terça-feira, 19 de novembro de 2024

O mágico da vitrine

 

O mágico da vitrine

 

Sem delongas, fui como estava ― descalço, o torso nu, sem óculos. Suando, esbaforido e com o dedão do pé direito latejando pela topada na base da lixeira, eu cheguei assim.

Desde que o aviso da notificação soou à meia-noite em ponto, ficou bem difícil manter a calma ― ir à esquina foi mais fácil.

Queria me ver na esquina. Queria muito que eu estivesse lá? Queria que isso desse certo, mas não me deparei com ninguém.

Até queria que fosse eu no reflexo que chamou minha atenção, mas não vagueio descalço por aí porque é imundo o chão do mundo. Queria acreditar que tinha saído desnudo, mas temo qualquer ventinho, ainda mais o da madrugada, gelado. E quis muito, muito, muitíssimo, que não tivesse chutado a lixeira, mas fui eu quem chutou aquela bendita.

Ser tirado do sono por pedido de confirmação de despesa feita com cartão de crédito é despertar o zuretinha que adora assediar-me com ansiedades que nem reconheço como sendo minhas.

Tenho isso de dar passagem a quem me faz atônito, bastantíssimo eufórico, assim perplexo, um camarada complexado.

Estou nas mãos de um inimigo que vem brincar comigo quando nem acho divertido brincar com estranhos, porque nem sei se vai sair coelho da minha cachola.

Assim como coelhos têm facilidade para a multiplicação de coelhos, assim estou prenhe de gente desconhecida.

Gente que pode ou não ganhar o mundo, uma vez que não me acho isento, ou lúcido, pra escondê-la, ou reproduzi-la, em mim.

Não que me veja assoreado em legião, porque isso de ser multidão tem a cara de Bob Dylan ou, antes, Walt Whitman.

Às vezes, espio pelo buraco, porque eu acho que a memória é uma porta, cuja chave não creio saber usá-la com sensatez.

Ó insensatez... Topo reivindicá-la quando me convém.

E sinto que tem razão quem percebe que não tenho facilidade para escrever. Percebo que tenho dificuldade para me concentrar. Acredito que meus fantasmas acham engraçado que eu pare, pense em desistir ou vá atrás de encrenca.

Encrenqueiros são fantasmas que me fazem crer que preciso correr com eles, então, riem. Eles não riem de mim, fazem que eu ria. E a sua malícia é fazer de mim esse fantasma que desejam que eu seja?

Caraca! Sou vocês.

Não, eles não querem que me ache um deles. Basta que aja como agem, pense feito mais um deles, que, mesmo envergonhado, eu tome pulso do opróbrio e ria desbragadamente.

Desarvorado, eu rio.

Sou o fantasma que ri quando nem tenho que rir. Quando a lucidez indica que não me manifeste por nada, passo a rir. Como sempre, foto em tempo, sou o fantasma que não agita o caldo, eu rio. Fantasma cuja memória exuma um fedor conhecido, revolvendo o fundo, fica rindo. Até me acho fantasiado de homem invisível, rindo.

Feito gente que ergue ponte, viaduto ou passarelas, posso escrever o que preciso, porque é o meu ofício.

Mas ai, Manuel Bandeira, não sou andorinha à toa.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 19 de novembro de 2024.

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