Se
te fosse concedido um tempinho, tu não bobearias, aguardarias que os carros
passassem, atravessarias a rua temeroso, rezarias para que as pernas não fraquejassem,
xingarias que buzinassem, entrarias na espelunca, pedirias guaraná, suarias pela
federal, uma vez que, na cabeça, o milhar fora outro.
Se
tu me permitisses um palpite, eu criticar-te-ia pelos dez reais da fezinha, insistiria
que, gasta à toa, a grana pagaria o refri e uma esfirra, mas a federal cantada
foram quatro números anômalos.
Se
te desse um minutinho, entrosarias o passo, virias ao botequim, sentar-te-ias
ao balcão, tomarias um suco, comerias um quibe, pedirias que o som da tevê
fosse aumentado.
Se
te ameigassem com a tevê, incomodar-te-ias com o cubículo de metros quadrados
exorbitantes para alento de apenas um narizinho, blasfemarias a plenos
pulmões, conclamarias o demônio, demandarias que te dessem uma cama de casal
com lençóis novos a cada alvorada, suplicarias por uma esteira, clamarias pelo
frigobar com garrafinhas de vodca e caixinhas de água de coco, e dispensarias
suplicar por celular ativamente irrastreável, porque sempre é hora de cravar do
primeiro ao quinto, que a federal não deixa de correr.
Se
eu a ti te apoiasse, poupar-te-ia da lembrança das quinquilharias criadouras de
mosquitos da dengue e dir-te-ia dos paralelos plausíveis, porque sol quadrado tem
perspectiva picasseana e desjejum frugal não é trato espartano, é uma bela coisa
franciscana.
Se
tu fosses dado a curiosidades, dar-te-ias a oportunidade de pedir um dicionário
para progredires nas cruzadinhas, ainda que isso sequer te adiantasse para
abatimentos, pois a remissão de pecados nada tem que ver com horizontais,
verticais e a solução na última página.
Por
haveres cavado túmulos, sepultar-te-ão sem detença.
Quando
mudas de assunto, isso não acarreta que tagarele sobre o sinistro em Hong Kong,
felicite Woody Allen pelos 90 anos ou sinta-me abalado pela edição requintada
d’A arte da sabedoria mundana.
Continuo
falante. Digo que atravesso a rua sem olhar para os lados, pois motoristas são
cidadãos que fazem bom uso das buzinas.
Penso
que a cura para minha condição é não me pensar curado do que me põe casmurro.
Sendo essa pessoa que cala a matraca quando entende de calá-la, mesmo que peças
para lamentar quando lamentas, sigo avante.
Ainda
que te trates na segunda pessoa porque te fias ser a minha sombra, não vou
paparicá-lo.
Porque
não me paparico, cruzo a rua, aguardo a minha vez de ser atendido, tomo o
guaraná que peço a gentileza de servirem-me gelado, como o queijo quente que
entregam num pratinho de pirex, peço outro queijo quente a ser servido no mesmo
pratinho, faço moucos os meus ouvidos, pigarreio, quase engasgo de raiva, e,
com o rancor sobrevindo ao ressentimento, pago que eu nem olho para trás.
Rodrigues da Silveira
Ibiúna,
dia 30 de novembro de 2025.
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