quarta-feira, 24 de dezembro de 2025

Um segredinho...

 

Um segredinho...

 

Quando o senhor der as caras, Bom Velhinho, como boas crianças que dormem de olho aberto: seremos pegos no contrapé.

Por sermos arteiros, adorarmos uma fuzarca, nós juramos que não é por mal que nem lembramos o que fizemos nos natais passados.

Em que pé estamos, criançada?

Como não nos desviaremos do fuzuê que nós vimos fazendo pelos natais futuros, haveremos de nos empanturrar.

Suplicando um sal de fruta, feito pavê que sobrou da ceia, dou-lhes como nova esta crônica publicada em setembro de 2021:

 

O segredo

 

Com vontade de tomar laranjada: espremi algumas laranjas.

Sentindo o azedinho da laranjada, deu gosto bebê-la.

Sem questionar a essência do propósito, tomei nas mãos o bagaço da meia laranja que não havia jogado no lixo.

Era o crânio de um rei, segurei-o à altura dos olhos.

Estremeci, ele pedia algo simples. Queria uma verdade que soasse agradável. Entendi que eu não declinasse de escutar-me dizer o quão feliz um homem pode sentir-se.

Escutei o que iria dizer. Estudei como haveria de dizê-lo. Esperei o momento. Pelo instante que a alma sabia ser o certo, esperei.

Pra não perder a graça do momento, ignorei a tentação de banalizar o mal-estar. Não sou formiga para dar ao prosaico a medida da justeza do que eu pedia: quero ser laranjada, uma laranjada bem azedinha.

Afinal, ter laranja em casa não era um gol; ter lixeira na cozinha não era outro; pra fugir da goleada contra, fez bem o árbitro ao apitar o fim daquela partida bizarra: meia laranja, vá pra lixeira.

Dos subsolos desta estupidez que pulula na cachola, subi ao sol da praça. Porque lá sou amigo do banco, sentado sem chapéu, deixei-me ser engolfado pelos desconcertos do mundo.

Algumas pessoas conversavam miudezas.

Outras sustentavam-se, a iluminar a Baía da Guanabara.

As vaporosas, pessoas que vivem para estar de bem com o mundo, elas vinham, vinham, e não iam...

Não foi por prudência, ou medo, que os meus olhos, boca e ouvidos funcionaram como antenas, sondas.

E uma esponja, somente.

Pelas chagas que a compaixão fareja nesses animais humanos, tão meus semelhantes, prefiro abrir o jornal.

Ainda que vislumbrasse a meia laranja coberta de formigas, no lixo da cozinha, estimulei-me. De cabo a rabo, iria ler o jornal.

Como as notícias encontravam em mim um comovido leitor, foi pela aproximação dos pombos que não virei um resmungão.

Bufei sem discrição. Dei-me a ver como sendo o cara mais solitário na praça. Sentado ao sol, com a careca meio avermelhada, era eu.

E os pombos nem ligaram.

Foram chegando. Bicando baganas, plásticos, pedras, sujeirinhas, e minhocas de espaguete, eram vários, e muitos.

Ora bolas, pombos!

Entendam-me. As desgraças lidas animariam a cavar um penhasco pra arremessar pensamentos lúgubres, ou só vocês, pombos. Nem sei se, terrificados, vocês arrulhariam depois de expostos.

Os dramas da vida?

Comum a cordatos, ansiosos, dissimulados, os dramas da vida irão ficar circunscritos ao temor de que as tempestades bíblicas se formam quando a elas é atribuída alguma catástrofe iminente.

Que um cachorro veio pra cima deles. E eu falo sério.

Encurralado entre a banca de revista e o latão de lixo, foi o azar pra um deles. Como péssima rota de fuga, não foi possível evitar o choque no pé do banco. Foi mesmo, ele deu com o bico no banco.

Coitado do bichinho.

O mais que pude, pedi a velocidade de um raio. Todavia, muito me decepcionou a fraqueza espiritual, tão humana: fui lento.

Sorte do bruto.

Como tombou bem tonto, o pombo ficou dando sopa. Louco pra dar o bote certeiro na presa atordoada, o cão virou um corisco.

Entre a bocarra agressiva e a asa desajeitada, foi minha perna que acabou mordida. Irrefutavelmente: fui outra vítima inocente.

Me escapuliu um azedo de laranja, que susto!

E o vergonhoso é que saí chutando o que estivesse ao alcance da fúria dos meus olhos. Larguei uma bicuda no assento do banco em que estava impassível antes dessa briga, que nem era comigo.

Fui à farmácia. Paguei o curativo como se a carantonha de mão de vaca nem fosse minha.

Posso uma indiscrição?

Despertando tranquilizado, nem prestei atenção. Agora, percebo o erro que cometi. Raios! Não se deve ignorar um tremendo sinal.

Ao descer da cama, pisei o chão com a canhota.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 24 de dezembro de 2025.

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