Ano
Bom
Com o olhar indiscreto de pessoa responsável, nas palavras de
Paulo Mendes Campos, abro uma janela sem fio, a tela do computador. Antes mesmo
de tomar café e sair para enfrentar os humores do mundo envergando o sorriso de
idiota convicto, o ano começa comigo na leitura diária dos jornais. Há décadas,
faço isso. Com a disposição de quem se deixa espantar pelo que as folhas
trazem, de novo ou outra vez. O que mudou foi a leitura mais higiênica, pois a
tinta já não suja os meus dedos. O fígado, contudo, permanece sujeito à
impotência para suportar descargas por demais tacanhas e dogmáticas.
Enfim, começa o ano. De perspectivas
várias, tão sedutoras. Alimento para esperanças. Uma delas, atávica até, leva muitas
pessoas, dos mais variados espectros, a depositar na mudança do calendário o
que o Tempo precisa para andar comportado, previsível, humano como nós. A
folhinha, de acordo com quem acredita nisso, é o espelho do retorno do eterno
que vive em cada um de nós.
Dia primeiro? Sigo na caminhada. De olho
na realidade que não bebe espumante. À direita, descalça na areia, a menina deslizou
em fezes nada míticas. À esquerda, o garoto precisou fugir da asa delta que pousou
como se um urubu enamorado lhe tivesse prometido amores.
As ondas, indiferentes aos pedidos, trazem
dejetos que não afundaram bem longe da costa. Talvez haja a mão providencial de
Gaia, preventiva ao desovar as imundícies. Sujeiras que nós outros, seres
humanos, fabricamos e descartamos sem a tal da consciência ecológica que juramos
promover.
Nem o Netuno embarca nas promessas. O
clima não espera que apadrinhem as ações urgentes. E há quem jogue na nossa
cara o pastelão do deboche. Para 2020, eles já têm o pedido: o minuto continue
a ter 60 segundos, a hora 60 minutos e o dia 24 horas. Assim no ano passado,
assim no próximo. Para eles, pedir é fato. Então, as pessoas parem de se
preocupar à toa. Há tanto a se fazer. Até clepsidras.
Paciência?
A saliva azeda. O estômago não digere a
leitura do que não engulo.
A primeira medida econômica do governo:
o salário mínimo de R$ 954,00 foi para R$ 998,00. Os ouvidos do INPC e as mãos
do PIB perderam R$ 8,00.
Com tanta queimada, desprezar o
Executivo cioso das leis e a Câmara que incinera a responsabilidade fiscal é
cortar lenha para a fogueira.
Resta a honestidade que o pudor
permite: ave 2023!
Rodrigues
da Silveira
Praia Grande, dia 06 de janeiro de
2019.
