Antes
eu não tivesse feito a barba, não estaria menos indefeso na figura de cachorro
louco que espuma por nada, estaria irreconhecível, seria um buldogue que late,
que, por medo de cara feia, rosna que nem bichão de sete cabeças.
Quando
barbudo, raríssimos me encaram, pois solto meus dragões sem pestanejar. Babando
por qualquer piscadelinha, que isso não me exime de apavorá-los.
Como
não tenho o embuste da barba postiça, não dispenso fones. Exibindo o meu bumbum
de bebê, estou outra vez tentando ouvir Bob Dylan. Benditos fones que não
afasta ninguém, e vem gente perguntar se o que ouço é a novíssima antologia dos
Beatles.
Pessoinhas
simpáticas, não lhes digo que a frustração, minha velha companheira quando se
trata de enquadrar o Dylan nos fones, dá o ar da presença bem quando estou sem
barba, cavanhaque fajuto, sem o rosto do Syd Barrett na camiseta.
Estou
de polo; ainda por cima, a polo é vermelha.
Vim
pedindo para ser esculachado, doido que o povo perca tempo, desça a pua. Querendo
uma altercação achincalhante, vim dar alegria, que eu não viro fumaça, não sumo
abestado que nem saci, eu não vou fazer figuração numa novela turca.
Se
o pessoal não conta que vá pro cu do judas, vou porque a minha cachola tem demônios
alvoroçados: os bicharocos pedem aceleração, justapondo ideias em ideias,
dizendo e me desdizendo, besta ridícula; há demônios que segredam que não salivo
e não escarro, afigurando-me numa persona oca, barroca, este tremendo falastrão
de tentáculos apopléticos, cuja batalha pela paralisia faz espumar, já
defecado.
Estou
sujo, mas não aperto o passo. Ponho nos fones um Arvo Pärt que sossegue os cães
que me latem dos pés à cabeça; escuto Spiegel im Spiegel, já que 1977 é um ano
que nunca há de acabar tão somente porque desejam que a caravana passe.
Mente
suprema, creia-me, não é pela má-fé das fezes que me faço fedido, é natural que
haja decadência. Supremo algoz, elevo o volume, uma vez que esse desejo conta que
a fedentina passa.
Perdoe-me
pelo perdão que acredito ser mérito meu, pela lisura que meu caráter não oculta
de mim que envelheci, pela honestidade que a minha índole já não tem razão de me
eclipsar eternamente imberbe.
Perdão,
pois não me censuro por minha luta sem folga contra a mão que segura a navalha,
manipula a lâmina, sangra o porco pra consoada que há de vir quando houver de
vir, porque outrora veio, brilhou no céu da pátria, luzente como cachaço, não
como leitoa.
Se
houver pretexto palatável como garapa, sejam analisados meus embargos, esses fogachos
do fogaréu fora de época, pois não tiro São João pela Estrela de Belém. Não estou
desatento, estou distraído. Que agora eu sinto, estou sentindo. Já nem sei os porquês,
mas, fácil, fácil, fico iracundo, peito todo mundo que não deixe ouvir o que o meu
celular tem parado no topo, o Anticristo.
Rodrigues da Silveira
Ibiúna,
dia 02 de dezembro de 2025.
Nenhum comentário:
Postar um comentário