domingo, 21 de dezembro de 2025

Catálogo de erros

 

Catálogo de erros

 

Atento às necessidades do que escrevo, sem que as formiguinhas dos meus nervos me deixem mais cansado do que estou, prefiro que o mundo fique onde está: dentro de mim pelo que percebo.

Sem me congratular pela boa-vontade de abençoar o que dispensa de ser abençoado, sigo na labuta.

Por cansaço físico, de formiguinhas no extremo do meu ser, no vão entre os átomos, vibrantes, excitadas, onde o céu noturno faz conhecer relâmpagos, espasmódicos relâmpagos, a lida cansa.

Na cachola, algo mais lúcido me desarma.

Desabrido, não largo o osso. Certo, narcotizam-me as palavras, que a semântica pegue-me pela mão, a dizer-me por onde ir.

Entendo o cansaço. Acolho o entendimento: a cabeça me faz ir de palavra em palavra até que o paredão angustie.

Não concluída, a tarefa é um monólito.

Na tela, é vertical o abismo que desafia: faça-me as perguntas que pensa possíveis de deixá-lo satisfeito; tente manter-se lúcido, cansado, mas não exaurido; ainda que se perceba seduzido a concluir-me, não esmoreça; não se iluda: sou fenda intransponível, estreita demais pro tédio a infestar-lhe os neurônios; e incontornável, pois suas ansiedades o configuram ꟷ perceba o quão paralítico está.

Afine-se na percepção, condicione-se ao óbvio: não é o afazer que atrapalha o trabalho, é o seu corpo a pedir por copo d’água.

Ainda não verterei o copo, não abandonarei o texto sem que, corpo, eu o defenda das insolências. Porque inventarei um problema técnico, que o computador destrave no momento que mais o almeje operante, funcionando bem, sem rir de mim ao encará-lo a rodar um troço.

Não respondo conforme o manual do universo?

Eu me aborreço, mas o meu aborrecimento me faz agir.

Tenho mãos, dedos, unhas: minhas mãos tocam o teclado, os meus dedos querem digitar, as unhas da minha aflição bem que desejam que eu crave as letras que continuarão o texto.

Mas o troço rodando no centro da tela não para de rodar. Dura mais do que suporto. Não vou ficar mais contrariado, mais nervoso, a ponto de dar um murro no teclado. Querendo socada a geringonça, jogar meu notebook pela janela é bater o martelo: és um abismado.

Diante desta falha mais funda, é instante ir beber água.

Não tenho jeito, bebo água.

Vejo Taborda. Aceno. Não entendo o que fala. Boto a cabeça fora, e peço que repita.

Somos quem somos, gente normal: ele grita, eu grito.

Taborda acena, mas o que ele tem a me dizer que não possa gritar de onde está?

Caramba, Taborda.

Ele me mostra uma vassoura, e indica com precisão o que está me irritando. Ele quer que eu desça. Não fique achando que o mundo tem pena das minhas misérias. Que eu vá recolher os cacos, antes que me corte quando sair para fumar.

Quando fumo, viro zanzar ao redor da casa. Quando estou perdido, daí eu zanzo até bater a vontade de comer pudim.

Legal, agora estou pronto para recomeçar tudo de novo.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 21 de dezembro de 2025.

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