Auto
de fé
Disse um dia, num recanto da Paris dos
meus sonhos mais loucos, um bistrô tomado de gente interessada no vinho, talvez
branco, na temperatura ideal que não sei qual seja, disse, tão logo se livrou
da taça de champanhe, por certo era champanhe que todos bebericavam fazendo
pose, foi então que o Picasso largou o seu Bordeaux favorito, certamente um tinto
seco, para dizer aos presentes, embriagados o bastante para nem notar a boina
bacanérrima da púbere Marie-Thérèse, foi em tal estado de lucidez que o andaluz
vaticinou que “a arte é uma mentira que nos faz compreender a verdade, pelo
menos a verdade que podemos compreender”.
Em verdade, digo que ficaria sem ar, e
até faria aquele ar de inteligente, acaso me encontrasse lá. Como não estava, tenho
de me emendar com alguma razão para escrever o que entra na página que estou
escrevendo. Ocorre-me mudar o adágio: me diz com quem ando e ele dirá quem sou.
Claro está que o anexim atende a
preceitos hodiernos, pela toxicidade semântica pós-cartesiana a instituir-se o excêntrico
fardo. Hein? Traduzindo este Coelho Neto: nossos dias pedem que nos identifiquemos
com quem somos, a partir das relações sociais. Mesmo que me digam que beber é
fugir dos embates ideológicos? Falem à vontade, todavia eu cresço do meu jeito.
Assim, dou à escrita o principado do
viver. E passo um terço do dia sentado, de lápis na mão, coçando a nuca,
pigarreando, indo tomar água, vindo trocar as palavras. Mas não por ofício.
Escrever é minha vida. Isso rompe com
as horas dedicadas e ultrapassa os limites do racional, do mais indicado à
saúde.
E admito a minha entrega absoluta à
escrita. Sofro, padeço, incorporo, encarno. Contudo, sem os sofrimentos do
miserável, sem as maldições do azarado e sem as dores dos sifilíticos.
Pouco me importa a literatura, sigo
possuído pela loucura da minha perdição. Todo submisso, me entrego à escrita.
Ando doente de palavras? No demente, o
alienado.
A concórdia universal não depende do
que faço. Faço, sem a pretensão de tirar quem se recolhe ao papelão. E continuo
a fazer, trazendo um pingado anônimo a quem me ignora.
Minha paixão é insana, desumana, pouco
dada a afagos. É amor que não me defende das injustiças do mundo. Se as vejo vindo
em minha direção, pico a mula.
Por vezes me embriago na bem-aventurança
de pensar que as palavras fazem por mim o que não faço. Talvez seja terçã a
febre que não passa enquanto escrevo. Me entorpece a mente. Mil demônios! Não consigo
parar de escrever. Mesmo quando pouco tenho a dizer aos cidadãos e às cidadãs
que depositam no que tenho escrito um crédito que não mereço. Digo isso por trapaça
sentimental? Por lirismo. Agora que sei...
Adeus, apostólica missão marxista.
Afinal, os juros dos boletos vencidos estão
vibrando o meu celular, este silenciado tratante jamais emudecido.
Rodrigues
da Silveira
Praia Grande, dia 05 de fevereiro de
2019.
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