terça-feira, 30 de dezembro de 2025

A menina dos meus olhos

 

A menina dos meus olhos

 

Ser leal a si pode tornar estressante a convivência consigo. Ótimo! Compelido a não largar pelo caminho nenhuma das tarefas que achei de realizar, a lealdade durou até que o pescoço venceu. Dói-me quem sou, pois poderia deixar de ter a papada sobre o peito.

Nem ri nem chorei nem rezinguei, pois não me perdi argumentando. A favor ou contra mim, perderia tempo.

Ao perceber a minha incapacidade para impedir a cabeça de querer pescar, tombando em direção à mesa, desisti da leitura do jornal.

Se saí sem calombo na testa, fui pro mundo sem saber das últimas calamidades.

Foi pelo sol forte que levei o jornal, que, afinal, poderia me servir de abano ou chapéu. Como sentei na calçada do passeio, ele foi útil para proteger os fundilhos. Por fugir do “marcha soldado”, eu sorri.

Debaixo de uma árvore, fiquei lendo mensagens.

Muita desgraça. Muita desinformação. Muitas bobagens. E gosto de curtir, compartilhar. Adoro viralizar as besteirinhas.

Todavia, as fotos de um amigo já em casa me lembraram do carinho que, de uma maneira geral, pouco tenho demonstrado sentir.

Para sair da inércia, decidi que iria visitá-lo.

Boa! Se vou mesmo visitar o convalescente, comprarei maçãs.

Agora que pensei em maçã, ouço o ronco do estômago vazio. Estou de jejum desde que eu fui dormir. Ainda nem tive o prazer de bebericar um frugal copo d’água acompanhado de bolachinha água e sal.

ꟷ Barriga vazia é oficina do demo, professa o faquir que nem é da família; e não é por ser magro de ruim, é pela pachorra de persuadir a gente que o inferno é não comer na hora, ficando na vontade.

Que diatribe!

Como ânsia minha, salivo.

Com o telefone bombando novidade, sei que não é boa coisa querer comer a maçã que nem foi comprada.

Insatisfeito, sucumbo: meu corpo é um gato tocando cuíca.

A coisa é tão ridícula que me escapole um riso, bem alto.

Constrangido, demoro levantar os olhos. Temeroso que estejam me achando um imbecil qualquer, censuro-me pela risada abrupta. E espio com o rabo do olho. Quem está perto nem me ouviu soltinho.

A dois cuspes de mim, o homem que não é surdo está pintando.

Nem preciso explicar que gato não toca cuíca, só arranha.

Esboço um interesse no homem que pinta.

Excelente! Não deixarei que o mundo me distraia.

Reparo: o homem pinta uma menina num balanço.

Cuidando para parecer desinteressado, já que não quero aborrecê-lo, ponho um olho no quadro e outro na menina.

Tem coisa que não bate. O colorido da tela parece que não retrata a cena. Forço o pescoço. O quadro tem algo esquisito: o artista pôs um passarinho na mureta do mirante às costas da menina do balanço.

ꟷ Ô diabo! Cadê a menina?

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 30 de dezembro de 2025.

 

 

PS ꟷ A crônica foi publicada originalmente no dia 11 de janeiro de 2022, mas a reescrevi. E a reescrita veio por me sentir motivado pelo desejo de um Ano Bom, um 2026 com o olhar afinado pelo que não se vê, e machuca.

 

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