domingo, 24 de novembro de 2024

Círculo no círculo

 

Círculo no círculo

 

Para enfermidades, panaceia cura todas. Pros problemas de difícil solução, descascá-los feito cebola. Pra quem reclama de tudo, ouvidos moucos não bastam, é preciso ensurdecer-se a um tom abaixo.

Como talvez mimimi e rififi guardem certa parecença, se eu não me desejo a lacrimejar sobre cebola descascada, mantenho afiado o fio da faca, ou lamentar-me-ei do quão displicente eu possa ser.

Pois pois, melindrado pelo que penso, estou a um passo do pânico, pois o que vem à tona é uma beleza de mal-estar, pois imagino, afinado a Dali e Buñuel, o fio da navalha em qualquer olho que seja meu.

Olho é carne míope que tanto me cega frente aos fatos da vida; olho é costume torpe de entorpecer-me com a realidade do mundo.

Sigo olhando até me persuadir de que a tontura que sinto advém da proximidade extrema, radicalmente íntima que me distancia de mim, a zombar que sou lunático, fanático, um miasma fantasmático.

Fantasio que estou na rua. Olho pela janela. Vejo-me no sofá. Entro cachola adentro. Penetro onde o silêncio acalanta, ronrona e unha com o instinto à flor da pele. Sou aquele que é. Sonso ou chucro, sou eu.

Há quem manda e há quem obedece.

Como não pretendo mostrar o quão ingênuo costumo ser, acho que a pessoa que não enrola e a pessoa que ouve bem estejam obrigadas a uma convivência psicologicamente correta, qual seja, com o homem que ganha a vida cumprindo ordem sustentando o poder da palavra do homem que não usa crachá na lapela.

Segundo a ordem providencial dos fatos relatados, há diálogo:

― Esta cadeira tem que ser tirada da minha frente.

Cinco minutos depois, o diálogo que é possível:

― Não mandei sumir com a cadeira?

― Mas, doutor, a cadeira está às minhas costas.

Não apenas os galhofeiros, Brás Cubas, também assentam em mim os tons melancólicos, pois então, a prosa bem poderia ser diversa, com o subalterno de todos a dizer:

― Chefe, o chefão pediu que viesse avisar que ele está esperando o senhor lá na sala dele.

― Já já eu vou.

― Mas o chefão mandou que seja agora.

― Relaxe. Venha à janela, amigo, vamos fumar sem pressa. Fumar acalma. Mesmo que a gente saiba que não vamos aliviar a carga sobre os nossos ombros, venha fumar.

― Chefe, o senhor desculpe, mas eu não fumo. Se o senhor permite a intromissão na sua vida, o senhor deveria parar, pois fumar faz muito mal ao pulmão.

― Você tem pulmões fortes, comigo não tem jeito. Viciado em soltar a fumaça na fuça de quem zune na minha orelha, peguei desse prazer de defumar só por defumar.

Depois de soprar fumaça sobre os olhos do outro sujeito:

― Um cigarro é menos tóxico que a lenga-lenga de quem torra tudo engolindo toneis de chope que nem água.

― Chefe, chefe, meu bom chefinho, você me perdoe, mas eu parei de beber quando eu casei.

― Por verdadeiro apego à sobriedade, o meu guru está casado pela sétima vez nos últimos oito anos... Abençoado seja!

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 24 de novembro de 2024.

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