Não
tenho essa rotina de receber, nem que fosse uma vez por mês, quem me faça
trabalhar de graça, porque nunca abro minha casa para gente que precise
entrevistar-me.
Se
abrisse a porta a estudantes, viriam a mãe, a tia ou a prima mais saidinha,
todas precisando daquela selfie que as redes curtem, pois, já que também fui
estudante, quem pede entrevista tem família.
Tenho
família, por óbvio. Também é certo que tenho amigos. E tem sábado que cedo a
tarde a quem não precisa vir.
Sentamo-nos
e comemos o que engorda e bebemos o que faz mal e desejamos que isso se repita
sempre que a vontade de fazer mal for mais intensa que a razão para evitarmos.
É
o que faço. Não me evito. Não amordaço o desejo. Telefono aos amigos. Peço que
venham. E quero que contem o que fizeram de bom na semana. Quero que venham futricar
o que nossos inimigos fizeram por aí. Tragam a língua afiada que nos alegra, pois
os nossos espíritos têm alma potente, na firmeza de pôr orelhas para queimar.
Por
que faço isso? Pra que certas pessoas me felicitem quando me encontrarem depois
de eu ter postado fotos com gente se esbaldando, gente comendo sem miséria,
gente bebendo sem miséria alguma, com todo esse mundaréu de gente à mesa, miserável
e justamente à mesa da minha cozinha?
É
claro que sim!
Sem
dúvida, tenho essa bondade entranhada nas vísceras, pois eu jamais censuraria
quem me desaprova pela iniciativa de receber quem convido à mesa de casa.
Por
que afasto quem se ofereça a sentar-se comigo?
Sou
um sujeito miúdo, magricela, fraquinho fraquinho, e isso implica que o meu colo
é vidro para uma bunda grandalhona.
Nesta
visão estética, pulga que seduz um elefante tem mesmo que se estilhaçar em mil cacos.
Não
suavizo, não me ofereço para ser a pulga nesta história, porque entendo que toda
pessoa cujo ego é sustentado por tromba, presas de marfim e quatro toras
maciças tem mais que ser evitada.
A
minha orelha queime? Eu seja bloqueado? Não me chamem para churrasco em dia de
jogo, pizza pela pizza e ganhar gravata no amigo oculto? Prefiro pagar o preço
que houver de pagar?
Vou
atrás de bolo. Alegremente, pagarei. Para poder pagá-los sem usar cartão de
crédito, confiro o quanto tenho na carteira. Quero pagar pelos bolos, o de
chocolate e o de laranja.
Esquecido
de pulga e elefante, a caminho dos sabores que fazem salivar, vou indo, vou
salivando por chocolate e laranja?
Pela
rua, eu vou.
Vou
sem parar, até que passo em frente de outra loja qualquer, pois, embora sentado
em uma poltrona confortável, bem visível por estar no meio da entrada, o homem
que veste a roupa vermelha do Papai Noel, tem a barrigona do Papai Noel e
ostenta a barba alvíssima do Papai Noel perde feio pro Papai Noel que, escondidinho
no canto por precisar da luz elétrica, a contagiar quem para pra vê-lo tocar
sax, é formiguinha eleita pelo espírito verdadeiro da época.
Rodrigues da Silveira
Ibiúna,
dia 07 de dezembro de 2025.
Nenhum comentário:
Postar um comentário