quinta-feira, 24 de julho de 2025

Por nada

 

Por nada

 

Aqueles dois estão noturnos. Já dia raiado e já o sol marcando sete horas, vêm cambaleantes. Gesticulam e falam alto. Uma vez que estão empolgados, como dois bons parceiros, não debatem.

É provável que eles não tenham desistido da noite que os transporta em meio aos trabalhadores, dando a estes a alegria de rirem, por eles virem cambaleantes, virem cuspindo ao falar.

Pouco se lhes dá que estejam rindo, estão alegres, pois não estão indo trabalhar, estão transferindo a farra, do bar do qual foram expulsos para o próximo que os acolha.

Justamente por estarem bêbados, serão acolhidos, mesmo porque, desde que ainda tenham dinheiro, a eles serão servidos os copos, lhes serão cobrados os tragos que não beberam e hão de pagar por não os terem bebido, pois darão êxtase ao dono que tanto lhes valoriza assim alegres, ainda beberrões.

Até que peçam a saideira por conta da casa.

Eu, porém, não estou indo pra casa. Preciso de mim sóbrio, prático, pois tenho compras pra fazer e meia hora pra voltar; tenho trabalho pra acabar, prazo pra respeitar, tenho de estar disponível pra novo serviço, novo prazo, nova disponibilidade.

Assim sucessivamente, até que desabe o teto sobre a testa?

Todavia, a realidade prosaica, pouco dada a conjecturações sobre a mediocridade deste homem nas nuvens, embora na fila, embora seja o seguinte a passar os itens, a realidade é a caixa pôr a plaquinha que impinge a mim que procure um que esteja aberto.

Como o caixa pode fechar se estou na fila, que seja o próximo a ser atendido? Ela não é cega! A placa pode dizer ‘caixa fechado’? Ela pode virar o rosto? Pode ostentar alegria apenas porque o sol esteja batendo nos arbustos da pracinha?

A jovem que barrou a minha vez de ser atendido beberica algo do copo ilustrado pelo logo de uma academia de ginástica.

Sem fingir que estou no caixa ao lado do seu, ela elogia o noivo por fazer musculação diariamente, mostra fotos dele à funcionária que me atende, ri, diz que ele sabe se cuidar, tanto quanto ela o faz.

Por que não me meto nessa prosa?

O atrevimento é por desplante, é o seu modo de debochar de mim, uma vez que sou feio, barrigudo, carequinha, baixinho, mais um velho numa época de corpos remodelados por almas esbeltas.

A mim me parece, caso não esteja equivocado, que o ponto fulcral é a mocinha apregoar o poder que imagina deter, que é o de manifestar a sua vontade de humilhar ― não exclusivamente a mim, mas a todo aquele que se sujeite a aviltamentos.

Não abro a boca, eu penso.

Não a perdoo, pois me vejo um cristão. E um cristão, no meu lugar, sabe que não cabe a ele perdoar quem o ofende, pois o perdão pra ser verdadeiramente pleno só pode vir do Pai.

Pra me assegurar deste cristianismo inebriante, pago sorrindo, pois não cabe a mim perdoar quem me agride, afinal o papel do Pai é haver-se da punição dessas ovelhas clamorosamente desgarradas.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 24 de julho de 2025.

Nenhum comentário:

Postar um comentário