Quando obsedado por uma querela de
somenos complicação, acho prudente acalmar as minhas minhoquinhas, porque um
esperneio seria visto como estapafúrdio.
No lugar de ridículo, o mais apropriado seria
dizê-lo uma encenação patética. Pois bem, não me quero ridicularizado em praça
pública, opto por não espernear e, a fim de melhorar pro meu lado, escolho nem
dar mancada fora de hora.
Com a calma que necessito, entendo que não
tenho que me aliviar do peso de uma questiúncula leve, menor, mas tenho que me
acoimar que é ilusão barata eu crer que tenha virado uma centopeia para outra
mancadinha na mesma semana.
Eu puxo papo, vou andando devagar, pois
não quero cometer novo erro, sobrepondo-o ao erro cometido, como se o mais
recente fosse o meio mais curto para o encobrimento do primeiro erro.
O bate-papo me acalma, me tranquiliza,
sei que vou desacelerando, vou menos apressado, menos tenso, percebo-me mais
senhor de mim, sinto que é menor o esforço de sacar de mim a pessoa que dê
orgulho, que não está cansada, tanto está menos agitada que noto que sou eu
indo na direção contrária ao escritório.
Despercebido que estou, corrijo-me,
tranquilizo-me, não acho justo me censurar porque o banco da praça se apresenta
como o lugar certo para tirar da correria esse tempo que preciso dar-me.
Sentar, respirar sem medo, respirar pra
que perceba o quanto o dia a dia anda oprimindo. Sentado, permito-me a
desconfiança, que o dedo acusador bem pode ser outro, um que não seja meu.
Sentado, quiçá tenha sentido que o dedo que
me acutila a testa tem o suor, o calor da minha digital, muito embora esse dedo
venha de mil tentáculos convergentes numa ponta pontiaguda.
Uma vez sentado na praça, o ambiente
urbano nem precisa notar a minha presença, nem quero ser percebido. Ao que
parece, me dominei e isso me faz crer que estou integrado como outro qualquer.
Sou outra pessoa sentada na praça, mais um fulano a observar o movimento dos
carros, mais um sujeito indiferente a quem passa.
Sem olhares sendo trocados, sem que
olhares me observem à cata de alguma aflição que me esteja desequilibrando, não
dramatizo o que estava afligindo nem por agora estar dominado.
Tiro os sapatos e as meias.
Nada há de incomum em um senhor de terno
e gravata trocar seus sapatos por uma sandália.
Se alguém pedisse explicações, diria que
fui eu que pedi para pagar à vista, esclareceria que fui eu que apontei o
modelo, insistiria que fui eu que vim pro banco mais próximo, que era eu quem precisava
sentar, calçar as sandálias e pôr na sacola a pressa, os sapatos e as meias.
Puxo o ar, sublime é a fragrância das
franciscanas.
Vou dizer que comi uma bisteca. Vou
admitir que foi erro meu comer porco em dia de expediente. Vou lastimar a minha
ausência na reunião há muito agendada.
Abro o sorriso, pois unha encravada dar
morrinha é fugaz.
Rodrigues
da Silveira
Ibiúna, dia 27 de julho de 2025.
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