?
Talvez pirado pelo calor, fechado nisso de rodopiar na sala, sem música, pelado. Porém, calhou o acaso, ou o desejo, esta bússola amaldiçoada pela razão, de levar às mãos uma crônica de Machado de Assis, incluída em Bons Dias!
Em pleno 1889, o ilustríssimo General Guzmán, ditador que dava plantão à época, dissolveu o partido que fundara porque o povo estava comprando bananas noutra quitanda.
Onde papagaio não fala, arara canta de galo.
Maduro e Guaidó querem um governo para chamar de seu.
Batatolina.
Fogem venezuelanos. Foram-se mais de três milhões sem ter o que comer, sem emprego, sem dinheiro. Loucos para ter a vida imprevisível dos pacatos. Correm para Colômbia, Brasil, Peru. Mesmo que haja muros que os enlouqueça, correm.
Mas, em jusante, o brumado mata os botos? Dó não produz justiça. Nem artigos de política nem colunas sobre ajuda moral ─ se incompreensíveis, embotam a cabeça.
Como um vai da valsa, comovido, aceito umas adversativas ridículas. Por impudicícia tóxica, tolero o riso crônico de quem despacha miserandos famintos a um qualquer Bacamarte. Não, e não. Os encantos da vergonha não me despem de mim.

Rodrigues da Silveira
Praia Grande, dia 27 de janeiro de 2019.


quinta-feira, 24 de janeiro de 2019

O sabor do mundo


O sabor do mundo

Senhoras e senhores, se o cronista não incita a colheradas de lama, moderem seus conhecimentos, pois março abocanha o que dezembro não digere. Palmo a palmo para chegar a um palmo, o consumido a comer-se.
─ Não me assombro comigo.
Ainda que ninguém tenha reparado no joanete no pé errado do descalço Paul que atravessa a rua naquela famigerada foto. Embora sebiunouba majabi an de bugui an de buididipí seja um mistério explícito para quem procura entender ao pé da letra o que diga o verso. Mesmo que esteja bastante perceptível o conteúdo ao contrário da mensagem em Lua de Cristal que a Rainha simula convocar. Se bem que a cabeça do morcego de borracha tenha aparentemente causado uma curseira braba no Osbourne tão logo degustada. Conquanto o real não venha a ser assoviável como chupadores de cana adoram afirmar. Que fique o mudo pelo calado, sem tirar um zero antes da vírgula.
─ Pô! É carnaval... juízo.
Todavia a frente de quem desembarca do trem sempre está às costas de quem entra cheio de malas. Entretanto é esse um modo de demonstrar apego ao homem de chapéu de feltro que largou da mão da filhota. Mas a cigana que prefere observar os modos de princesa corrida para esposa desastrada não quer se envolver. No entanto é a renúncia a esses comportamentos pouco exemplares que faz com que nossas crianças deixem de crescer infantilizadas. Porém o galo da madrugada cava a vaga em nosso coração de gente que distribui dois mil por envelope. Contudo à direita do pai o espelho está colocado a 34 dinheiros à esquerda do filho. Para que avós conquistem o sarro amargo que água alguma dá conta de manifestá-lo canino.
─ Não é não!
Antes de mais nada, veio o pecado da lógica nos vertebrais, depois a culpa da incongruência. Logo de cara, como justificar o corretivo se não for para punir o desvio? A princípio, convém negar que a dor de barriga é o sinal do exagero de sorvete de pistache devorado depois da janta. Antes de tudo, a retidão do caráter ao mérito da sinceridade.
─ Se eu soubesse que era fácil de entender, teria eu mesmo buscado tal entendimento. Pois o que não se explica, explicado está.
E o pigarro?
Segundo o sábio povo chinês, 2019 é o ano do porco. Como domei o meu espírito de porco, estou prevendo que o campeão brasileiro, a conferir em dezembro, não será o clube óbvio, será o Tricolor do Morumbi.

