quarta-feira, 31 de dezembro de 2025

Em chamas

 

Em chamas

 

Apressados ou atrasados, não se enganem, pois não camuflo que construo uma arapuca ꟷ diante dos eventos, confiança é tudo.

Em paz consigo, desfrutem do espelho em cacos. Pra cumplicidade bem escanhoada, assegurem: a raiva sangre.

Corto-me ao fazer a barba. Mas não fico nisso: indo por aí, dou com gente mais idiota que feliz.

O infeliz que encontro nem me é conhecido. Só o vi num churrasco de nem sei lá quem fosse, justamente por isso: acena, vem, me abraça como quem me carregou no colo.

Ao amigo do amigo do meu pai eu poderia propor algo que o fizesse pensar, um fogacho que incendeie o que é palha.

A troco de nada, a senha da fortuna poderia ter sido dita. Todavia, ele foi comigo sacar uns dinheirinhos no caixa eletrônico.

Sacar na amplidão do meio-dia, isso me põe atônito.

Já que os olhos têm calor quando o que importa são os dedos que digitam, ao cronista não sejam atribuídos o testemunho contábil nem a guarda mnemônica do hipotético crime cometido.

Conversinha é areia nos meus tímpanos...

Esta ideia me pegou: nenhum almoço vire jantar, pago o almoço pro amigo do amigo do meu pai.

Pelo mundo a levar-me, observo. Sim, há quem peça que me afaste da bomba de gasolina, já que eu nem tenho carro.

Noto: entre posto de gasolina e caixa eletrônico, o valor da dívida, exibindo a pérola, acaba distorcendo o que seja ostra.

Amigo do amigo do meu pai, não lhe enviarei a imagem por e-mail, pois ela ainda é esboço...

Vem o Álvaro de Campos me desnortear, prefiro por isso o nada de ser apenas esse ser nada.

Não é o dinheiro que paga a cerveja, o caminhão que a transporta e o pedágio de uma ressaca, é a boca que não para de beber.

Cachola cheia de vozes, tenho a minha.

Meus demônios, são tantas as mentiras que escuto que o caminho pra chegar aqui é íngreme. Sem outras explicações, me enfurece quem foge de perguntas incômodas.

Não sendo sonâmbulo que nem penso o que falo: é provocado pela realidade que faço o que faço sem me abster das consequências. Sim, a voz que incendeia é: precária, provisória. Portanto, única.

Como eu não vivo um instante duas vezes, Heráclito: nem sei o que dizer sobre a arte.

Entre fogo e espelho, boca e garfo, nem tudo que seduz é arte, mas é preciso nominar arte o que se faz como sendo arte, pelo artesanato de fazê-lo.

Censor do artista, diz o rigor: quando salva, a arte condena.


Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 31 de dezembro de 2025.

 

 

 

 

PS – No livro SOPA DE SAPO, o título da crônica é Arquivo Morto, mas os amigos dos amigos do meu pai continuam serelepes. Daí que, rindo um bocado ao revisitar meus chavões, reescrevi o texto.

 

PS.2 - 2026, tenha dó da gente e vire, rapidinho, 2030, para que se possa celebrar o bicampeonato da nossa pátria de chuteiras.

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