terça-feira, 23 de dezembro de 2025

Fios de esperança

 

Fios de esperança

 

Com as Festas tão próximas, funcionários estão na praça: a pintam de azul; caiam as faixas de pedestres que dão acesso ao céu tornado chão; não podam os galhos florescidos, tão amarelos; lavam o coreto, avivando o cinza.

De onde estou sentado, o coreto corta a visão. Isso não me impede de ter em mente que os mendigos vão bebendo cachaça no gargalo e, pelo Ano Bom, nem tentarão se despedir dos andrajos.

As roupas mereciam ser lavadas, pois os cordões de luzes vindo do cruzeiro da torre da Matriz até o topo das luminárias dizem que já é hora de correr atrás do Natal ꟷ indo às lojas, não só aos bares.

O coreto ficou, mas a reforma mais recente engoliu o chafariz.

Tomo sorvete. Faz calor. Queria tomar sossegado o sorvete. Lambo a casquinha para não me melecar, pois o calorão derrete-o rápido.

Vem um homem sentar-se comigo no banco.

Para meu alívio, já que não associa o calor e a velocidade da minha língua, ele diz que o seu cunhado pediu-lhe dinheiro.

O marido da irmã tem dívidas, muitas dívidas, todas no cartão. Mas, as crianças gostam de jogar, e não apostam no celular.

Aquele cara tem coragem. Enfrenta a fortuna. Ainda que ela insista em contrariá-lo, há de frustrá-la. Quando ganhar, vencerá o algoritmo. Vencendo, contará para todo mundo da igreja. Dará em testemunho a fé inegociável que o motiva a querer o melhor, sempre o melhor.

Sendo minha prioridade não me lambuzar, a matraca vai ativa.

Ele diz que o cunhado é o Ubiratan. Nome inventado, ressalto. Já a Cecília, a irmã cujo nome verdadeiro não quero conspurcado, não larga da esperança, uma vez que, ela reza por isso, o Ubiratan dará à família, a ela e aos dois filhos, a felicidade de dobrar as chances quando todos puderem jogar.

A primeira prestação de cada novo celular terá o crédito cobrado na conta de janeiro, e só no ano que vem. Graças! O Ubiratan já foi à loja, já fez o que se espera de quem trabalha pelo futuro, já escolheu pelos dependentes o que acredita ser a razão de outro amanhã.

Esta alegria o marido soube dar a todos, porque família tem mesmo que se alegrar por igual, sem ter a discriminação de um deles ficar com aparelho ultrapassado, cujos recursos tecnológicos são do ano que já vai terminando.

Nisso, chega o Ubiratan.

Não se abraçam, mas sorriem. Não se vê animosidade entre eles.

ꟷ Bira, mais tarde vou levar o panetone que a Ciça fez.

ꟷ Beleza, Nato, leva lá mais tarde, depois do culto.

Sem malabarismos, entendi que o Nato que ganhará o panetone é Fortunato. Mesmo assim, ele diz que o seu nome é Fortunato.

Fortunato volta ao serviço, para acabar de podar os ipês da praça.

Assim que me acho sozinho, compro outro sorvete.

Lambo-o sem pressa. Não ligo que escorra e meleque a minha mão. Lambo a minha casquinha sem projetar o desejo de que as Festas não conspurquem e não melequem as pessoas que têm nojo de tudo que seja melequento.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 23 de dezembro de 2025.

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