domingo, 7 de dezembro de 2025

Bolo à vista

 

Bolo à vista

 

Não tenho essa rotina de receber, nem que fosse uma vez por mês, quem me faça trabalhar de graça, porque nunca abro minha casa para gente que precise entrevistar-me.

Se abrisse a porta a estudantes, viriam a mãe, a tia ou a prima mais saidinha, todas precisando daquela selfie que as redes curtem, pois, já que também fui estudante, quem pede entrevista tem família.

Tenho família, por óbvio. Também é certo que tenho amigos. E tem sábado que cedo a tarde a quem não precisa vir.

Sentamo-nos e comemos o que engorda e bebemos o que faz mal e desejamos que isso se repita sempre que a vontade de fazer mal for mais intensa que a razão para evitarmos.

É o que faço. Não me evito. Não amordaço o desejo. Telefono aos amigos. Peço que venham. E quero que contem o que fizeram de bom na semana. Quero que venham futricar o que nossos inimigos fizeram por aí. Tragam a língua afiada que nos alegra, pois os nossos espíritos têm alma potente, na firmeza de pôr orelhas para queimar.

Por que faço isso? Pra que certas pessoas me felicitem quando me encontrarem depois de eu ter postado fotos com gente se esbaldando, gente comendo sem miséria, gente bebendo sem miséria alguma, com todo esse mundaréu de gente à mesa, miserável e justamente à mesa da minha cozinha?

É claro que sim!

Sem dúvida, tenho essa bondade entranhada nas vísceras, pois eu jamais censuraria quem me desaprova pela iniciativa de receber quem convido à mesa de casa.

Por que afasto quem se ofereça a sentar-se comigo?

Sou um sujeito miúdo, magricela, fraquinho fraquinho, e isso implica que o meu colo é vidro para uma bunda grandalhona.

Nesta visão estética, pulga que seduz um elefante tem mesmo que se estilhaçar em mil cacos.

Não suavizo, não me ofereço para ser a pulga nesta história, porque entendo que toda pessoa cujo ego é sustentado por tromba, presas de marfim e quatro toras maciças tem mais que ser evitada.

A minha orelha queime? Eu seja bloqueado? Não me chamem para churrasco em dia de jogo, pizza pela pizza e ganhar gravata no amigo oculto? Prefiro pagar o preço que houver de pagar?

Vou atrás de bolo. Alegremente, pagarei. Para poder pagá-los sem usar cartão de crédito, confiro o quanto tenho na carteira. Quero pagar pelos bolos, o de chocolate e o de laranja.

Esquecido de pulga e elefante, a caminho dos sabores que fazem salivar, vou indo, vou salivando por chocolate e laranja?

Pela rua, eu vou.

Vou sem parar, até que passo em frente de outra loja qualquer, pois, embora sentado em uma poltrona confortável, bem visível por estar no meio da entrada, o homem que veste a roupa vermelha do Papai Noel, tem a barrigona do Papai Noel e ostenta a barba alvíssima do Papai Noel perde feio pro Papai Noel que, escondidinho no canto por precisar da luz elétrica, a contagiar quem para pra vê-lo tocar sax, é formiguinha eleita pelo espírito verdadeiro da época.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 07 de dezembro de 2025.


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