terça-feira, 9 de dezembro de 2025

Certeza absoluta

 

Certeza absoluta

 

Mesmo eles acreditando que a gente nem questione o que falam, o fingimento faz parte da nossa defesa, porque a gente finge de maneira tão sincera que a confiança deles também fica mais convincente.

Tanto eles quanto nós ficamos convencidos que não é só a verdade que nos credibiliza como pessoas honestas. Sendo bons atores, nem precisamos duvidar do que não damos importância. A lógica é simples, o que para nós não tem importância é o que não precisa ter importância para eles.

Perde tempo quem se preocupa com o que é irrelevante.

Sou partidário do grupo que não duvida que o mundo seria um lugar menos tóxico quando o demônio parar de pintar carinha sorridente em ovo, mas o jogo fica excelente quando a disputa é vista como decisiva, aflitiva, uma batalha pela vida.

Não jogo conversa fora nem dou um dedo pra santo que não beba. De todo modo, quero vencer. Por saber o que eu quero, fico pê da vida se pressinto que a minha derrota desagradará quem antecipadamente se recusa a negociar comigo.

Saibam todos, não blefo nem blefarei à toa.

Como partícula nas engrenagens do convívio, desde que seja visto como derrotado, escolherei ser derrotado porque sei conviver segundo o que seja visto como necessário à boa convivência.

Sei, não dito as regras, quero apenas que seja respeitado a vontade de que a pessoa derrotada dê as cartas, controle os resultados, grite truco fora de hora.

O troféu erguido será lavado pelo orvalho, que a noite virá, e haverá sereno. E a pessoa serena, aquela que parece ser mesmo uma pessoa que solta os gatos só quando é urgente que o telhado seja ocupado, a pessoa é o troféu que a faz ver-se imbatível.

Para que não haja equívoco nem seja invocado algum engano, sim, sereno não é garoa, garoa não é chuvisqueiro nem chuvisqueiro não é chuva.

Quando chove, melhor ficar na cama, contando os dias para o Ano Novo, contando que o pagamento do salário sairá ainda que o trabalho nem tenha sido feito.

É bom que o juízo saiba o seu lugar.

No telhado, a pessoa sente que a cama é o melhor lugar para ficar sem que os outros a chamem bobalhona.

Quando chove, sendo noite, o sereno cai junto com o aguaceiro. A pessoa que não mija na cama vai ao telhado e mija lá de cima, porque precisa que haja boca que engula o mijo achando que é chuva.

A objetividade universaliza o prêmio?

Ganhemos todos. Vençamos. Que nossa alma ressentida seja uma só. Que não se cubra a careca com peruca cafona. Sejamos realistas: a mulher de César não é César vestido como a mulher de César.

Vestindo-me de César a vestir-se de César, não escondo que odeio os dias de chuva porque odeio chuva. Para que o ódio fortaleça, confio que chova o dia inteiro.

Chova, chova, chova.

Não questiono: meu ódio bombardeia as nuvens. Ainda que chova no molhado, de coturno bem amarrado, vou chapinhar as poças porque dá um prazer danado chapinhá-las.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 09 de dezembro de 2025.


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