Lá
pelas tantas, percebi o alarme, uma vez que a frase interrompida tornava o
silêncio uma pedra no caminho.
Topei
a topada? Tropecei.
Me
vi calculando e não fugi ao cálculo. Foi melancólico concluir que haviam se
passado cinco minutos desde que a caneta e a folha jaziam intocadas sobre a
escrivaninha.
Já
eram 7h33 e eram 7h27 quando minha atenção foi desviada do texto para os
dígitos do relógio.
Não
se precipite que eu tenha errado na conta. Não errei, nada. Por força interior,
arredondei a hora.
Como
nem pego o troco quando querem entregar moedinhas, sou de dispensar os
segundos.
Acolho
sua desconfiança, peço-lhe, contudo, a vênia de colocar-se no meu lugar. Seja
paciente, sei que sou um pateta por nem agir direito. Mas, sei também que o
Brasil anda ardendo uma febre que não passa, portanto, desconfio de mim quando
não me fio no que possa fazer.
Lá
pelas tantas, a folha piscou. Já que piscou, pisquei de volta, pois não quis
entregar os pontos, já que eu não iria temer o abismo de uma frase por
terminar.
Sem
me tomar por um cara corajoso, fui lá fora. Sentei na varanda. Balancei na
rede. Vi as abelhas voejando entre as lavandas, e gostei. Ainda que o trabalho
continuasse por fazer, fui ficando.
Subitamente,
veio uma borboleta. E veio outra. E surgiram outras, outras, tantas. E elas
eram leves, envolventes, e gostei de percebê-las calmantes.
Foi
tão bom tomar-me envolvido, senti-me no meio de um torvelinho que serenava. Sem
ter consciência dessa necessidade, a mansuetude produziu um refrigério, algo inebriante.
Por
embriagante, não me ocorreu o escândalo de comparar aquelas asas com as pás de
um ventilador, porque a mecânica das borboletas nada tinha de artificial.
Com
centenas de borboletas voejando ao meu redor, embasbaquei. No súbito do momento,
eu era o eixo que não rodava.
Seu
Rodrigues, que eixo?
Eu
acho que foi na série O Poder do Mito, que a TV Cultura passou nos anos 80, que
Joseph Campbell disse que a roda da fortuna gira e, assim, tem vez que a pessoa
está no alto e tem vez que está na parte baixa, mas, ele ressaltou, o eixo
permanece imóvel.
Quando
a pessoa se identifica como o eixo da roda, sua imobilidade possibilita a
percepção de estar bem, e imperturbável.
Embora
a carroça vá pelo mundo, embora a pessoa siga imersa nas contingências da vida,
há a epifania: vivencia-se a eternidade.
E
não a confundo com o sem-fim dos dias, já que eterno não é coisa infindável. E
não a digo felicidade, pois tal serenidade é plenitude.
No
jardim de casa, com centenas de borboletas drapejantes ao meu redor, não flutuei
um milímetro e não gozei incontinenti, pois o que veio foi uma sensação nunca
sentida, algo catártico.
O
apogeu daquela circunstância materializou-se no sorriso. Deu-se que sorri tão
logo a cachola fez-me sentir que a palavra mais bonita da língua portuguesa é
panapaná.
Rodrigues da Silveira
Ibiúna,
dia 04 de dezembro de 2025.
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