terça-feira, 31 de dezembro de 2024

A última do cronista

 

A última do cronista

 

Conheço as palavras, sei o que significam, mas soarão falsas se as trouxer à crônica. Soarei hipócrita se desejar feliz ano novo, com muita paz, muito amor, muita saúde, muito isso e muito aquilo. Sem esquecer o dinheiro no bolso para o pote de sorvete, o pacote de talharim e, para o mês que vem, dois quilos de patinho moído.

Adoto o cinismo ao pensar que a vida poderia ser nova apesar das guerras, das chuvaradas, das emendas chegando atrasadas às pontes que caem.

Apesar dos remendos, que os pneus rodem até restar-lhes a única opção: a reciclagem.

Reciclo a esperança, tiro a folhinha da parede, martelo para afirmar o prego bambo, passo um pano seco, penduro a nova folhinha, porém não conto quantos feriados cairão na sexta ou na segunda, que desejo o ano novo como repleto de energia boa, que há de impulsionar-me às jornadas, haverá de pulsar em mim como objeto não identificado, posto que será novo, desconhecido, irredutível ao esperado.

Não conto que a esperança aflija-me outra vez, pois será nova, será desconhecida, e, ao sabor do acaso, será flexível.

Ao azar do gosto, malemolência não significa adaptação, quer dizer que sambarei e assobiarei ao colher jaca. Ou seja, só vou apanhar jaca porque a ela irei, apesar de ir assobiando e sambando.

Assobiando e sambando como o camarada sóbrio que sou, porque, afinal, embriagados são os outros.

Direi as palavras que conheço, farei com que sejam entendidas pelo que acredito que signifiquem, mas não me negarei pela segunda vez e descansarei à sombra da jaqueira.

Apesar de saber que jacas caem, à sombra de mim, ficarei à mercê da Terra, que vai girar, rodar e extravagar pelo cosmo.

E vagamundearei, comigo inclusive.

Quando as formigas começarem a vir, não me abalarão, eu boiarei no corpo; elas que façam a festa que precisem fazer, pois jaca abatida é repasto posto.

Não fingirei que não percebo e disfarçarei o maravilhamento: a vida é fogo que corre pelo que ainda pode queimar.

No entanto, não queimarei ponte alguma: o mundo é jaca caída que chama quem tem fome, quem come para sobreviver.

Sobreviverei sem comer jaca, sem pular da ponte e sem babar feito bocó enquanto as formigas sumirem com o repasto caído do céu.

Sei que jaqueira tem raízes, tronco e galhos, mas não chamarei a atenção sobre o meu corpo à sombra daquele ser em flor.

A realidade diz jaca, jaqueira, formigas, sobrevivência e soneira, sei que poderei recolher-me ao songamonga que pense o instante com o próximo, que há de seguir distante pra que eu, mentecapto e gracioso, não faça a besteira de lambuzar-me de jaca só pra assistir às formigas fervendo.

De repente lambuzado, embora isso mostre o quão besta eu posso ser, seguirei sem tocar Beethoven.

Como não toco piano, nem mesmo o piano que não tenho à sombra das jacas...

Fala sério! Não tem nenhuma crônica mais jocosa?

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 31 de dezembro de 2024.

Nenhum comentário:

Postar um comentário