domingo, 30 de novembro de 2025

Pé na tábua

 

Pé na tábua

 

Se te fosse concedido um tempinho, tu não bobearias, aguardarias que os carros passassem, atravessarias a rua temeroso, rezarias para que as pernas não fraquejassem, xingarias que buzinassem, entrarias na espelunca, pedirias guaraná, suarias pela federal, uma vez que, na cabeça, o milhar fora outro.

Se tu me permitisses um palpite, eu criticar-te-ia pelos dez reais da fezinha, insistiria que, gasta à toa, a grana pagaria o refri e uma esfirra, mas a federal cantada foram quatro números anômalos.

Se te desse um minutinho, entrosarias o passo, virias ao botequim, sentar-te-ias ao balcão, tomarias um suco, comerias um quibe, pedirias que o som da tevê fosse aumentado.

Se te ameigassem com a tevê, incomodar-te-ias com o cubículo de metros quadrados exorbitantes para alento de apenas um narizinho, blasfemarias a plenos pulmões, conclamarias o demônio, demandarias que te dessem uma cama de casal com lençóis novos a cada alvorada, suplicarias por uma esteira, clamarias pelo frigobar com garrafinhas de vodca e caixinhas de água de coco, e dispensarias suplicar por celular ativamente irrastreável, porque sempre é hora de cravar do primeiro ao quinto, que a federal não deixa de correr.

Se eu a ti te apoiasse, poupar-te-ia da lembrança das quinquilharias criadouras de mosquitos da dengue e dir-te-ia dos paralelos plausíveis, porque sol quadrado tem perspectiva picasseana e desjejum frugal não é trato espartano, é uma bela coisa franciscana.

Se tu fosses dado a curiosidades, dar-te-ias a oportunidade de pedir um dicionário para progredires nas cruzadinhas, ainda que isso sequer te adiantasse para abatimentos, pois a remissão de pecados nada tem que ver com horizontais, verticais e a solução na última página.

Por haveres cavado túmulos, sepultar-te-ão sem detença.

Quando mudas de assunto, isso não acarreta que tagarele sobre o sinistro em Hong Kong, felicite Woody Allen pelos 90 anos ou sinta-me abalado pela edição requintada d’A arte da sabedoria mundana.

Continuo falante. Digo que atravesso a rua sem olhar para os lados, pois motoristas são cidadãos que fazem bom uso das buzinas.

Penso que a cura para minha condição é não me pensar curado do que me põe casmurro. Sendo essa pessoa que cala a matraca quando entende de calá-la, mesmo que peças para lamentar quando lamentas, sigo avante.

Ainda que te trates na segunda pessoa porque te fias ser a minha sombra, não vou paparicá-lo.

Porque não me paparico, cruzo a rua, aguardo a minha vez de ser atendido, tomo o guaraná que peço a gentileza de servirem-me gelado, como o queijo quente que entregam num pratinho de pirex, peço outro queijo quente a ser servido no mesmo pratinho, faço moucos os meus ouvidos, pigarreio, quase engasgo de raiva, e, com o rancor sobrevindo ao ressentimento, pago que eu nem olho para trás.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 30 de novembro de 2025.

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