Sujeito
oculto
Caladão; se contido nos braços, bem
serelepe das pernas; em nada um traquinas, embora desconfiassem do seu olhar,
de quem está rindo por dentro, não que fabricasse esse riso como pérola numa
ostra (nele) ou feito pedra na vesícula (aos outros). Em síntese, o caladão era
um esquisito, não um esquisitão dado a maluquices; era bicho do mato, só um que,
pelo sorrisinho acabrunhado de gente a declinar-se ímpar, era um camarada arredio
de tão urbano.
Não que a sua urbanidade fosse nódoa ou
mágoa.
Tão logo a claridade do dia passava
pelos vãos da janela, ele abria os olhos. Depois de espreguiçar-se, uma espreguiçada
para libertar-se do silêncio que o sono impõe aos sentidos e outra, pra
desgarrar-se da imobilidade de quem sossega submerso na escuridão, só então é
que punha os pés no chão.
Ainda na cama, embora atento aos
ponteiros do relógio digital retrô sobre o criado-mudo, não se censurava por
qualquer bobagem que o fizesse sorrir, que nem sonhador, não feito bobo.
Se pudesse iria ao ribeirão que os seus
avós muito citavam; e lá iria banhar-se, defecar e urinar, barbear-se. Como esse
passado só existe por perdido, não há de ser nenhuma idade de ouro ter que se
submeter ao chuveiro, ao espelho, ao vapor que o embaça.
Depois de conferir as notificações e só
depois de ler as mensagens que precisavam de ser lidas, ele se vestia.
Esmerava-se em pentear-se, em armar o
coque no cocuruto, em se aprumar no terno. Checava: sem caspa nem fiozinhos a enfeiarem-no.
Ajeitava o lenço, ajeitava-o para que as iniciais do seu nome ficassem à
mostra. Escancarava os dentes, verificava a gengiva. Posto que tudo indicava estar
em ordem, punha no olhar o sorrisinho de gente sorrindo a notar-se como quem
não estivesse.
Dirigindo, mantinha o rádio desligado.
Indo pro trabalho, precisava de concentração. Projetando-se em serviço, tinha
que dar razões que o inocentassem. Como a pilha de planilhas pintava o retrato
de pessoa sem norte no mundo, imprescindível era assegurar-se acerbo crítico da
indolência.
No sinal vermelho, lembrou que no
quintal dos avós havia galinhas, os ovos das omeletes eram sempre saudáveis, havia
cães vigiando os ovos, as galinhas e o cachorrão do vizinho que tinha propensão
a pular o muro a seu bel-prazer.
Trocando a marcha, chegou a suspirar, pois
a dona do vira-latão da casa vizinha veio-lhe esplendorosa, veio-lhe, como toca
ser toda musa olímpica, veio irresistivelmente belíssima.
Como fogo-fátuo some no éter, a bela o deixou
no vácuo.
De terno preto, colete preto, lenço
vermelho, gravata preta, camisa preta e sexagenária cabeleira ainda pretíssima,
o homem ao micro se achava invisível, inapreensível, o inimputável.
Petrificou-se ao descobri-la tão mundana
no Face, no Insta, no Xis, até na mensagem da caixa postal ― quem liga sabe que
não adivinho quem seja.
Rodrigues
da Silveira
Ibiúna, dia 01 de dezembro de 2024.