quinta-feira, 21 de novembro de 2024

Cuca que caiu!

 

Cuca que caiu!

 

Olha, é só pela consideração que eu gargalho sem remorso, já que, nem que magoe nem que embrabeça, a gente pode rir, irmã.

Porque adorei o seu olhar de piranha quando tem sangue na água, fiquei rindo de você estatelada.

Achei lindo de ver, pois fiz questão de não camuflar o quanto eu me divertia. Pelo ódio no seu olhar, ri que foi uma coisa louca; minha risada foi tão sacana, pois você me convenceu do ridículo.

Irmã, não tomasse um tombaço impossível de não fazer rir, que até chorei de tanto rir. Pena que a figura pagando mico não tenha sido eu, mas você tem esse dom, de fazer a gente embarcar na sua, e cair no ridículo também. De tanto rir, sua danada, eu me mijei toda.

Ademais, sendo sangue do meu sangue, foi hilário, tremendamente ridículo. Sei que fiz o papelão de rir feito maluca até ficar toda mijada, mas rir desse jeito foi o meu modo de mostrar o quanto sei ser solidária, maninha, ainda mais que o roxo na bunda seria todo, todinho seu.

Sua ridícula, se não estivesse tão trêbada, eu nem levantaria a lebre de que é besteira o que tanta gente diz, que irmão tem que ser solidário com irmão, mesmo que o irmão seja irmã trançando as pernas.

É embriagante gargalhar que nem gente pancada, só que é ridículo perder o controle, tanto que até a bexiga se descontrola.

Como você e eu sabemos, é conversa mole esse negócio de aceitar a natureza pelo que é dito que ela seja: o elo a nos identificar próximas, unidas, confundidas.

Uma na outra sobrepostas?

Nós duas sabemos que entre a gente não rola essa coisa de união pelo amor, pois somos intransigentes uma com a outra. Somos do tipo de pessoa que não mata nem rouba porque fomos criadas para mentir sobre o que realmente seja relevante.

Ter a responsabilidade de motivar as pessoas a fazerem algo pela gente, isso é fundamental, isso é que tem de ser incentivado acima de tudo, acima de todos.

O resto é pipoca que não estoura? Nem panela nós somos.

Maninha, ambas sabemos que o papinho de honrar pai e mãe não nos mobiliza. É ridículo pensar que poderíamos fugir de barata, isso é vulgaridade boçal. Uma vez que não gritamos nem fugimos, queremos chinelada que resolva de vez.

Desde mocinhas, amamos papai e mamãe. Meninas, aprendemos que amar o pai e a mãe é dever da prole. Você e eu, tivemos que saber que, para todo o sempre, nosso lugar de família é dar ao mundo a aura do nosso veio aurífero.

Fomos treinadas a tomar chinelada sem chorar, e tínhamos o dever de dar vazão à cólera pelo olhar de gente enfurecida.

Mas o inferno está cheio de barata que morre achando que é sábio assediar o justo que a esmague, que é justo o sensato que a esmague de maneira fulminante, que o certo é matar com a dignidade de não ter sangue de barata, porque, segundo a sanha do pai e da mãe, a gosma asquerosa da bichinha nem é sangue, sendo linfa.

Cuca que caiu! ― tão tão cartesianas, provaríamos desse fruto.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 21 de novembro de 2024.

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