Rodrigues da Silveira
Praia Grande, dia 24 de janeiro de 2019.

terça-feira, 22 de janeiro de 2019

Maresia


Maresia

─ Moço, quer comprar dropes?
Talvez seja o calor, ou as brotoejas nas costas e nas dobras da pele. Ando irritado comigo, logo irritadiço com o mundo.
Passar o dia submetido à temperatura elevada tem feito um estrago e tanto. Por todos os poros, sinto a pressão da panela. Ambas hão de fazer de mim uma gosma.
Do meu modo, estou condicionado.
Às costas, a camisa grudenta. Troquei-a, assim que retornei do banco; e outra vez, do supermercado.
─ Moço, quer dropes?
Se ponho o siso no aloprante da circunstância, pego pensar que o aquecimento global encontrou seu meio de me descolar para o transtorno.
Desde domingo passado, o calorão encarnou em mim como um zumbido. Que agonia virou meu ouvido direito. Parece que um bicho decidiu deixar marcas no meu tímpano, feito homem das cavernas.
O planeta, até ontem à noite, não fazia consciência de mim. Contava com isso para seguir discreto, outro miserável. Agora, porém, a vigilância é cerrada. Individual e intransferível.
Meneei a cabeça. Confere.
Em fuga pela sobrevivência, as pessoas arqueadas para o celular. Cada qual com seus compromissos. Mesmo no Hades, há redes para consumar bisbilhotices.
O martelo imparável vibrando tônicas e interjeições é linha privativa. Que tortura a Terra entrar na pessoa pelos ouvidos.
Exaurido, a cabeça recostada no vidro do ônibus, quero-me apagado. Sem saber como ir para a Ilha dos Amores, naufrago na rotina. Voltar não me recupera a energia. Se ao menos me dissipasse o calor, mas o suor só me serve para pesar oleosos membros, tronco e cabeça.
Dizem que, encerrada a estreia da peça Vestido de Noiva, Nelson Rodrigues foi surpreendido por um silêncio polar, de fim de mundo. Pelo súbito pasmo, não sei dizer se teria congelado na cadeira, se suou frio que nem urso no zoo ou se nele brotou esse carrapato escavando, escavando.
Ter o cérebro esburacado não sugere um queijo de desenho animado. É terrível a coisa dando uma de tatu, fazendo túneis na cabeça. Estará atrás de ouro? Meu sangue é comum, sou B negativo. Dona Marmota, não tenho Rh nulo.
Quero-me ensurdecido, em alívio. Sem sangramento.
Hoje é segunda? Ainda é.
O zumbido começou ontem, cravo que soa uma eternidade. Se me falta anti-inflamatório, quanta impaciência.
Muro algum, neste mundo, isola do calor?
Inventar é mentir com tal paixão que a verdade põe gosto de menta na língua da gente.

Rodrigues da Silveira
Praia Grande, 22 de janeiro de 2019.


domingo, 20 de janeiro de 2019

Preliminares do fim do mundo


Preliminares do fim do mundo

Com a Terra tornada neste postal do inferno, o meu desejo nada secreto é ir viver num freezer. Mesmo. Pois o calorão dos últimos dias vem pondo à prova a minha sanidade, levando-me a perder o apetite, ver reduzidas as horas de sono e acreditar que estou enredado nas alucinatórias teias de um morto.
No poema Lázaro, Murilo Mendes faz a personagem bíblica, já levantada da cova, dizer que, embora o mundo estivesse em ordem, não via o Deus que a mandara ressuscitar. Eis o ponto em que o texto soa afrontoso ao código moral a que todo bom cristão deve respeito, na leitura.
Deveria ter, mas quem liga para poetas? É um espécime já morto, e enterrado.
Ou melhor, soterrado por uma avalanche de virulências. As diatribes daquele jaez são um canudinho na Grande Mancha.
Sei. Mas nem uma caquinha de nada passa por irrelevante. A realidade monstruosa de umas 80 mil toneladas e um milhão e meio de metros quadrados é o bichorro a flutuar no Pacífico.
Não dá para pendurar na conta do inconsciente. É evidente que tal vontade crudelíssima e formuladora de violências faz gargalhar o guardião dos nossos ínferos mais recônditos. Sim, nossos. Que humanos somos capazes de brotar pelo em ovo e ferver chifre de unicórnio para o chá da juventude.
Uns vermezinhos ordinários, vimos matando o hospedeiro e mantemos a estufa na consciência. Mas será?
Não, apreensiva amiga e amigo estupefato, há mais águas na água que não sublimamos.
Por isso, busquemos ânimo para recusar muito do que nos querem vender. Como se precisássemos comprar a arma que a Indian Ordnance Factory colocou à venda recentemente. Um calibre 32, de seis tiros, 500 gramas, pequeno o bastante para caber numa bolsa de mulher.
Sim, é a primeira arma para mulheres fabricada no mundo, anuncia a empresa.
Se no cinema, e nem só nos bangue-bangues, as mulheres estão superpoderosas, é preciso denunciar este ardil de quem tenta convencê-las, e aos homens também, que andar armado é ter segurança para ir à feira ou à farmácia.
Mas gravar Nirbheek no cano do revólver é insultuoso.
Não me sustento, explico.
De acordo com as leis lá da Índia, vítima de estupro coletivo não pode ter o nome divulgado, assim, a imprensa do país deu o apelido Nirbheek ─ Corajosa ─ à jovem de 23 anos, morta em 2014, em Nova Déli.
Arre!
Nenhum sol danado há de nos converter à bestialidade.

