quinta-feira, 2 de janeiro de 2025

Moça Bonita

 

Moça Bonita

 

Tchau, Moça Bonita ― disse a balconista ao sessentão de cabeleira grisalha arranjada em rabo de cavalo, jardineira jeans respingada de tinta, óculos redondinhos de aro de tartaruga, sandália franciscana de couro e uma afabilidade de corpo inteiro.

A moça também soube ser afável.

Havia sugerido objetos pelo que captou do que o senhor lhe dissera; tendo-o convencido com algo que a ele pareceu ter o preço satisfatório; embrulhado a blusinha de crochê não que fosse que nem uma tiara de diamantes numa debutante; entregue-lhe o mimo com os seus olhinhos de quem amaria recebê-lo de alguém feito o Moça Bonita.

Quando, na mocidade, ele passou a chamar toda e qualquer mulher de moça bonita, aquilo não pegou bem.

Irritavam-se as bonitas com o agrado desse cabeludo que só podia ter fumado um fino a mais. As maduras riam-se desse pobre-diabo que devia ter-se desencaminhado no regresso de Águas Claras. Por serem bem-casadas damas, às senhoras a investida era coisa divertida, uma ingenuidade de galante.

A namorados, noivos e maridos menos tolerantes, aquilo não tinha nada de gracejo, era desrespeito, afronta, um troço inaceitável.

Apesar de muitas rusgas, alguns entreveros e raros sopapos terem acontecido, ele persistiu, uma vez que o seu “moça bonita” era dito por educação, como sinal de carinho, jamais por desfeita.

Depois de tantos anos, já não riem, já não puxam briga, a ninguém ocorre de tratá-lo de modo diferente, ele é o Moça Bonita, uma pessoa de gestos suaves, é cidadão que vaga pelas ruas com mãos às costas, é gente que ainda põe gosto em cumprimentar quem lhe cruza a frente, mas, ai caramba!, que velhinho tão amável ele é.

E o crochê da blusinha faz Miranda sorrir.

― Moça Bonita, que peça caprichada! O ponto é de gente de mãos firmes, olho bom e verdadeiro carinho pelo que faz.

Miranda.

Quando a conheceu, Moça Bonita estranhou-lhe o nome.

Esbarraram-se entre as gôndolas do supermercado.

Ele se desculpou pelo inconveniente da distração, pois se agachara para ler o preço das pastilhas de repelente elétrico.

― Pernilongo é bicho insuportável, Moço Simpático.

O moço simpático foi o mesmo de sempre: não reclamou do preço, não discordou da gentileza recebida e não deixou de sorrir ao desejar que o dia fosse bom àquela moça bonita, que era de uma boniteza tão simpática.

Nesse mesmo dia, viram-se outra vez.

― Boa noite, Moço Simpático.

― Gosta de pizza, moça bonita?

― A moça bonita é Miranda, viu?

― Miranda! Que nem o zagueiro do São Paulo?

― Moço Simpático, não é sobrenome. O meu pai gostava de teatro, sobretudo do Shakespeare. Miranda vem da peça A Tempestade.

― Moça Bonita que se chama Miranda por conta do Shakespeare, eu nunca vi peça que passa em teatro.

Neste primeiro de janeiro de muita alegria, e pelo nono ano seguido, o Moça Bonita está na festa de aniversário da amiga Miranda.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 02 de janeiro de 2025.

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