Quando
o senhor der as caras, Bom Velhinho, como boas crianças que dormem de olho
aberto: seremos pegos no contrapé.
Por
sermos arteiros, adorarmos uma fuzarca, nós juramos que não é por mal que nem
lembramos o que fizemos nos natais passados.
Em
que pé estamos, criançada?
Como
não nos desviaremos do fuzuê que nós vimos fazendo pelos natais futuros,
haveremos de nos empanturrar.
Suplicando
um sal de fruta, feito pavê que sobrou da ceia, dou-lhes como nova esta crônica
publicada em setembro de 2021:
O
segredo
Com
vontade de tomar laranjada: espremi algumas laranjas.
Sentindo
o azedinho da laranjada, deu gosto bebê-la.
Sem
questionar a essência do propósito, tomei nas mãos o bagaço da meia laranja que
não havia jogado no lixo.
Era
o crânio de um rei, segurei-o à altura dos olhos.
Estremeci,
ele pedia algo simples. Queria uma verdade que soasse agradável. Entendi que eu
não declinasse de escutar-me dizer o quão feliz um homem pode sentir-se.
Escutei
o que iria dizer. Estudei como haveria de dizê-lo. Esperei o momento. Pelo
instante que a alma sabia ser o certo, esperei.
Pra
não perder a graça do momento, ignorei a tentação de banalizar o mal-estar. Não
sou formiga para dar ao prosaico a medida da justeza do que eu pedia: quero ser
laranjada, uma laranjada bem azedinha.
Afinal,
ter laranja em casa não era um gol; ter lixeira na cozinha não era outro; pra fugir
da goleada contra, fez bem o árbitro ao apitar o fim daquela partida bizarra:
meia laranja, vá pra lixeira.
Dos
subsolos desta estupidez que pulula na cachola, subi ao sol da praça. Porque lá
sou amigo do banco, sentado sem chapéu, deixei-me ser engolfado pelos
desconcertos do mundo.
Algumas
pessoas conversavam miudezas.
Outras
sustentavam-se, a iluminar a Baía da Guanabara.
As
vaporosas, pessoas que vivem para estar de bem com o mundo, elas vinham,
vinham, e não iam...
Não
foi por prudência, ou medo, que os meus olhos, boca e ouvidos funcionaram como antenas,
sondas.
E
uma esponja, somente.
Pelas
chagas que a compaixão fareja nesses animais humanos, tão meus semelhantes, prefiro
abrir o jornal.
Ainda
que vislumbrasse a meia laranja coberta de formigas, no lixo da cozinha,
estimulei-me. De cabo a rabo, iria ler o jornal.
Como
as notícias encontravam em mim um comovido leitor, foi pela aproximação dos
pombos que não virei um resmungão.
Bufei
sem discrição. Dei-me a ver como sendo o cara mais solitário na praça. Sentado
ao sol, com a careca meio avermelhada, era eu.
E
os pombos nem ligaram.
Foram
chegando. Bicando baganas, plásticos, pedras, sujeirinhas, e minhocas de espaguete,
eram vários, e muitos.
Ora
bolas, pombos!
Entendam-me.
As desgraças lidas animariam a cavar um penhasco pra arremessar pensamentos
lúgubres, ou só vocês, pombos. Nem sei se, terrificados, vocês arrulhariam depois
de expostos.
Os
dramas da vida?
Comum a cordatos, ansiosos, dissimulados, os dramas da vida irão ficar circunscritos
ao temor de que as tempestades bíblicas se formam quando a elas é atribuída
alguma catástrofe iminente.
Que
um cachorro veio pra cima deles. E eu falo sério.
Encurralado
entre a banca de revista e o latão de lixo, foi o azar pra um deles. Como
péssima rota de fuga, não foi possível evitar o choque no pé do banco. Foi
mesmo, ele deu com o bico no banco.
Coitado
do bichinho.
O
mais que pude, pedi a velocidade de um raio. Todavia, muito me decepcionou a fraqueza
espiritual, tão humana: fui lento.
Sorte
do bruto.
Como
tombou bem tonto, o pombo ficou dando sopa. Louco pra dar o bote certeiro na
presa atordoada, o cão virou um corisco.
Entre
a bocarra agressiva e a asa desajeitada, foi minha perna que acabou mordida. Irrefutavelmente:
fui outra vítima inocente.
Me
escapuliu um azedo de laranja, que susto!
E
o vergonhoso é que saí chutando o que estivesse ao alcance da fúria dos meus olhos.
Larguei uma bicuda no assento do banco em que estava impassível antes dessa briga,
que nem era comigo.
Fui
à farmácia. Paguei o curativo como se a carantonha de mão de vaca nem fosse
minha.
Posso
uma indiscrição?
Despertando
tranquilizado, nem prestei atenção. Agora, percebo o erro que cometi. Raios!
Não se deve ignorar um tremendo sinal.
Ao
descer da cama, pisei o chão com a canhota.
Rodrigues da Silveira
Ibiúna,
dia 24 de dezembro de 2025.
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