Rodrigues da Silveira
Praia Grande, dia 20 de janeiro de 2019.

quinta-feira, 17 de janeiro de 2019

Quem fala por último


Quem fala por último

Como saber se uma pessoa tem poder ou não? Aquela que é poderosa, de fato, pode ser reconhecida não pelo que ela diz, mas como se faz ouvir. Ou seja, quando diz algo, o que diz tem que ser a coisa que deve ser ouvida. Sem que ninguém ouse questionar se a coisa ouvida tivesse sido mesmo dita. Absurda, incoerente ou até dissonante com o perfil de quem fala, a coisa ouvida é a que foi dita. Quem tem poder não é de ficar falando muito e, ao dizer alguma coisa, seja ouvido feito dobermann no cio. É animal obcecado, alheio a distrações, que está naquele estágio de ignorar ordens do tipo rola, senta, morra.
É o fim do papo, Cassandra.
Todavia, se o caso for de confusão generalizada, daquelas que pegam que nem virose em fila de postinho congestionado, ao ouvinte confuso é recomendado que, de acordo com aquele youtuber famoso, do qual não lembro o nome, o negócio é ir trocando uma palavra por outra até que o sentido do que se quer dizer, desde o início, não fique pela metade, uma vez que meia palavra sempre motiva uma barafunda maior ainda. E de buchicho, estamos cheios. Transbordantes.
Então? A César o que é de César.
Para encarnar, incorporar. Para incorporar, concretizar. Para concretizar, consolidar. Para consolidar, ordenar. Para ordenar, dispor. Para dispor, classificar. Para classificar, qualificar.
Oxe. Se é para ir por aí, melhor seguir.
Para encarnar, transcender. Para transcender, transgredir. Para transgredir, desrespeitar. Para desrespeitar, desobedecer, Para desobedecer, recusar. Para recusar, tolerar. Para tolerar, aceitar. Para aceitar, consentir. Para consentir, conviver.
Se para encarnar é preciso conviver, para cada aceitação, outra recusa. De recusa em recusa, ir até o limite. Chegado ao limite, ultrapassá-lo. Ultrapassar para delimitar. Definir. Tendo a definição que se deseja, encarná-la. E, encarnada, voltar de novo à transgressão de aceitá-la. Assim, aceitando, recusá-la.
Cáspite! Para que seja tolerada, a convivência com quem escuta depende de quem fala.
No caso, tem juízo quem não tem. A regra é dar razão a quem nem quer pedi-la. Então, seja tirada a voz a quem não tem. Na lógica do avesso, o normal é ouvir sem escutar.
Battisti... Dissimulação é camuflagem; máscara é disfarce. Por que você não ouve o que ninguém está lhe dizendo? Nem Jerusalém nem Telavive levam a Roma.

