domingo, 27 de julho de 2025

A minha porção escandalosa

 

A minha porção escandalosa

 

Quando obsedado por uma querela de somenos complicação, acho prudente acalmar as minhas minhoquinhas, porque um esperneio seria visto como estapafúrdio.

No lugar de ridículo, o mais apropriado seria dizê-lo uma encenação patética. Pois bem, não me quero ridicularizado em praça pública, opto por não espernear e, a fim de melhorar pro meu lado, escolho nem dar mancada fora de hora.

Com a calma que necessito, entendo que não tenho que me aliviar do peso de uma questiúncula leve, menor, mas tenho que me acoimar que é ilusão barata eu crer que tenha virado uma centopeia para outra mancadinha na mesma semana.

Eu puxo papo, vou andando devagar, pois não quero cometer novo erro, sobrepondo-o ao erro cometido, como se o mais recente fosse o meio mais curto para o encobrimento do primeiro erro.

O bate-papo me acalma, me tranquiliza, sei que vou desacelerando, vou menos apressado, menos tenso, percebo-me mais senhor de mim, sinto que é menor o esforço de sacar de mim a pessoa que dê orgulho, que não está cansada, tanto está menos agitada que noto que sou eu indo na direção contrária ao escritório.

Despercebido que estou, corrijo-me, tranquilizo-me, não acho justo me censurar porque o banco da praça se apresenta como o lugar certo para tirar da correria esse tempo que preciso dar-me.

Sentar, respirar sem medo, respirar pra que perceba o quanto o dia a dia anda oprimindo. Sentado, permito-me a desconfiança, que o dedo acusador bem pode ser outro, um que não seja meu.

Sentado, quiçá tenha sentido que o dedo que me acutila a testa tem o suor, o calor da minha digital, muito embora esse dedo venha de mil tentáculos convergentes numa ponta pontiaguda.

Uma vez sentado na praça, o ambiente urbano nem precisa notar a minha presença, nem quero ser percebido. Ao que parece, me dominei e isso me faz crer que estou integrado como outro qualquer. Sou outra pessoa sentada na praça, mais um fulano a observar o movimento dos carros, mais um sujeito indiferente a quem passa.

Sem olhares sendo trocados, sem que olhares me observem à cata de alguma aflição que me esteja desequilibrando, não dramatizo o que estava afligindo nem por agora estar dominado.

Tiro os sapatos e as meias.

Nada há de incomum em um senhor de terno e gravata trocar seus sapatos por uma sandália.

Se alguém pedisse explicações, diria que fui eu que pedi para pagar à vista, esclareceria que fui eu que apontei o modelo, insistiria que fui eu que vim pro banco mais próximo, que era eu quem precisava sentar, calçar as sandálias e pôr na sacola a pressa, os sapatos e as meias.

Puxo o ar, sublime é a fragrância das franciscanas.

Vou dizer que comi uma bisteca. Vou admitir que foi erro meu comer porco em dia de expediente. Vou lastimar a minha ausência na reunião há muito agendada.

Abro o sorriso, pois unha encravada dar morrinha é fugaz.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 27 de julho de 2025.

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