O
mágico da vitrine
Sem delongas, fui como estava ― descalço,
o torso nu, sem óculos. Suando, esbaforido e com o dedão do pé direito
latejando pela topada na base da lixeira, eu cheguei assim.
Desde que o aviso da notificação soou à
meia-noite em ponto, ficou bem difícil manter a calma ― ir à esquina foi mais fácil.
Queria me ver na esquina. Queria muito
que eu estivesse lá? Queria que isso desse certo, mas não me deparei com
ninguém.
Até queria que fosse eu no reflexo que
chamou minha atenção, mas não vagueio descalço por aí porque é imundo o chão do
mundo. Queria acreditar que tinha saído desnudo, mas temo qualquer ventinho,
ainda mais o da madrugada, gelado. E quis muito, muito, muitíssimo, que não tivesse
chutado a lixeira, mas fui eu quem chutou aquela bendita.
Ser tirado do sono por pedido de
confirmação de despesa feita com cartão de crédito é despertar o zuretinha que adora
assediar-me com ansiedades que nem reconheço como sendo minhas.
Tenho isso de dar passagem a quem me faz
atônito, bastantíssimo eufórico, assim perplexo, um camarada complexado.
Estou nas mãos de um inimigo que vem brincar
comigo quando nem acho divertido brincar com estranhos, porque nem sei se vai
sair coelho da minha cachola.
Assim como coelhos têm facilidade para a
multiplicação de coelhos, assim estou prenhe de gente desconhecida.
Gente que pode ou não ganhar o mundo, uma
vez que não me acho isento, ou lúcido, pra escondê-la, ou reproduzi-la, em mim.
Não que me veja assoreado em legião,
porque isso de ser multidão tem a cara de Bob Dylan ou, antes, Walt Whitman.
Às vezes, espio pelo buraco, porque eu acho
que a memória é uma porta, cuja chave não creio saber usá-la com sensatez.
Ó insensatez... Topo reivindicá-la
quando me convém.
E sinto que tem razão quem percebe que
não tenho facilidade para escrever. Percebo que tenho dificuldade para me
concentrar. Acredito que meus fantasmas acham engraçado que eu pare, pense em desistir
ou vá atrás de encrenca.
Encrenqueiros são fantasmas que me fazem
crer que preciso correr com eles, então, riem. Eles não riem de mim, fazem que
eu ria. E a sua malícia é fazer de mim esse fantasma que desejam que eu seja?
Caraca! Sou vocês.
Não, eles não querem que me ache um
deles. Basta que aja como agem, pense feito mais um deles, que, mesmo
envergonhado, eu tome pulso do opróbrio e ria desbragadamente.
Desarvorado, eu rio.
Sou o fantasma que ri quando nem tenho
que rir. Quando a lucidez indica que não me manifeste por nada, passo a rir.
Como sempre, foto em tempo, sou o fantasma que não agita o caldo, eu rio.
Fantasma cuja memória exuma um fedor conhecido, revolvendo o fundo, fica rindo. Até me acho fantasiado de homem invisível, rindo.
Feito gente que ergue ponte, viaduto ou
passarelas, posso escrever o que preciso, porque é o meu ofício.
Mas ai, Manuel Bandeira, não sou
andorinha à toa.
Rodrigues
da Silveira
Ibiúna, dia 19 de novembro de 2024.
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