Rodrigues da Silveira
Praia Grande, dia 17 de janeiro de 2019.

domingo, 13 de janeiro de 2019

O décimo terceiro dia


O décimo terceiro dia

O ano que me cuide do jeito certo, com mel na torradinha e suspiros que sublimam na língua. Se me querem provar, que a sua inexperiência, meses, seja inédita. Ou, lá por novembro, à saída do calendário, irão lamentar a imprudência. E do que sou capaz, comigo afiado como uma navalha de barbeiro?
Ao sul de minhas preces, há uma frota de caravelas à linha d’água. Não me erradicarão do português. Abrasar-me-ão, têm a minha palavra, mas não passarão por mim pelo que falo.
Curtido na pele de bom brasileiro do bem, verei a mil, vinte, trinta mil a pedir, implorar, suplicar. Por alívio, pagarei para ver a picanha na grelha; desafiarei o Guilherme Tell que mofa ao lado; e o sol, o mesmo a cada aurora, não me desmentirá.
A mão que acolhe é a mesma que acaricia, soca e esmurra. Faço-o desde mim, pois dou ouvido ao que me recomendam os pacatos de coração. Porque similares, meus semelhantes.
Lobo civilizado pelo convívio, solto uns latidos de chihuahua. E corro atrás do que se mexe. Sem freio na boca, sem luz para o entendimento de que sombra tem vida própria e não para. A língua está cerrada, os dentes também.
Como um morcego dentro de casa, passo a soltar a minha voz catando milho no teclado. Anoto que rejeito o convite para a caminhada ecologicamente educativa, pois a nanotecnologia que a minha saúde precisa está em Harvard. E à contribuição voluntária nego os meus dados bancários, embora as crianças de Darfur mereçam comer e ser medicadas. Quase ponho meu endereço eletrônico num formulário daquela livraria que anda mal das pernas, mas não, prefiro ir folhear as páginas que nem pensei que leria.
Digo que não porto nem portarei um automóvel movido a GPS, e, de corpo presente, pelejarei por fatos justos mesmo a quem os queira desnudar. A eles, a você e a mim, digo o que a grita, no fundo, não quer calado em nós: que o mundo mude.
Assombrados com Ícaro, mais nos diverte o fracasso. Cegos por nos crermos menos covardes, damos guarida à soberba ao apupá-lo. Esquecemos, porém, que ele voou tão bem que usou as asinhas para peitar o Sol. Só que ninguém suporta afronta, o Rei mergulha o grego no mediterrâneo da sua altivez. Agora, o mortal é Mito.
Então, para revelar-se texto que prefere dobrar-se sobre si a ser simples, a crônica deve perder a aura de profecia.
Que este seja outro décimo terceiro dia.

Rodrigues da Silveira
Praia Grande, dia 13 de janeiro de 2019.


