domingo, 29 de junho de 2025

No ranço fundo

 

No ranço fundo

 

Escuto vozes. As vozes que escuto neste domingo não desejo ouvi-las. Falam alto; são irritantes, não param de falar. Desagrada entendê-las; aborreço-me que as identifico: há uma serra, há martelos.

É triste que o domingo também seja dia pra serrar e martelar.

Os meus demônios gargalham que gargalham, porque eu achei que dormiria até tarde. Achei que dormiria, logo não me achei um bocó.

Ora essa, seu bocó, quem serra e martela em pleno domingo faz o que precisa fazer pra continuar tendo o que fazer na segunda, na terça, na quarta, na quinta, na sexta, no sábado.

Mané, quem paga é quem manda, então, que seja feito no domingo o que tem que ser feito durante a semana toda, então, fiquem incluídos domingos e feriados, sejam incluídas as horas a mais que tiverem que ser acrescidas, afinal, quem manda é quem paga, seja na segunda, na terça, na quarta, na quinta, na sexta e no sábado.

Sem escolha, este pobre precisa de dinheiro pra pagar pelo que faz.

Faço-me mal, pois preciso de micro-ondas pra esquentar a lasanha feita pra micro-ondas; prejudico-me por precisar de esteira pra queimar a lasanha acumulada na pança; leso-me a mim mesmo, porque preciso de extras para preservar-me esbanjador.

Se me mato de trabalhar, é natural que eu descanse? Todavia, se não trabalho não tenho do que descansar? Se eu não trabalho brigarei pra não trabalhar? Será imoral, um acinte, será cuspe na cara de quem trabalha pra ter carnês que lhe permitam acordos e novos acordos, até que venham as penhoras e os arrestos?

Penhoradamente, digo a besta que eu sou porque minha casa não tem micro-ondas. Bem babaca, cobro-me fazer pipoca no micro-ondas, pois preciso correr, preciso ler A Rosa do Povo, Tutameia, As Viagens de Gulliver.

O melhor que este cronista poderia ter feito é ter ido nadar no riacho que não para, uma vez que ter entrado na água fria proporcionaria que eu pegasse o pulso da realidade, uma vez que o real nem liga pro meu sermão vagabundo contra o capitalismo.

Barrar-me de virar profeta, cujo blábláblá mais entedia que mobiliza, é me impedir de ocupar a esquina como se me adentrasse uma arena, eis o meu propósito ao sentar-me pra escrevinhar estas linhas, que dou por dignas de irem aparecendo.

Ora, bocó, isso de achar que posso aprimorar-me enquanto escrevo é uma fantasia boboca, pois tirar o melhor que posso não me dissuade de confiar que a crônica é micro-ondas a quem precisa de micro-ondas.

Em outras palavras, já que confesso crer-me este idiota que melhor me convence a pensar que não corro das vozes que não param, ouço-me, quero compreender-me, mesmo que eu retarde o almoço ao subir na árvore e vire reforçar o que não precisa de pregos novos, porquanto a casa siga estável, sólida.

Como a idiotia incentiva a desentranhar estes meus traços realistas, acho-me neste retrato em que me dou por obsoleto.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 29 de junho de 2025.

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