quinta-feira, 31 de julho de 2025

Terapia tóxica

 

Terapia tóxica

 

Embora ensolarada, a manhã está gelada, faz cinco graus. Não é por ser inverno que me percebo triste, é porque esta tristeza veio sutil. Enregelando-me sem que a percebesse afrontosa, questionadora, esta sutileza tem alento bastante para me persuadir a adotá-la uma tristeza solar, luminosa. Com lucidez suficiente para que me estimule a dar-lhe manifestação, encarno-a e, invernoso, me faço um sol pálido.

Ainda que não seja uma tristeza acutilante, gravosa, profundíssima, a desconsolar-me em dor, num sentimento doloroso, lacrimejo; tocado, digo-me uma dorzinha, digo o que me põe perceptível.

Esta dor, este sentimento, tanto mexe comigo que fico um tempinho à janela; refreio-me do ímpeto, seguro-me da irreverência de correr ao papel para rir-me desse prostrado, desse pensaroso cuja lividez é uma máscara devera risível, porque, leve, levíssima, a melancolia pede-me uma sacanagenzinha tola, pede-me alguma graça para comigo.

Com problemas de sobra para resolver, ponho-me à janela e cá fico eu enquanto a prostração faz-me fraco. Mas a minha fraqueza me põe idiota, tão bocó que me submeto ao mundo tendo de mim a pérola de ser uma pessoa lúcida, contida ― um dedo fria e outro apática ―, uma pessoa que precisa do lápis, não pra maquiar os olhos, preciso de mim para notar-me gracioso, leve, de uma futilidade a rir de si mesma.

Pego o lápis, pois o sol quer-se por escrito. Escrevo, risco palavras, troco algumas, pois minha brisa persiste nos cinco graus. Digito o que escrevi, mas apago parágrafos, reposiciono outros, quero-me um vento solar a soprar este inverno para fora de mim.

Por conhecer-me, lápis, você sabe que posso alegrar-me, sabe que não preciso seguir conformado à tristeza, afeito a essa vulnerabilidade que produz este sentimento de que estou encoberto, que me confundo, produz-me esta névoa a ser dissipada, como crônica.

O pusilânime e eu lutamos, pelejamos, temos palavras; há uma luta, ou o lápis não teria de ser apontado; e a folha vence.

Leio o acabado de ser escrito; e me decepciona que seja uma pedra a ser polida pelo vento, e me inspira que o faça uma janela a ser aberta para que o vento passe, e me ridicularizo, que o texto escrito é lápide a esse escrevinhador com imaginação servil; enfiado na canga, rodo a moenda, mas não dou farinha.

Não havendo mingau, resta o escrito ser descartado.

Quanto a isso, rasgar e queimar o que esteja ruim, preciso de estar afiado, crítico, maluquinho o bastante para mofar da tristeza vulgar, da lágrima postiça, da melancolia amena a me pôr fleumático.

Mas a falsidade do escrito desperta o garoto que, por saber do fogo pelo fogo, dá fim ao que precisa ser destruído.

Idiota, inspira a fumaça. Tosse, me enerva. Na praça, menos idiota, me sossego ao respirar. Sereno, tomo pé do ponto: menos uma crônica ruim, não um mundo melhor.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 31 de julho de 2025.

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