quinta-feira, 10 de janeiro de 2019

Lixo marxista


Lixo marxista

Costumo disciplinar-me ao irrefutável dos exemplos. Assim, recolho a prudência dos desvalidos que não dispensam como lixo o descartável para restaurantes, lanchonetes e bares, além de carrinhos de pastel ou garapa.
Para já, cônscio de minhas restrições gástricas, pesquei um tema menos pesado. Ponderei especular sobre a proeminência da anfisbena, cuja existência tomei conhecimento por meio de Jorge Luis Borges.
Borges? O visionário escritor portenho que via no invisível a névoa traiçoeira, a que, embevecidos que somos por muitas de suas miríades de filigranas, chamamos de realidade.
E um assunto mais outro... Quando me dei conta de mim, as pegadas perderam-me por caminhos labirínticos. Acho até que virei dublê de algum curupira, mas um de quatro pés.
A anfisbena? Melhor reservá-la para outro banquete.
Também não vou me embrenhar a destacar a relevância da marmita para quem come fora de casa nem palpitarei o quanto de riqueza é gerado pelas mais de 170 mil microempresas que operam com as quentinhas. Que tuítem os que têm estômago de avestruz.
Sem outras demoras, no intuito de municiar com petiscos o Governo agora em vigor, direto ao fogo:
1. “O segredo do sucesso é a honestidade. Se você conseguir evitá-la está feito!”
2. “Atrás de todo homem bem-sucedido, existe uma mulher. E, atrás dela, existe a mulher dele.”
3. “Há tantas coisas na vida mais importantes que o dinheiro. Mas, custam tanto.”
4. “Ele pode parecer um idiota e até agir como um idiota, mas não se deixe enganar: é mesmo um idiota!”
5. “Eu não frequento clubes que me aceitem como sócio.”
6. “Inteligência militar é uma contradição em termos.”
7. “Estes são os meus princípios. Se você não gosta deles, eu tenho outros.”
Serei leviano ao afirmar que as iguarias acima constam de GROUCHO E EU, pois é livro marxista que não lerei. Para dar fé das minhas intenções, recomendo que o famigerado volume seja comprado em livrarias, sebos, bancas de jornal, mercados de esquina, e o escambau. Porque levo muito, muito a sério alguém capaz de pôr em epitáfio uma frase dessas:
Perdoem-me por não levantar.
Para que a ordem moral da nossa Nação eleve o Moral da Ordem, fiquemos livres de envenenamento assaz repugnante.
É preciso olhar pelos próximos, porque devemos protegê-los de muitos desses... intoxicantes.
Sem detença, brasileiras e brasileiros: às batatas!

Rodrigues da Silveira
Praia Grande, dia 10 de janeiro de 2019.

terça-feira, 8 de janeiro de 2019

Paciência com o andor


Paciência com o andor

Sem nenhum deus, aparelho ou governante que o detenha, janeiro segue o curso da sua jornada. Já é o oitavo dia do mês. 2019 cumpre com obrigações sagradas; para atravessá-lo, não entra na dieta oferecer fôlego de atleta. A nado ou de cabeça, isso compete a mim.
Estou de pé, com dores, a coluna anda desviada aqui e ali, fazendo bico. Assim, e de repente, cerro-me no meu olhar: um poema de quem nunca antes havia lido nadinha.
Uns fios de ovos menos desconhecida, Érica jogou-me na minha saudade do arroz que, na pressão do pouco sal desse outrora, alimenta-me o agora.
Tateando-me sem a expertise dos espertos, provo da papa. Como errei a mão, não é que acertei? Uma vez temperada minha rememoração pelo sal que os dedos não domesticam, e os olhos menos ainda. Vindo deste sempre que parecia estar dormente, dum veio emocionante, o choro é por amor a quem me faz menino, e de todo, presente.
Poeta Zíngano, minha irmã nesta viagem, de que modo usar a saudade?
Tenho um poema que gostaria de gestar em mim, sinto que tenho. E minha cabeça não vai colaborar com o estômago, pois corro o risco de indigestão.
Mal começado o ano, rotinas e rotineiros não abandonam o plantão, e vão conchavando as suas rendas, seguem aliciando novas presas, ajustando a máscara do futuro com um retrato já passado.
Porta que se abre, fecha-se. Já dizia a mãe do meu pai.
À vista do que virá depois da esbórnia do Momo?
Longe de mim não afiançar Rodrigo Maia na presidência da Câmara. No mundo, sem um lustro de dúvida, há um princípio que os políticos dominam com destreza ímpar, que é o de falar a mais cristalina verdade sobre todas as coisas.
Sábios em dar as melhores explicações plausíveis a quem estiver prestando atenção, às pessoas que seguem sem tempo de fantasiar o melhor dos mundos? Nem a esmola do porém.
Ocupado em viver, estou com vocês. Nem imagino com qual utopia revelar a realidade que não há. Mesmo porque, eu estou desconfiado que nada disso vem de graça.
Quando os pés são de barro, pessoal, o negócio é aprender de peito aberto, por isso não vou atrás do que não quero. Se não quero aos outros, por que haverei de querer para mim?
Sempre há tempo para aprender o importante. Assim como os Berry, caçadores lá do Missouri, nos EUA: num dia canta a bala; noutro, o Bambi.
É lição, mesmo a quem saudoso com notícia de outros dias.

Rodrigues da Silveira
Praia Grande, 08 de janeiro de 2019.