Maluquete
Como preparativo à escrita da crônica, ainda
que em mim houvesse somente o interesse de especular quais as qualidades requeridas
a um candidato, a boa-fé de quem confia na pujança da nossa economia me fez telefonar
a quem contrata para as Festas.
Não liguei para que me fossem
confidenciados segredos, buscava informações que me estimulassem festivo pro
Natal.
Pra ficar convencido de que eu faria a escolha
certa, falaram que a parada obrigatória do almoço era de meia hora e meia, avisaram
que as oito horas compulsórias teriam a precisa comprovação por registro
biométrico digital, advertiram que a compostura incluía ser sorridente, despir-se
de adereços espalhafatosos e, rigorosamente, nunca usar o celular durante o
serviço.
Se eu aceitaria? É claro, que não!
Se tivesse que confessar qual o fundo
real da minha ligação, teriam de ter notado o engodo sobre engordar assanhadamente
meu holerite com duas horas inegociáveis a mais por dia, posto que sou frouxo para
arregar antes mesmo de conformar-me ao padrão do bom trabalhador que se adéqua,
sensatamente, às circunstâncias.
Escrevendo, nego-me turrão, sou malemolente.
Escrevo, e trato de me desconcentrar da escrita, a vida me flexibiliza.
De domingo a domingo, pelos sete dias da
semana, mesmo quando não escrevo, estou projetando o que deixei de ter escrito.
No fundo da cachola, há ostras que engendram
palavras que soam pertinentes, mas bem posso refutá-las, pois não me reputo
caçador de pérolas. Aliás, dama de fino trato, eu fujo das deselegâncias. A bem
da verdade, prefiro a cara limpa, o colo limpo e lentes espelhadas.
Outro dia na farmácia, não havia fila.
Sem abelhudo a espreitar-nos, quis a opinião dos balconistas. Prontamente responderam,
ou se aceita ou aceita-se a escala. Afinal, o importante é trabalhar com
registro, tirar folga uma vez por semana e continuar na folha.
Não fui franco, tinha ido comprar calmante.
Caso a insônia viesse do nada, afinal
escrevo a crônica pela manhã, eu me preocuparia. Como sei o que se passa comigo
quando estresso, e não busco o horror de me assistir pilhado, precisava dormir.
A sentir que alguma ânsia estava vindo apenas
para me desajustar ou dar nojinho na hora de escrever, tomei duas pílulas.
Dopado, dormi a noite inteira. Já que
não me sufoquei em pesadelo, acordei quando o corpo quis.
Sinto que sou carne, materializo a
energia que os átomos liberam. Energizado, vou escrever, eu quero e preciso
fazê-lo.
Tento, mas desando a viajar pelo cosmos.
Não ligo a TV, vou ouvir pessoas. Não
vou pagar boleto, prefiro me esquecer dos atrasos. Faço o que é bom pra
destravar, entro na fila da farmácia. Novamente nesta fila, peço o meu
ansiolítico favorito.
Mas vesti a calça errada, sem cinto.
Uma vez que estou seguro de que não
quero dar vexame, a seco, engulo um antipsicótico porreta.
Rodrigues
da Silveira
Ibiúna, dia 14 de novembro de 2024.
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