quinta-feira, 4 de dezembro de 2025

Torvelinho

 

Torvelinho

 

Lá pelas tantas, percebi o alarme, uma vez que a frase interrompida tornava o silêncio uma pedra no caminho.

Topei a topada? Tropecei.

Me vi calculando e não fugi ao cálculo. Foi melancólico concluir que haviam se passado cinco minutos desde que a caneta e a folha jaziam intocadas sobre a escrivaninha.

Já eram 7h33 e eram 7h27 quando minha atenção foi desviada do texto para os dígitos do relógio.

Não se precipite que eu tenha errado na conta. Não errei, nada. Por força interior, arredondei a hora.

Como nem pego o troco quando querem entregar moedinhas, sou de dispensar os segundos.

Acolho sua desconfiança, peço-lhe, contudo, a vênia de colocar-se no meu lugar. Seja paciente, sei que sou um pateta por nem agir direito. Mas, sei também que o Brasil anda ardendo uma febre que não passa, portanto, desconfio de mim quando não me fio no que possa fazer.

Lá pelas tantas, a folha piscou. Já que piscou, pisquei de volta, pois não quis entregar os pontos, já que eu não iria temer o abismo de uma frase por terminar.

Sem me tomar por um cara corajoso, fui lá fora. Sentei na varanda. Balancei na rede. Vi as abelhas voejando entre as lavandas, e gostei. Ainda que o trabalho continuasse por fazer, fui ficando.

Subitamente, veio uma borboleta. E veio outra. E surgiram outras, outras, tantas. E elas eram leves, envolventes, e gostei de percebê-las calmantes.

Foi tão bom tomar-me envolvido, senti-me no meio de um torvelinho que serenava. Sem ter consciência dessa necessidade, a mansuetude produziu um refrigério, algo inebriante.

Por embriagante, não me ocorreu o escândalo de comparar aquelas asas com as pás de um ventilador, porque a mecânica das borboletas nada tinha de artificial.

Com centenas de borboletas voejando ao meu redor, embasbaquei. No súbito do momento, eu era o eixo que não rodava.

Seu Rodrigues, que eixo?

Eu acho que foi na série O Poder do Mito, que a TV Cultura passou nos anos 80, que Joseph Campbell disse que a roda da fortuna gira e, assim, tem vez que a pessoa está no alto e tem vez que está na parte baixa, mas, ele ressaltou, o eixo permanece imóvel.

Quando a pessoa se identifica como o eixo da roda, sua imobilidade possibilita a percepção de estar bem, e imperturbável.

Embora a carroça vá pelo mundo, embora a pessoa siga imersa nas contingências da vida, há a epifania: vivencia-se a eternidade.

E não a confundo com o sem-fim dos dias, já que eterno não é coisa infindável. E não a digo felicidade, pois tal serenidade é plenitude.

No jardim de casa, com centenas de borboletas drapejantes ao meu redor, não flutuei um milímetro e não gozei incontinenti, pois o que veio foi uma sensação nunca sentida, algo catártico.

O apogeu daquela circunstância materializou-se no sorriso. Deu-se que sorri tão logo a cachola fez-me sentir que a palavra mais bonita da língua portuguesa é panapaná.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 04 de dezembro de 2025.

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