terça-feira, 29 de julho de 2025

Segunda-feira

 

Segunda-feira

 

E aí, Mané, conhece palavra com 27 letras?

Defenda-se, pois a pessoa não precisa responder mesmo que saiba a resposta; pode preferir ir ao banco pagar os seus boletos porque isso é demonstração de lhe ser providencial bater-se pelo controle.

Responsável pelo que pensa de si, ainda que escolha não dizer que palavra é constituída por 27 letras, seu ensimesmamento acarreta que censura gente folgada, mesmo que isso implique que o silêncio é mais que uma máscara de proteção.

Sentir-se controlado deixa-o em paz com sua agressividade latente, embora o acusem nervosinho, achem-no bem desaforado, julguem-no mui deselegante, pois, justamente pelo rancor, não faz graça.

Poder-se-ia induzir que essa paz marca-lhe a soberba, embora seja crível o oposto, que o silêncio funcione como sintoma da vaidade.

A pessoa quer preservada a intimidade, quer-se protegida, portanto trata de cuidar do que lhe seja importante; e fá-lo precisamente porque isso, ficar em silêncio, indica que nem tudo merece atenção.

Ô neura! A carência alheia que lhe continue alheia.

Pelas veredas da paranoia, adeus mistério, porque quem fala à toa é gente vil, a querer desviar o foco, disposta a fazer a gente de trouxa, portanto, pergunte-se, que prêmio advirá das 27 letras?

Inconstitucionalissimamente e electrofototermoterapêutico, as duas têm vinte e sete letras, mas a segunda é uma segunda fria.

Segunda-feira, aliás, é palavra com treze caracteres.

Passando à má sorte: quem nunca passa debaixo de escada conta com que o pintor não controle totalmente o pincel, tanto que é possível ser mensurada a chance de os respingos caírem no boné de quem se descuidou, ainda que o letreiro receba os últimos retoques:

MORANGO DO AMOR POR VINTE MANGOS.

Mané, este letreiro tem vinte e sete letras!

É burrice não anotar as informações que o mundo oferece sem lhe cobrar uma pila, pois toda informação tem valor, seja pela utilidade no momento certo, que isso revela conhecimento, seja pela monetização, que isso qualifica o trabalho, provando por a mais b que gente esperta não é burra, pois a pessoa passa a ter conhecimento de si.

A pessoa sabe quem é, sabendo-se pela malícia, pela esperteza do cálculo, por ganhar a vida fazendo o que gosta. E tal pessoa dará valor ao que gosta quando topar fazê-lo por amar-se.

Porque a pessoa ama, ela pira quando a perda é impossível de ser reparada. Ela se remorde como o diabo se a fortuna calha de parar nas mãos de quem não aproveita a situação.

Por valorar o que carece da estima que ainda não sente, memorize que a segunda mimoseia-o com esta palavra da língua portuguesa com 46 letras: pneumoultramicroscopicossilicovulcanoconiótico.

É para isso que existe o Google?

Ora, Mané, é pra que este escriba lambuze o teclado com morango do amor, pois ele ama essa trabalheira que é dar água na boca.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 29 de julho de 2025.

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