Com
as Festas tão próximas, funcionários estão na praça: a pintam de azul; caiam as
faixas de pedestres que dão acesso ao céu tornado chão; não podam os galhos florescidos,
tão amarelos; lavam o coreto, avivando o cinza.
De
onde estou sentado, o coreto corta a visão. Isso não me impede de ter em mente
que os mendigos vão bebendo cachaça no gargalo e, pelo Ano Bom, nem tentarão se
despedir dos andrajos.
As
roupas mereciam ser lavadas, pois os cordões de luzes vindo do cruzeiro da
torre da Matriz até o topo das luminárias dizem que já é hora de correr atrás
do Natal ꟷ indo às lojas, não só aos bares.
O
coreto ficou, mas a reforma mais recente engoliu o chafariz.
Tomo
sorvete. Faz calor. Queria tomar sossegado o sorvete. Lambo a casquinha para
não me melecar, pois o calorão derrete-o rápido.
Vem
um homem sentar-se comigo no banco.
Para
meu alívio, já que não associa o calor e a velocidade da minha língua, ele diz
que o seu cunhado pediu-lhe dinheiro.
O
marido da irmã tem dívidas, muitas dívidas, todas no cartão. Mas, as crianças gostam
de jogar, e não apostam no celular.
Aquele
cara tem coragem. Enfrenta a fortuna. Ainda que ela insista em contrariá-lo, há
de frustrá-la. Quando ganhar, vencerá o algoritmo. Vencendo, contará para todo
mundo da igreja. Dará em testemunho a fé inegociável que o motiva a querer o
melhor, sempre o melhor.
Sendo
minha prioridade não me lambuzar, a matraca vai ativa.
Ele
diz que o cunhado é o Ubiratan. Nome inventado, ressalto. Já a Cecília, a irmã
cujo nome verdadeiro não quero conspurcado, não larga da esperança, uma vez que,
ela reza por isso, o Ubiratan dará à família, a ela e aos dois filhos, a
felicidade de dobrar as chances quando todos puderem jogar.
A
primeira prestação de cada novo celular terá o crédito cobrado na conta de
janeiro, e só no ano que vem. Graças! O Ubiratan já foi à loja, já fez o que se
espera de quem trabalha pelo futuro, já escolheu pelos dependentes o que acredita
ser a razão de outro amanhã.
Esta
alegria o marido soube dar a todos, porque família tem mesmo que se alegrar por
igual, sem ter a discriminação de um deles ficar com aparelho ultrapassado,
cujos recursos tecnológicos são do ano que já vai terminando.
Nisso,
chega o Ubiratan.
Não
se abraçam, mas sorriem. Não se vê animosidade entre eles.
ꟷ Bira, mais tarde vou levar o panetone que a Ciça fez.
ꟷ
Beleza, Nato, leva lá mais tarde, depois do culto.
Sem malabarismos, entendi que o Nato que ganhará o panetone é Fortunato. Mesmo assim, ele diz que o seu nome é Fortunato.
Fortunato volta ao serviço, para acabar de podar os ipês da praça.
Assim
que me acho sozinho, compro outro sorvete.
Lambo-o
sem pressa. Não ligo que escorra e meleque a minha mão. Lambo a minha casquinha
sem projetar o desejo de que as Festas não conspurquem e não melequem as
pessoas que têm nojo de tudo que seja melequento.
Rodrigues da Silveira
Ibiúna,
dia 23 de dezembro de 2025.
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