Quando
o estranhamento faz cócegas, Francisca, costumo sorrir.
Mal
tendo aberto a porta, a brisa da madrugada entrou por entre a folha aberta e mim.
Uma vez que nenhuma folhagem tenha acusado a passagem do vento, me arrepiei.
Mas achei que fosse bobagem minha, pois olhei, olhei e eu nada vi de diferente.
Achei esquisito o sentimento, pois a orquídea continuava bela e a samambaia, verdinha.
Mas quando o bafo quente lambeu a minha nuca, fechei a porta.
Não
olhei pra trás, Francisca, porque eu sei o que acontece quando a gente olha pra
onde não devia ter olhado. Não sou covarde, mas sei qual é meu gatilho.
Certamente eu pensaria besteira, inventaria que a minha força está na
resistência. Que eu resistiria a mim mesmo, sendo isso tão somente mais uma das
minhas ilusões.
Sou
vaidoso, tanto quanto fico decepcionado com você, que não diz nada. Mesmo eu
provocando, nada.
Francisca,
onde seus modos foram parar? Diga alguma coisa. Nem que seja pra dizer que
estou falando besteira, agindo feito bobo, que o que passou entre a folha da
porta e mim foi nada, um nada que desejo tenha presença, que essa manifestação
seja sentida como algo real e que seja a causa da minha desconfiança, que o
invisível existe porque eu não o vejo, sentindo-o, que isso é coisa besta.
Francisca,
não precisa falar que estou com medo, porque realmente estou com medo. Você
precisa dizer qualquer coisa, diga que eu estou feio, que minhas roupas estão
amarfanhadas, manchadas, que eu visto GG em vez de estar usando M. Fale.
Faça-me
o esforço, Francisca.
Devo
chegar mais perto da janela? Falta luz para que você veja que estou horroroso?
Devo acender a luz? Devo sentar, cruzar as pernas? Devo fumar um charuto?
Não
sei se já te contei, Francisca, mas teve aquela ocasião quando descobri a caixa
de charutos dentro do guarda-roupa. Entrei no quarto dos meus pais, peguei um
charuto. Como eu não sabia fumar, baforei, fui baforando até que resolvi
tragá-lo. O tanque subiu mas o chão parou a minha queda, e o inferno continuou lá
no lugar dele.
Francisca,
eu não era mais criança, eu tinha onze anos.
A
sorte foi que precisaram dar pontos na minha testa, e foi isso que me salvou da
sova que levaria se tudo estivesse bem. Com o coice que eu levei, faz cinquenta
anos, quatro meses e treze dias que peguei nojo do cheiro de charuto,
Francisca.
A
cicatriz que continua na testa serve pra lembrar o que a gente fez, os danos causados
e que precisa prosseguir fazendo reparo.
Pra
que serve a cabeça? A caixa craniana protege o cérebro. Com ele protegido, a
mente fantasia, diz o que a pessoa pode fazer mesmo se pondo em risco.
Sei
que sou arisco, mas lembra o Gutierres? O que tinha o cachorro que latia pro
rebanho, lembra? Achava uma sombra, cochilava? Nunca te contei que o Gutierres
amava cabras?
Caraca,
Chica!
Com
o Gutierres aqui, bem aqui, não acho graça rir.
Rodrigues da Silveira
Ibiúna,
dia 17 de novembro de 2024.
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