Atento
às necessidades do que escrevo, sem que as formiguinhas dos meus nervos me
deixem mais cansado do que estou, prefiro que o mundo fique onde está: dentro
de mim pelo que percebo.
Sem
me congratular pela boa-vontade de abençoar o que dispensa de ser abençoado, sigo
na labuta.
Por
cansaço físico, de formiguinhas no extremo do meu ser, no vão entre os átomos, vibrantes,
excitadas, onde o céu noturno faz conhecer relâmpagos, espasmódicos relâmpagos,
a lida cansa.
Na
cachola, algo mais lúcido me desarma.
Desabrido,
não largo o osso. Certo, narcotizam-me as palavras, que a semântica pegue-me
pela mão, a dizer-me por onde ir.
Entendo
o cansaço. Acolho o entendimento: a cabeça me faz ir de palavra em palavra até
que o paredão angustie.
Não
concluída, a tarefa é um monólito.
Na
tela, é vertical o abismo que desafia: faça-me as perguntas que pensa possíveis
de deixá-lo satisfeito; tente manter-se lúcido, cansado, mas não exaurido;
ainda que se perceba seduzido a concluir-me, não esmoreça; não se iluda: sou fenda
intransponível, estreita demais pro tédio a infestar-lhe os neurônios; e
incontornável, pois suas ansiedades o configuram ꟷ perceba o quão paralítico
está.
Afine-se
na percepção, condicione-se ao óbvio: não é o afazer que atrapalha o trabalho,
é o seu corpo a pedir por copo d’água.
Ainda
não verterei o copo, não abandonarei o texto sem que, corpo, eu o defenda das insolências.
Porque inventarei um problema técnico, que o computador destrave no momento que
mais o almeje operante, funcionando bem, sem rir de mim ao encará-lo a rodar um
troço.
Não
respondo conforme o manual do universo?
Eu
me aborreço, mas o meu aborrecimento me faz agir.
Tenho
mãos, dedos, unhas: minhas mãos tocam o teclado, os meus dedos querem digitar,
as unhas da minha aflição bem que desejam que eu crave as letras que
continuarão o texto.
Mas
o troço rodando no centro da tela não para de rodar. Dura mais do que suporto.
Não vou ficar mais contrariado, mais nervoso, a ponto de dar um murro no
teclado. Querendo socada a geringonça, jogar meu notebook pela janela é bater o
martelo: és um abismado.
Diante
desta falha mais funda, é instante ir beber água.
Não
tenho jeito, bebo água.
Vejo
Taborda. Aceno. Não entendo o que fala. Boto a cabeça fora, e peço que repita.
Somos
quem somos, gente normal: ele grita, eu grito.
Taborda
acena, mas o que ele tem a me dizer que não possa gritar de onde está?
Caramba,
Taborda.
Ele
me mostra uma vassoura, e indica com precisão o que está me irritando. Ele quer
que eu desça. Não fique achando que o mundo tem pena das minhas misérias. Que
eu vá recolher os cacos, antes que me corte quando sair para fumar.
Quando
fumo, viro zanzar ao redor da casa. Quando estou perdido, daí eu zanzo até bater
a vontade de comer pudim.
Legal,
agora estou pronto para recomeçar tudo de novo.
Rodrigues da Silveira
Ibiúna,
dia 21 de dezembro de 2025.
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