Tem
coisa fedendo. Um cheiro horrível está empesteando o quarto. Abro os olhos,
giro o pescoço e vejo Marx com a mandíbula repousada no meu tornozelo.
ꟷ
Amigão, sei que foi você que aprontou.
Abanando
o rabo, meu pug vem lamber-me a boca porque ele sabe que acharei a verdade
quando raciocinar melhor, quem sabe já menos sonado, com a raiva mais bem
direcionada, para o alvo certo.
Preciso
de estar esperto, assim, ainda que siga ladeira abaixo, indo na banguela, não
tiro meus patins por nada.
Espreguiçando,
já me esforço, dou a orientação necessária pra que a cachola lute pelo equilíbrio
que preciso para patinar no calçadão.
Penso,
logo a circunstância é para rir.
Nunca
durmo de bruços com a cabeça virada para fora da cama, já que, à altura da
nuca, tenho desvio na coluna.
No
chão ao lado da cama, à altura da minha boca, o vômito provoca aquela coisa fedorenta,
porque eu devo ter farreado à beça.
ꟷ
É óbvio, Marx, que fui eu que aprontei.
Pelo
que me lembro, você e eu ficamos na sala, vendo tevê. A noite passada não
caímos na esbórnia.
Com
mil diabos! Por que emporcalhei o quarto?
Marx,
você sabe que não bebo nada que tenha álcool. Nem cerveja sem álcool eu encaro,
como você bem sabe.
Então,
meu chapa, como é que eu preciso encher o balde de água, preciso pegar panos,
devo ajoelhar-me sobre o cadáver nojento que o chão do quarto insiste em sua
remoção imediata?
Meu
camarada, amigo para todas as horas, me ajoelho, limpo, torço o pano, torno a
limpar, torno a torcer o pano na água. Amigo das horas em que Mefisto vem
oferecer os seus préstimos, vou jogar a água, que já o balde está nauseabundo, pois
tenho alma sensível, principalmente se as entranhas intestinam um alien
irritantemente terráqueo.
Isso,
amigão. Você é sagaz. E sua sagacidade chama para brincar os elétrons da minha
moringa.
Víamos
tevê quando um carro veio anunciar um troço qualquer. Era um troço qualquer
porque o som do alto-falante não nos dava condição de entender o que era
anunciado.
O
troço qualquer, Marx, continuava a ser uma esfinge a me chamar que fosse
escutá-la, compreendê-la na sua necessidade de cativar que eu pudesse, por mim,
defini-la como necessidade minha, uma vez que pude ouvi-la direito.
Ela
atiçou só as lombriguinhas da minha curiosidade?
Embora
fosse madrugada, tive que ir. E o que vi, todavia, devia ter-me alertado que
aquela palhaçada tinha as digitais do Cão.
Não
havia carro. Parado na esquina, tinha um peruzinho usado em construção e a
caixinha de som era dessas que se usa para aborrecer banhistas.
Reconheço
que não sou nenhum banhista, mas, justamente por ser safo, soltei a rédea.
Tendo
a cautela de desconfiar, recusando-se a dar uma mordidinha que fosse no
produto, bastou-lhe lamber o quitute tentador.
Fui
abocanhado rapidinho, Marx, porque eu nunca tinha ouvido falar em pamonha de
Piracaia.
Rodrigues da Silveira
Ibiúna,
dia 14 de dezembro de 2025.
Nenhum comentário:
Postar um comentário