O primeiro dia do ano veio. Depois que
tomei banho, o dia começou para valer. Estou pronto para enfrentar o que o
momento põe na mesa: vou ver TV ou recolher as folhas do jardim?
Olho pela janela, os ipês continuam
altaneiros.
Vou à varanda, constato que terei muito
trabalho.
Ato contínuo: fecho o saco, tiro os
joelhos do chão.
Seria o momento para um cigarro. A minha
boca enche d’água. Mas há pessoas passando, e a fumaça iria incomodá-las.
Viver a dar razão a quem não tem é
aprendizado difícil?
Mais que fazer balanços e promessas, a
dificuldade para aprender é bem maior quando chega o tempo de eu usar uma
vassoura.
Nem o suor me detém: jogo o lixo na
caçamba.
O morador que cuida do beco não está.
Mas há caixas com garrafas de espumante e vinho, conforme eu próprio confiro.
O morador que mora ao lado da caçamba
chega. Ele me repreende: deixar o beco limpo não é serviço meu.
Se a janela do meu quarto capta as
energias da virada?
Não é porque o ano está começando que optei
pela boa ação. Um impulso tomou-me pelas mãos. Resolvi lavar o beco sem nada
que ver com o cheiro de urina seca ou o aumento do vaivém dos ratos.
Para dar fim ao jogo, volto para casa.
O sorteio da Mega da Virada não foi
feito. Aí tem coisa... Já que as seis dezenas nem seriam sorteadas ao vivo...
Quantas vassouras dá pra comprar com um
bilhão de reais?
Esta manhã poderia ser outra, só não
apostei.
A repórter está na rua. Aos aparecidos
que a rodeiam, ela pergunta sobre os sentimentos pelo adiamento do sorteio.
Adiaram?
Vou tomar café. Antes, tomo outro banho.
Preciso dar uma olhada no quintal atrás
da casa. Preciso realmente confiar em mim, que conseguirei tomar mais um banho.
Como quem empunha Excalibur...
Não pego a vassoura pra subjugar os
inimigos da Távola Redonda. Sou apenas um homem que se dispõe a erguer um
montinho de folhas, e depois, só depois, é que meterei fogo no bicho.
Pingue: a fumaça se espalha.
Pongue: o morador do beco grita comigo.
O terceiro banho desta manhã confirma
que o primeiro dia do ano é prenúncio de que a boa sorte tem este recadinho:
azar de quem não trabalha pelo mundo melhor.
Conhecendo o poder do vento, fecho as
janelas de casa.
O morador do beco bate palmas. Vou ver o
que ele quer. Ele entra, senta-se na cadeira de balanço, pede uma cerveja.
Como bom vizinho que eu sou, não rateio
de ir pegá-la.
ꟷ Trouxe uma só? Tá me estranhando?
Para que não comecemos um bate-boca sem
noção, evito a história do adiamento do sorteio do Bilhão da Virada...
Falamos do aguaceiro que caiu tão logo
escureceu. Falamos ainda da ventania que nem durou dois minutos.
Sabendo que eu não conseguiria me
segurar... Já que é preciso ter muita bufunfa para viajar para o outro lado do
planeta...
ꟷ Você soube da maior? Que este ano o
Réveillon chegou primeiro na Austrália?
ꟷ Isso é balela. Eu vi na tevê que o
primeiro foguetório da virada foi em Sidney.
Rodrigues
da Silveira
Ibiúna,
dia 01 de janeiro de 2026.
Nenhum comentário:
Postar um comentário