quinta-feira, 14 de novembro de 2024

Maluquete

 

Maluquete

 

Como preparativo à escrita da crônica, ainda que em mim houvesse somente o interesse de especular quais as qualidades requeridas a um candidato, a boa-fé de quem confia na pujança da nossa economia me fez telefonar a quem contrata para as Festas.

Não liguei para que me fossem confidenciados segredos, buscava informações que me estimulassem festivo pro Natal.

Pra ficar convencido de que eu faria a escolha certa, falaram que a parada obrigatória do almoço era de meia hora e meia, avisaram que as oito horas compulsórias teriam a precisa comprovação por registro biométrico digital, advertiram que a compostura incluía ser sorridente, despir-se de adereços espalhafatosos e, rigorosamente, nunca usar o celular durante o serviço.

Se eu aceitaria? É claro, que não!

Se tivesse que confessar qual o fundo real da minha ligação, teriam de ter notado o engodo sobre engordar assanhadamente meu holerite com duas horas inegociáveis a mais por dia, posto que sou frouxo para arregar antes mesmo de conformar-me ao padrão do bom trabalhador que se adéqua, sensatamente, às circunstâncias.

Escrevendo, nego-me turrão, sou malemolente. Escrevo, e trato de me desconcentrar da escrita, a vida me flexibiliza.

De domingo a domingo, pelos sete dias da semana, mesmo quando não escrevo, estou projetando o que deixei de ter escrito.

No fundo da cachola, há ostras que engendram palavras que soam pertinentes, mas bem posso refutá-las, pois não me reputo caçador de pérolas. Aliás, dama de fino trato, eu fujo das deselegâncias. A bem da verdade, prefiro a cara limpa, o colo limpo e lentes espelhadas.

Outro dia na farmácia, não havia fila. Sem abelhudo a espreitar-nos, quis a opinião dos balconistas. Prontamente responderam, ou se aceita ou aceita-se a escala. Afinal, o importante é trabalhar com registro, tirar folga uma vez por semana e continuar na folha.

Não fui franco, tinha ido comprar calmante.

Caso a insônia viesse do nada, afinal escrevo a crônica pela manhã, eu me preocuparia. Como sei o que se passa comigo quando estresso, e não busco o horror de me assistir pilhado, precisava dormir.

A sentir que alguma ânsia estava vindo apenas para me desajustar ou dar nojinho na hora de escrever, tomei duas pílulas.

Dopado, dormi a noite inteira. Já que não me sufoquei em pesadelo, acordei quando o corpo quis.

Sinto que sou carne, materializo a energia que os átomos liberam. Energizado, vou escrever, eu quero e preciso fazê-lo.

Tento, mas desando a viajar pelo cosmos.

Não ligo a TV, vou ouvir pessoas. Não vou pagar boleto, prefiro me esquecer dos atrasos. Faço o que é bom pra destravar, entro na fila da farmácia. Novamente nesta fila, peço o meu ansiolítico favorito.

Mas vesti a calça errada, sem cinto.

Uma vez que estou seguro de que não quero dar vexame, a seco, engulo um antipsicótico porreta.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 14 de novembro de 2024.

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