quinta-feira, 11 de dezembro de 2025

A hora da virada

 

A hora da virada

 

Pega-me uma empolgação. Para que não me veja exacerbado, digo que é manhã, quase meio-dia, voltará o dia vinte. Daqui a uma semana o dia vinte conseguirá chegar como fato a ser consumado, já os sinos bimbalham que lasanha no almoço de uma quarta é luxo a quem reza para o dia vinte chegar quando seja preciso que chegue, que haverá o instante apropriado para desfrutá-lo.

Sem trocadilho, o lado soturno do mundo devora paulatinamente, instante a instante, cabendo a mim aceitar que dezembro contingencia-se a prospectar o amanhã como Ano Bom, propício a auspícios.

No que penso, coço a palma direita sabendo o significado disso.

O Mandraque de Araque, eu próprio, sei muito bem que a folhinha está colocada na parede. Não questiono que tomei a decisão certa, já que a pus ao lado da janela. Podem questionar-me a razão para tê-la fixado ali, mas a coceira na mão nem é urticária.

Quando quero espiar a rua, o que primeiro me situa no meu dia é a folhinha, é troço na altura dos meus olhos, difícil de ser ignorado.

Ignoro-o porque o dia está lindo, o sol brilha gostoso, a claridade da manhã é saudável, convida à janela, sem que os olhos notem a mulher, cuja janela do quarto dá pra janela do meu escritório, sem que a mente enxugue seus cabelos, suas coxas e aqueles pezinhos.

À escrivaninha, trabalho pelo dia, para que o dia seja bom, trabalho com o dia para que eu seja bom trabalhador, o sujeito que labuta, quer que o dia vinte tenha muito do que estabeleço hoje, para que hoje seja o futuro próximo que seja tão próximo que o sinta escorreito, formoso, adjetivamente sedutor.

O viés soalheiro do dia também está na sombra projetada no chão, embora o vão mostre a cara recatada, nada gemebunda nem frenética, a sombra, atiçada pelo desejo do descontrole, tem rabinho a mil.

Eita! Admita, é uma graça viver dos fogachos da paixão, do agudo de uma paixonite. Vamos! Confesse, é uma maravilha enganar-se com os lampejos da mente que pensa forte, rápido, pulsando sinapses que são um refresco, parecem ser um refresco. Ano Bom, seja refrescante. Os ventos da virada derrubem a folhinha. Ainda que o prego continue na parede, apaixone-se outra vez. Vá! Cumpra seus afazeres. Batalhe para que o dia vinte não seja nenhuma anistia pelos crimes que sempre há de cometer, uma vez que a vida é muito sem graça.

Vivo: sei onde guardo a caixa; o pessimismo estressa; sem perder o juízo com o peso, subo e desço porque o coração bate tranquilo.

Sem pensar na mulher saída do banho, ajeito a manjedoura. Sorrio, que a vaquinha espirre por causa da mirra ou do incenso. O calor pede para pegar piscina, não lareira com chaminé que é uma agulha.

E o dia tal?

Feito exército com dragão que expele gelo, o 13º virá e vai virar pó, deixando um rastro de alegrias adiadas, pois TV 65” e ar-condicionado multiplicam-se onde sobrenadam anões do orçamento.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 11 de dezembro de 2025.

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