Reginaldo entrou na lotérica, marcou as seis
dezenas, foi paciente na fila, sorriu, pagou, pôs a aposta na carteira e foi
comemorar, porque, sedento de riqueza, sentia-se devera afortunado.
No fundo, Reginaldo não ficaria rico, pois,
melhor dizendo, haveria de virar milionário. Todo mundo diria que cara bacana ele
era, que nem teria que se preocupar com o colégio dos filhos, que bom de prato ele
era porque repetiria o contrafilé com fritas sem negar gorjeta ao garçom que bem
o tenha servido.
Por Cristo! Milionário, ele deveria se
comportar como o menino que levava a bola para as peladas. Ele achava justo ter
a oportunidade de perdoar os professores chatos pelas aulas chatérrimas que foi
preciso matar porque o convocavam para as peladinhas. Milionário, perdoado, e
tão esfuziante, já feito capitão do time vencedor.
De fato, Reginaldo nunca gostou de beber
sozinho.
Mas a tarde soube ficar comovida com a
solidão do menino que não queria ratear com o apresentador da televisão e, assim
do nada, uma mulher de vestido de oncinha queria um cigarro filado.
Se não se incomodasse, ela tomasse uma
cerveja com ele, porque cigarro fazia mal, estragava o ar, já um golinho sempre
cai bem.
Diferente do costumeiro, Reginaldo sentiu
constrangimento do fluxo de ideias que aquela mocinha provocava, mas, ainda que
não ouvisse música, ele previa que a poderosíssima poderia começar a rebolar,
que aqueles tamanquinhos podiam estralar no botequim.
Exageradamente confiante na sorte que
tinha no bolso, acreditando cegamente na bolada que jazia na carteira, a vida
seria estupenda por causa do volante que nem carecia mostrar, por isso ele bebia,
bebeu, e foram tantas as cervejas que ele pagou que a fortuna, a carteira e a oncinha
dos tamancos viraram fumaça.
― Quer dizer que o pinguço esqueceu a
pizza?
Como ouviu aquilo mal entrara em casa, Reginaldo,
lembrando-se do caixa eletrônico do outro lado da praça, foi tirar dinheiro
porque iria voltar pro boteco.
― Naldico, eu tinha certeza que você não
daria cano no Bonifácio; disse-lhe um sujeito que o viu enfiando as notas no
bolso. Gente boa, vamos direto lá, assim você acerta o fiado e começamos tudo
de novo; lhe disse o sujeito que, de fato, parecia ter estado com ele.
Quando se inclinou pra apoiar a cabeça
na janela do ônibus, o braço pressionado contra a lataria revelou-se dolorido.
Assim que viu o quadradinho de esparadrapo,
já menos descrente, admitiu que tinham aplicado uma injeção.
― Naldico do caraça, fui eu que te levei,
pois você estava tão mal que até caiu no próprio vômito. E o Bonifácio me fez
jurar que eu ficaria junto o quanto fosse preciso, e foi bem uma hora, cara.
Nem do soro na veia o Reginaldo se
lembrava.
― E você entrou na noia de ficar
repetindo aquele troço sem graça, foi um porre aquela mão morta na marmita da
marmota.
Rodrigues
da Silveira
Ibiúna, dia 03 de agosto de 2025.
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