domingo, 17 de fevereiro de 2019

A centímetros, o paraíso


A centímetros, o paraíso

A implicância começou com o travesseiro. Muito baixo.
Só poderia ter relação. O travesseiro de algodão, em vez de qualquer outro material ─ sintético ou natural. Talvez não fosse o motivo, mas a altura que tinha era razão para o desconforto. Sem dúvida. Era preciso aceitar esse porquê. As horas do sono entrecortado, com as imagens perturbadoras, servem de prova.
Passar o dia cochilando não faz bem. Não bastasse a feiura de berço. O corpo fica ridículo com o rosto amassado no vidro do ônibus. Sem mais, toca o celular.
Alguém me obriga a engolir a baba. Respondo que a Malala foi alvejada por talibãs, mas não, não foi por isso que, aos 17 anos, recebeu o Nobel da Paz. Foi por sua defesa do direito de meninas do Paquistão poder estudar.
O monitor sequestra para um mundo de infográficos. Nada me parece mais convidativo. Cochilo. A mão escora as ruínas da noite. Porque dá pouca firmeza ao maxilar, a boca começa a produzir ruídos. Conforme testemunhas, ronco.
A mensagem estridente interrompe o reinado de Morfeu. Por resposta, digito. Beber cerveja aumenta o ácido láctico e o gás carbônico, liberados ao suar. Além de cairomônios, que atraem mosquitos. Daí o maior número de picadas.
No grupo do Zap, seres especiais, cujo dom maior é o olho clínico, enxergam na pessoa o que tenta disfarçar. A tristeza, por trás do sorrisinho amarelo; por sugestões de filmes e livros, a alegria. A minha felicidade? Quando não peço nada. É leitura assombrosa, uma vez que as sutilezas dos estados de nossa alma são alcançadas a partir dos emojis que usamos.
O sinal sonoro torna o mundo telepático uma realidade. A tal vidente está clicando. E já emendo que foi na CES, a feira de bugigangas tecnoeletrônicas de Las Vegas, que um automóvel autônomo atropelou um robô. Que falta de senso das coisas. O tal carro reconhece os humanos e os robonoides não.
Na TV, governo propõe a idade mínima para aposentadoria: a de homens passa a ser 65 anos; a das mulheres, 62. Nem cinco minutos, e uma voz comanda a mente. Será possível que metade dos militares aposenta entre 45 e 50 anos?
Daí que não vou correr atrás de outro mundo. Não sou dado a querer nostalgias, por isso não vou pedir por aquela vida que um dia já foi mais tranquila, sem maiores angústias. Não quero voltar à época em que era menos informado. É certo que houve mesmo um mundo assim. Uma era sem celular, sem internet. A vida sem sem daquele mundo? Isso já foi.
Adeus ignorância que prolifera inocências. Mãos alcancem o telefone; vozes solicitem dados; dedos lutem por transparência. Que haja mídia a abrir olhos, ouvidos e bocas.
As horas de tormento? Por causa dos celulares e da WEB, a solução foi trocar de travesseiro. Centímetros mais denso, eis o paraíso. Também gosto de sabiás e riachinhos.
Para cair nas irritações do sono próprio, Doral ou Doril?

Rodrigues da Silveira
Praia Grande, dia 17 de fevereiro de 2019.

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