Círculo
no círculo
Para enfermidades, panaceia cura todas.
Pros problemas de difícil solução, descascá-los feito cebola. Pra quem reclama
de tudo, ouvidos moucos não bastam, é preciso ensurdecer-se a um tom abaixo.
Como talvez mimimi e rififi guardem certa
parecença, se eu não me desejo a lacrimejar sobre cebola descascada, mantenho afiado
o fio da faca, ou lamentar-me-ei do quão displicente eu possa ser.
Pois pois, melindrado pelo que penso,
estou a um passo do pânico, pois o que vem à tona é uma beleza de mal-estar,
pois imagino, afinado a Dali e Buñuel, o fio da navalha em qualquer olho que
seja meu.
Olho é carne míope que tanto me cega
frente aos fatos da vida; olho é costume torpe de entorpecer-me com a realidade
do mundo.
Sigo olhando até me persuadir de que a
tontura que sinto advém da proximidade extrema, radicalmente íntima que me
distancia de mim, a zombar que sou lunático, fanático, um miasma fantasmático.
Fantasio que estou na rua. Olho pela
janela. Vejo-me no sofá. Entro cachola adentro. Penetro onde o silêncio
acalanta, ronrona e unha com o instinto à flor da pele. Sou aquele que é. Sonso
ou chucro, sou eu.
Há quem manda e há quem obedece.
Como não pretendo mostrar o quão ingênuo
costumo ser, acho que a pessoa que não enrola e a pessoa que ouve bem estejam
obrigadas a uma convivência psicologicamente correta, qual seja, com o homem
que ganha a vida cumprindo ordem sustentando o poder da palavra do homem que
não usa crachá na lapela.
Segundo a ordem providencial dos fatos
relatados, há diálogo:
― Esta cadeira tem que ser tirada da
minha frente.
Cinco minutos depois, o diálogo que é
possível:
― Não mandei sumir com a cadeira?
― Mas, doutor, a cadeira está às minhas
costas.
Não apenas os galhofeiros, Brás Cubas,
também assentam em mim os tons melancólicos, pois então, a prosa bem poderia
ser diversa, com o subalterno de todos a dizer:
― Chefe, o chefão pediu que viesse
avisar que ele está esperando o senhor lá na sala dele.
― Já já eu vou.
― Mas o chefão mandou que seja agora.
― Relaxe. Venha à janela, amigo, vamos
fumar sem pressa. Fumar acalma. Mesmo que a gente saiba que não vamos aliviar a
carga sobre os nossos ombros, venha fumar.
― Chefe, o senhor desculpe, mas eu não
fumo. Se o senhor permite a intromissão na sua vida, o senhor deveria parar, pois
fumar faz muito mal ao pulmão.
― Você tem pulmões fortes, comigo não
tem jeito. Viciado em soltar a fumaça na fuça de quem zune na minha orelha, peguei
desse prazer de defumar só por defumar.
Depois de soprar fumaça sobre os olhos do
outro sujeito:
― Um cigarro é menos tóxico que a
lenga-lenga de quem torra tudo engolindo toneis de chope que nem água.
― Chefe, chefe, meu bom chefinho, você
me perdoe, mas eu parei de beber quando eu casei.
― Por verdadeiro apego à sobriedade, o meu
guru está casado pela sétima vez nos últimos oito anos... Abençoado seja!
Rodrigues
da Silveira
Ibiúna, dia 24 de novembro de 2024.
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