terça-feira, 5 de fevereiro de 2019

Auto de fé


Auto de fé

Disse um dia, num recanto da Paris dos meus sonhos mais loucos, um bistrô tomado de gente interessada no vinho, talvez branco, na temperatura ideal que não sei qual seja, disse, tão logo se livrou da taça de champanhe, por certo era champanhe que todos bebericavam fazendo pose, foi então que o Picasso largou o seu Bordeaux favorito, certamente um tinto seco, para dizer aos presentes, embriagados o bastante para nem notar a boina bacanérrima da púbere Marie-Thérèse, foi em tal estado de lucidez que o andaluz vaticinou que “a arte é uma mentira que nos faz compreender a verdade, pelo menos a verdade que podemos compreender”.
Em verdade, digo que ficaria sem ar, e até faria aquele ar de inteligente, acaso me encontrasse lá. Como não estava, tenho de me emendar com alguma razão para escrever o que entra na página que estou escrevendo. Ocorre-me mudar o adágio: me diz com quem ando e ele dirá quem sou.
Claro está que o anexim atende a preceitos hodiernos, pela toxicidade semântica pós-cartesiana a instituir-se o excêntrico fardo. Hein? Traduzindo este Coelho Neto: nossos dias pedem que nos identifiquemos com quem somos, a partir das relações sociais. Mesmo que me digam que beber é fugir dos embates ideológicos? Falem à vontade, todavia eu cresço do meu jeito.
Assim, dou à escrita o principado do viver. E passo um terço do dia sentado, de lápis na mão, coçando a nuca, pigarreando, indo tomar água, vindo trocar as palavras. Mas não por ofício.
Escrever é minha vida. Isso rompe com as horas dedicadas e ultrapassa os limites do racional, do mais indicado à saúde.
E admito a minha entrega absoluta à escrita. Sofro, padeço, incorporo, encarno. Contudo, sem os sofrimentos do miserável, sem as maldições do azarado e sem as dores dos sifilíticos.
Pouco me importa a literatura, sigo possuído pela loucura da minha perdição. Todo submisso, me entrego à escrita.
Ando doente de palavras? No demente, o alienado.
A concórdia universal não depende do que faço. Faço, sem a pretensão de tirar quem se recolhe ao papelão. E continuo a fazer, trazendo um pingado anônimo a quem me ignora.
Minha paixão é insana, desumana, pouco dada a afagos. É amor que não me defende das injustiças do mundo. Se as vejo vindo em minha direção, pico a mula.
Por vezes me embriago na bem-aventurança de pensar que as palavras fazem por mim o que não faço. Talvez seja terçã a febre que não passa enquanto escrevo. Me entorpece a mente. Mil demônios! Não consigo parar de escrever. Mesmo quando pouco tenho a dizer aos cidadãos e às cidadãs que depositam no que tenho escrito um crédito que não mereço. Digo isso por trapaça sentimental? Por lirismo. Agora que sei...
Adeus, apostólica missão marxista.
Afinal, os juros dos boletos vencidos estão vibrando o meu celular, este silenciado tratante jamais emudecido.

Rodrigues da Silveira
Praia Grande, dia 05 de fevereiro de 2019.

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