Mesmo
eles acreditando que a gente nem questione o que falam, o fingimento faz parte
da nossa defesa, porque a gente finge de maneira tão sincera que a confiança
deles também fica mais convincente.
Tanto
eles quanto nós ficamos convencidos que não é só a verdade que nos credibiliza
como pessoas honestas. Sendo bons atores, nem precisamos duvidar do que não
damos importância. A lógica é simples, o que para nós não tem importância é o
que não precisa ter importância para eles.
Perde
tempo quem se preocupa com o que é irrelevante.
Sou
partidário do grupo que não duvida que o mundo seria um lugar menos tóxico quando
o demônio parar de pintar carinha sorridente em ovo, mas o jogo fica excelente
quando a disputa é vista como decisiva, aflitiva, uma batalha pela vida.
Não
jogo conversa fora nem dou um dedo pra santo que não beba. De todo modo, quero
vencer. Por saber o que eu quero, fico pê da vida se pressinto que a minha
derrota desagradará quem antecipadamente se recusa a negociar comigo.
Saibam
todos, não blefo nem blefarei à toa.
Como
partícula nas engrenagens do convívio, desde que seja visto como derrotado, escolherei
ser derrotado porque sei conviver segundo o que seja visto como necessário à
boa convivência.
Sei,
não dito as regras, quero apenas que seja respeitado a vontade de que a pessoa derrotada
dê as cartas, controle os resultados, grite truco fora de hora.
O
troféu erguido será lavado pelo orvalho, que a noite virá, e haverá sereno. E a
pessoa serena, aquela que parece ser mesmo uma pessoa que solta os gatos só
quando é urgente que o telhado seja ocupado, a pessoa é o troféu que a faz
ver-se imbatível.
Para
que não haja equívoco nem seja invocado algum engano, sim, sereno não é garoa,
garoa não é chuvisqueiro nem chuvisqueiro não é chuva.
Quando
chove, melhor ficar na cama, contando os dias para o Ano Novo, contando que o
pagamento do salário sairá ainda que o trabalho nem tenha sido feito.
É
bom que o juízo saiba o seu lugar.
No
telhado, a pessoa sente que a cama é o melhor lugar para ficar sem que os outros
a chamem bobalhona.
Quando
chove, sendo noite, o sereno cai junto com o aguaceiro. A pessoa que não mija
na cama vai ao telhado e mija lá de cima, porque precisa que haja boca que
engula o mijo achando que é chuva.
A
objetividade universaliza o prêmio?
Ganhemos
todos. Vençamos. Que nossa alma ressentida seja uma só. Que não se cubra a
careca com peruca cafona. Sejamos realistas: a mulher de César não é César vestido
como a mulher de César.
Vestindo-me
de César a vestir-se de César, não escondo que odeio os dias de chuva porque
odeio chuva. Para que o ódio fortaleça, confio que chova o dia inteiro.
Chova,
chova, chova.
Não
questiono: meu ódio bombardeia as nuvens. Ainda que chova no molhado, de
coturno bem amarrado, vou chapinhar as poças porque dá um prazer danado chapinhá-las.
Rodrigues da Silveira
Ibiúna,
dia 09 de dezembro de 2025.
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