terça-feira, 16 de dezembro de 2025

Eterno aprendiz

 

Eterno aprendiz

 

Todo ano é assim, chega o momento de pesar na balança o quanto de coisa boa a gente fez. Descontando as decepções e a irritabilidade que as pinta como frustrações angustiantes, todo ano é sempre assim, com a maturidade apontando o que seja tapete e o que seja a mão que o puxa.

Madura, madura mesmo, é a gente que aprecia a água pelo que ela é: por ser refrescante nos dias de calor, necessária quando a boca está seca, fraterna com o afeto solidário diante da dor.

O melhor da água, portanto, é ela ser servida agora, que é chegada a alegria de escolher os presentes, é chegado o instante para se eleger quem receberá mais do que uma lembrancinha.

Como a gente tem em conta que grana contadinha é critério vulgar, separar o trigo facilita pelo número de pessoas que comerão e beberão à mesa do Ano Bom.

Para evitar complicações, peço que a memória contribua e faça-me elencar o que foi comprado nas Festas do ano passado.

Aristeu ganhou uma bermuda que o satisfez, porque ela caiu como uma luva. Não precisou de ajuste na cintura e, sendo de brim vermelho, motivou-o a virar pimentão no Carnaval da Ilha Comprida.

Este ano, já que me sinto autorizado a ser chique, Aristeu ganhará uma camisa com estampas geométricas, uma lindeza que garimpei na internet, uma que custou para achá-la, mas que trabalha direitinho com a beleza d’O Balão Vermelho do Paul Klee.

Ao Luisinho, dei livro é claro. Como ele é contador de histórias, seja no seu aniversário, seja no mundialmente shakespeariano 23 de abril, seja na virada, haja livro para contentá-lo.

Já embrulhei outra cópia de Água para as Visitas, pois as crônicas de Marina Moraes são poéticas, melancólicas, engraçadas, escritas com a mão que embala as palavras para a leveza, para que a vida seja sentida com sorriso no rosto, porque, já que tenho o juízo para parodiá-la, siso arrancado e botão de camisa têm muito a ver.

Como raio em céu azul, o presente para Dona Cremilda veio-me de pronto. E o sol da certeza iluminou o caminho: fui num pé, não errei o passo na valsa e o indicador apontou o que sempre será o verdadeiro sapatinho da Cinderela.

Comprei o mesmo modelo que comprei no ano passado, no mesmo número, na mesma cor, na mesma loja do ano passado, porque tenho vivíssima a imagem da Dona Cremilda quando o experimentou.

Todo ano antecipo o almoço do Ano Novo, dou de comer e de beber à trupe que ganha presentes.

Como criança que compra o Keds certo para a Penélope Charmosa que não vê o que há de cor-de-rosa debaixo dos escândalos do mundo, fiquei ruborizado pela oportunidade que eu criei.

Aristeu e Luisinho caíram na gargalhada, pois não há lição que não a esqueça em seguida. Mesmo rindo, a amiga sabe que irei trocar o 35 pelo 37.

Contudo, o que não contarei?

ꟷ No ano passado, o senhor comprou comigo e fez a mesma coisa, pediu desconto e veio trocá-lo, sorrindo amarelo.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 16 de dezembro de 2025.

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