Aqueles dois estão noturnos. Já dia
raiado e já o sol marcando sete horas, vêm cambaleantes. Gesticulam e falam
alto. Uma vez que estão empolgados, como dois bons parceiros, não debatem.
É provável que eles não tenham desistido
da noite que os transporta em meio aos trabalhadores, dando a estes a alegria
de rirem, por eles virem cambaleantes, virem cuspindo ao falar.
Pouco se lhes dá que estejam rindo,
estão alegres, pois não estão indo trabalhar, estão transferindo a farra, do
bar do qual foram expulsos para o próximo que os acolha.
Justamente por estarem bêbados, serão
acolhidos, mesmo porque, desde que ainda tenham dinheiro, a eles serão servidos
os copos, lhes serão cobrados os tragos que não beberam e hão de pagar por não os
terem bebido, pois darão êxtase ao dono que tanto lhes valoriza assim alegres,
ainda beberrões.
Até que peçam a saideira por conta da
casa.
Eu, porém, não estou indo pra casa.
Preciso de mim sóbrio, prático, pois tenho compras pra fazer e meia hora pra
voltar; tenho trabalho pra acabar, prazo pra respeitar, tenho de estar
disponível pra novo serviço, novo prazo, nova disponibilidade.
Assim sucessivamente, até que desabe o
teto sobre a testa?
Todavia, a realidade prosaica, pouco
dada a conjecturações sobre a mediocridade deste homem nas nuvens, embora na
fila, embora seja o seguinte a passar os itens, a realidade é a caixa pôr a
plaquinha que impinge a mim que procure um que esteja aberto.
Como o caixa pode fechar se estou na
fila, que seja o próximo a ser atendido? Ela não é cega! A placa pode dizer
‘caixa fechado’? Ela pode virar o rosto? Pode ostentar alegria apenas porque o
sol esteja batendo nos arbustos da pracinha?
A jovem que barrou a minha vez de ser
atendido beberica algo do copo ilustrado pelo logo de uma academia de
ginástica.
Sem fingir que estou no caixa ao lado do
seu, ela elogia o noivo por fazer musculação diariamente, mostra fotos dele à
funcionária que me atende, ri, diz que ele sabe se cuidar, tanto quanto ela o
faz.
Por que não me meto nessa prosa?
O atrevimento é por desplante, é o seu
modo de debochar de mim, uma vez que sou feio, barrigudo, carequinha, baixinho,
mais um velho numa época de corpos remodelados por almas esbeltas.
A mim me parece, caso não esteja
equivocado, que o ponto fulcral é a mocinha apregoar o poder que imagina deter,
que é o de manifestar a sua vontade de humilhar ― não exclusivamente a mim, mas
a todo aquele que se sujeite a aviltamentos.
Não abro a boca, eu penso.
Não a perdoo, pois me vejo um cristão. E
um cristão, no meu lugar, sabe que não cabe a ele perdoar quem o ofende, pois o
perdão pra ser verdadeiramente pleno só pode vir do Pai.
Pra me assegurar deste cristianismo
inebriante, pago sorrindo, pois não cabe a mim perdoar quem me agride, afinal o
papel do Pai é haver-se da punição dessas ovelhas clamorosamente desgarradas.
Rodrigues
da Silveira
Ibiúna, dia 24 de julho de 2025.
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