Todo
ano é assim, chega o momento de pesar na balança o quanto de coisa boa a gente
fez. Descontando as decepções e a irritabilidade que as pinta como frustrações
angustiantes, todo ano é sempre assim, com a maturidade apontando o que seja
tapete e o que seja a mão que o puxa.
Madura,
madura mesmo, é a gente que aprecia a água pelo que ela é: por ser refrescante nos
dias de calor, necessária quando a boca está seca, fraterna com o afeto solidário
diante da dor.
O
melhor da água, portanto, é ela ser servida agora, que é chegada a alegria de
escolher os presentes, é chegado o instante para se eleger quem receberá mais
do que uma lembrancinha.
Como
a gente tem em conta que grana contadinha é critério vulgar, separar o trigo facilita
pelo número de pessoas que comerão e beberão à mesa do Ano Bom.
Para
evitar complicações, peço que a memória contribua e faça-me elencar o que foi
comprado nas Festas do ano passado.
Aristeu
ganhou uma bermuda que o satisfez, porque ela caiu como uma luva. Não precisou
de ajuste na cintura e, sendo de brim vermelho, motivou-o a virar pimentão no
Carnaval da Ilha Comprida.
Este
ano, já que me sinto autorizado a ser chique, Aristeu ganhará uma camisa com
estampas geométricas, uma lindeza que garimpei na internet, uma que custou para
achá-la, mas que trabalha direitinho com a beleza d’O Balão Vermelho do Paul
Klee.
Ao
Luisinho, dei livro é claro. Como ele é contador de histórias, seja no seu
aniversário, seja no mundialmente shakespeariano 23 de abril, seja na virada, haja
livro para contentá-lo.
Já
embrulhei outra cópia de Água para as Visitas, pois as crônicas de Marina Moraes são poéticas, melancólicas, engraçadas, escritas com a mão que embala as
palavras para a leveza, para que a vida seja sentida com sorriso no rosto, porque,
já que tenho o juízo para parodiá-la, siso arrancado e botão de camisa têm
muito a ver.
Como
raio em céu azul, o presente para Dona Cremilda veio-me de pronto. E o sol da
certeza iluminou o caminho: fui num pé, não errei o passo na valsa e o
indicador apontou o que sempre será o verdadeiro sapatinho da Cinderela.
Comprei
o mesmo modelo que comprei no ano passado, no mesmo número, na mesma cor, na
mesma loja do ano passado, porque tenho vivíssima a imagem da Dona Cremilda
quando o experimentou.
Todo ano antecipo o almoço do Ano Novo, dou de comer e de beber à trupe que ganha presentes.
Como criança que compra o Keds certo para a Penélope Charmosa que não vê o que há de cor-de-rosa debaixo dos escândalos do mundo, fiquei ruborizado pela oportunidade que eu criei.
Aristeu
e Luisinho caíram na gargalhada, pois não há lição que não a esqueça em seguida.
Mesmo rindo, a amiga sabe que irei trocar o 35 pelo 37.
Contudo,
o que não contarei?
ꟷ
No ano passado, o senhor comprou comigo e fez a mesma coisa, pediu desconto e veio
trocá-lo, sorrindo amarelo.
Rodrigues da Silveira
Ibiúna,
dia 16 de dezembro de 2025.
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