domingo, 14 de dezembro de 2025

O horrível na foto

 

O horrível na foto

 

Tem coisa fedendo. Um cheiro horrível está empesteando o quarto. Abro os olhos, giro o pescoço e vejo Marx com a mandíbula repousada no meu tornozelo.

ꟷ Amigão, sei que foi você que aprontou.

Abanando o rabo, meu pug vem lamber-me a boca porque ele sabe que acharei a verdade quando raciocinar melhor, quem sabe já menos sonado, com a raiva mais bem direcionada, para o alvo certo.

Preciso de estar esperto, assim, ainda que siga ladeira abaixo, indo na banguela, não tiro meus patins por nada.

Espreguiçando, já me esforço, dou a orientação necessária pra que a cachola lute pelo equilíbrio que preciso para patinar no calçadão.

Penso, logo a circunstância é para rir.

Nunca durmo de bruços com a cabeça virada para fora da cama, já que, à altura da nuca, tenho desvio na coluna.

No chão ao lado da cama, à altura da minha boca, o vômito provoca aquela coisa fedorenta, porque eu devo ter farreado à beça.

ꟷ É óbvio, Marx, que fui eu que aprontei.

Pelo que me lembro, você e eu ficamos na sala, vendo tevê. A noite passada não caímos na esbórnia.

Com mil diabos! Por que emporcalhei o quarto?

Marx, você sabe que não bebo nada que tenha álcool. Nem cerveja sem álcool eu encaro, como você bem sabe.

Então, meu chapa, como é que eu preciso encher o balde de água, preciso pegar panos, devo ajoelhar-me sobre o cadáver nojento que o chão do quarto insiste em sua remoção imediata?

Meu camarada, amigo para todas as horas, me ajoelho, limpo, torço o pano, torno a limpar, torno a torcer o pano na água. Amigo das horas em que Mefisto vem oferecer os seus préstimos, vou jogar a água, que já o balde está nauseabundo, pois tenho alma sensível, principalmente se as entranhas intestinam um alien irritantemente terráqueo.

Isso, amigão. Você é sagaz. E sua sagacidade chama para brincar os elétrons da minha moringa.

Víamos tevê quando um carro veio anunciar um troço qualquer. Era um troço qualquer porque o som do alto-falante não nos dava condição de entender o que era anunciado.

O troço qualquer, Marx, continuava a ser uma esfinge a me chamar que fosse escutá-la, compreendê-la na sua necessidade de cativar que eu pudesse, por mim, defini-la como necessidade minha, uma vez que pude ouvi-la direito.

Ela atiçou só as lombriguinhas da minha curiosidade?

Embora fosse madrugada, tive que ir. E o que vi, todavia, devia ter-me alertado que aquela palhaçada tinha as digitais do Cão.

Não havia carro. Parado na esquina, tinha um peruzinho usado em construção e a caixinha de som era dessas que se usa para aborrecer banhistas.

Reconheço que não sou nenhum banhista, mas, justamente por ser safo, soltei a rédea.

Tendo a cautela de desconfiar, recusando-se a dar uma mordidinha que fosse no produto, bastou-lhe lamber o quitute tentador.

Fui abocanhado rapidinho, Marx, porque eu nunca tinha ouvido falar em pamonha de Piracaia.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 14 de dezembro de 2025.

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