terça-feira, 2 de dezembro de 2025

Anedota nietzscheana

 

Anedota nietzscheana

 

Antes eu não tivesse feito a barba, não estaria menos indefeso na figura de cachorro louco que espuma por nada, estaria irreconhecível, seria um buldogue que late, que, por medo de cara feia, rosna que nem bichão de sete cabeças.

Quando barbudo, raríssimos me encaram, pois solto meus dragões sem pestanejar. Babando por qualquer piscadelinha, que isso não me exime de apavorá-los.

Como não tenho o embuste da barba postiça, não dispenso fones. Exibindo o meu bumbum de bebê, estou outra vez tentando ouvir Bob Dylan. Benditos fones que não afasta ninguém, e vem gente perguntar se o que ouço é a novíssima antologia dos Beatles.

Pessoinhas simpáticas, não lhes digo que a frustração, minha velha companheira quando se trata de enquadrar o Dylan nos fones, dá o ar da presença bem quando estou sem barba, cavanhaque fajuto, sem o rosto do Syd Barrett na camiseta.

Estou de polo; ainda por cima, a polo é vermelha.

Vim pedindo para ser esculachado, doido que o povo perca tempo, desça a pua. Querendo uma altercação achincalhante, vim dar alegria, que eu não viro fumaça, não sumo abestado que nem saci, eu não vou fazer figuração numa novela turca.

Se o pessoal não conta que vá pro cu do judas, vou porque a minha cachola tem demônios alvoroçados: os bicharocos pedem aceleração, justapondo ideias em ideias, dizendo e me desdizendo, besta ridícula; há demônios que segredam que não salivo e não escarro, afigurando-me numa persona oca, barroca, este tremendo falastrão de tentáculos apopléticos, cuja batalha pela paralisia faz espumar, já defecado.

Estou sujo, mas não aperto o passo. Ponho nos fones um Arvo Pärt que sossegue os cães que me latem dos pés à cabeça; escuto Spiegel im Spiegel, já que 1977 é um ano que nunca há de acabar tão somente porque desejam que a caravana passe.

Mente suprema, creia-me, não é pela má-fé das fezes que me faço fedido, é natural que haja decadência. Supremo algoz, elevo o volume, uma vez que esse desejo conta que a fedentina passa.

Perdoe-me pelo perdão que acredito ser mérito meu, pela lisura que meu caráter não oculta de mim que envelheci, pela honestidade que a minha índole já não tem razão de me eclipsar eternamente imberbe.

Perdão, pois não me censuro por minha luta sem folga contra a mão que segura a navalha, manipula a lâmina, sangra o porco pra consoada que há de vir quando houver de vir, porque outrora veio, brilhou no céu da pátria, luzente como cachaço, não como leitoa.

Se houver pretexto palatável como garapa, sejam analisados meus embargos, esses fogachos do fogaréu fora de época, pois não tiro São João pela Estrela de Belém. Não estou desatento, estou distraído. Que agora eu sinto, estou sentindo. Já nem sei os porquês, mas, fácil, fácil, fico iracundo, peito todo mundo que não deixe ouvir o que o meu celular tem parado no topo, o Anticristo.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 02 de dezembro de 2025.


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