Pétalas
solidárias
Em dezembro passado, numa coluna do
Roberto DaMatta, li que “a vivência da igualdade demanda conflito e coragem”. De
pronto, cacei exemplos para esclarecer as ideias. Quanto mais busquei o
entendimento, mais me senti a correr atrás do rabo.
O rabo é para indicar que padeço de
alguma demência que nem sei dizer se já está catalogada por médicos, doutores e
os mestres da saúde. Ou o calor fritou os meus miolos, de vez.
Como sempre, para puxar em mim o fio
da meada que virou um emaranhado por eu andar à minha roda, veio a realidade.
Estava tomando suco de manga, e admito
que, por timidez, sorri quando reverberou em mim a Mayra Andrade a cantar o teu pudor foi transmitido e será
neutralizado. Na hora, associei a delícia da música com o prazer da minha
beberagem, e, até confesso, ruborizei ao captar que pouco importa a cor do ouro, na corrida ao teu afeto, a medalha sempre é
bronze.
Filtrado pelos 40 graus deste janeiro,
pareço delirar.
Mas, à mesa ao lado da minha, sentam
uma jovem mãe e a sua filhinha, de uns três ou quatro anos, por aí, a julgar
pelas perguntas dos olhinhos. Dirigidos ao próximo, assombrados.
A pequerrucha, à deriva entre a TV e
mim, fica exposta a todas aquelas violências. E como são torpes essas imagens
de Brumadinho, e retratam um crime cometido contra as gentes de Minas Gerais, são
o massacre hediondo contra as pessoas que têm o cotidiano à mercê dos negligentes
da Vale e dos fiscais malandros e dos omissos que não fazem a justiça andar.
Quando perguntada, a mãe que, zapiando
absorta e lépida, dispara que esse Brasil
aí, filhota, vai mudar com o Bolsonaro. Tocada pelo sofrimento, a criança suplica
misericórdia, contudo a imbecil, teclando, descarrega: Deus castiga os pecadores.
Do fel, fazer mel? É urgente um
antídoto, porque me recuso a ser envenenado pelo que despeja esta energúmena.
Para meu alívio, ouço o porta-voz dos
Bombeiros de Minas, o lúcido e articulado Pedro Aihara: “estamos trabalhando
como se essas pessoas fossem nossas mães e nossos pais”.
Pelo respeito às pessoas e pela voz da
igualdade, sou grato ao tenente. Pois não há acaso, há escolha nisto: somos
gente.
Como uma história está conectada a
outras, eis que me vem à ideia a da veterinária do Guarujá, do litoral
paulista, que foi a Brumadinho para ajudar. Se dela não sei o nome, sei que ama
a vida e o seu ofício. Posso dizê-lo, uma vez que, durante dias, ela deixou
comida para um gatinho arredio. E só no terceiro dia o assustado bichano parou
de correr da médica.
A vida segue em Brumadinho. Nesta
sexta, sete dias após o desastre, à hora do estrondo da terra aprisionada pela
cobiça, componentes do resgate espargem amor em pétalas, colhidas à coragem de
quem se doa ao mundo, apesar dos espinhos.
Vendo a cena, não nego minhas líricas lágrimas
indignadas, que brotam por nós ─ vivos e mortos.
Rodrigues da Silveira
Praia Grande, dia 03 de fevereiro de
2019.
Nenhum comentário:
Postar um comentário