A
menina dos meus olhos
Ser leal a si pode tornar estressante a
convivência consigo. Ótimo! Compelido a não largar pelo caminho nenhuma das tarefas
que achei de realizar, a lealdade durou até que o pescoço venceu. Dói-me quem sou,
pois poderia deixar de ter a papada sobre o peito.
Nem ri nem chorei nem rezinguei, pois não
me perdi argumentando. A favor ou contra mim, perderia tempo.
Ao perceber a minha incapacidade para impedir
a cabeça de querer pescar, tombando em direção à mesa, desisti da leitura do
jornal.
Se saí sem calombo na testa, fui pro
mundo sem saber das últimas calamidades.
Foi pelo sol forte que levei o jornal,
que, afinal, poderia me servir de abano ou chapéu. Como sentei na calçada do
passeio, ele foi útil para proteger os fundilhos. Por fugir do “marcha soldado”,
eu sorri.
Debaixo de uma árvore, fiquei lendo
mensagens.
Muita desgraça. Muita desinformação.
Muitas bobagens. E gosto de curtir, compartilhar. Adoro viralizar as besteirinhas.
Todavia, as fotos de um amigo já em casa
me lembraram do carinho que, de uma maneira geral, pouco tenho demonstrado
sentir.
Para sair da inércia, decidi que iria
visitá-lo.
Boa! Se vou mesmo visitar o
convalescente, comprarei maçãs.
Agora que pensei em maçã, ouço o ronco
do estômago vazio. Estou de jejum desde que eu fui dormir. Ainda nem tive o
prazer de bebericar um frugal copo d’água acompanhado de bolachinha água e sal.
ꟷ Barriga vazia é oficina do demo, professa
o faquir que nem é da família; e não é por ser magro de ruim, é pela pachorra
de persuadir a gente que o inferno é não comer na hora, ficando na vontade.
Que diatribe!
Como ânsia minha, salivo.
Com o telefone bombando novidade, sei
que não é boa coisa querer comer a maçã que nem foi comprada.
Insatisfeito, sucumbo: meu corpo é um gato
tocando cuíca.
A coisa é tão ridícula que me escapole
um riso, bem alto.
Constrangido, demoro levantar os olhos.
Temeroso que estejam me achando um imbecil qualquer, censuro-me pela risada
abrupta. E espio com o rabo do olho. Quem está perto nem me ouviu soltinho.
A dois cuspes de mim, o homem que não é
surdo está pintando.
Nem preciso explicar que gato não toca cuíca,
só arranha.
Esboço um interesse no homem que pinta.
Excelente! Não deixarei que o mundo me
distraia.
Reparo: o homem pinta uma menina num
balanço.
Cuidando para parecer desinteressado, já
que não quero aborrecê-lo, ponho um olho no quadro e outro na menina.
Tem coisa que não bate. O colorido da
tela parece que não retrata a cena. Forço o pescoço. O quadro tem algo
esquisito: o artista pôs um passarinho na mureta do mirante às costas da menina
do balanço.
ꟷ Ô diabo! Cadê a menina?
Rodrigues da Silveira
Ibiúna, dia 30 de dezembro de 2025.
PS ꟷ A crônica foi publicada originalmente
no dia 11 de janeiro de 2022, mas a reescrevi. E a reescrita veio por me sentir
motivado pelo desejo de um Ano Bom, um 2026 com o olhar afinado pelo que não se
vê, e machuca.
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