Belo
exemplo
Logo cedo, eu cedo logo.
Pelo que alcanço sentir, ao sangrar a
língua ao morder o pãozinho, terei um dia em que os esforços para não decepcionar
as pessoas, mal começada a manhã, doerão em mim como essa língua mordida.
Fecho a cara? Abro um sorriso.
Pondo em evidência a vanidade de não me
apresentar pusilânime, posto que quero ir trabalhar convicto da necessidade de comportar-me
equilibrado, pressinto que faltarei à impassibilidade que me confirmaria o
quanto sou essa alma racional.
Cruzo os dedos? Franze-me a testa.
Tão excitado pela parte exitosa de meus
atos, como sujeito que mal se disfarça em aparentar a inteligência que o leve a
retroceder de todo dissenso, projetarei, sereno e cônscio da minha serenidade,
a imagem que será lida como o melhor dessa pessoa que eu sou.
Pigarreio? Pigarreio.
Sendo quem pensa quem sou, telefono,
aviso que, por força de uma enxaqueca de fundo insondavelmente obscuro, quedarei
na cama pelo dia todo, assim indisponível a e-mails, torpedos e áudios do zap.
Faço figa? Desligo.
Na cama comigo, Marx lambe meu rosto.
Ele olha, noto até que me encara. Ainda bem que tenho um cão, porque preciso
trocar sua água, pôr ração na tigelinha, fazê-lo checar o muro do quintal.
Faz sol, mas o ar está frio. O app
aponta, faz oito graus.
O joão-de-barro do abacateiro cantou quando
ainda estava escuro, que ele cantou sim, que eu gostei de ouvi-lo.
Os bem-te-vis vieram conversando,
passaram, foram conversando; como gostei de tê-los escutado, já o dia
amanhecido.
E não faço mais nada? Faço.
Lavo roupa. Penduro as meias, cuecas e
camisetas. A bermuda do corpo, mesmo encardida de tê-la no batidão da semana,
quero usá-la por mais um dia. Por mais este dia, vou me sujar um pouco mais.
Ajoelho-me na terra.
No quintal atrás de casa, uso uma
espátula para cavar um buraco. Cavo, que ele não fique raso. Nele eu jogo duas
sementes de girassol. Cavo outro, outro e mais um, cavo uma fieirinha de buracos
que sejam fundo o bastante pro que penso conveniente às sementes.
Sei o que faço? Faço.
Cuidarei que elas germinem, cresçam,
floresçam, atraiam abelhas, joaninhas, tragam ao quintal todo e qualquer inseto
que precise do que girassóis têm a oferecer.
Se eu sei o que girassóis têm? São
bonitos. Quero vê-los crescidos, adultos, e belos, belíssimos.
Todavia... Ô vida!
Será que vai chover no sábado? Diz a
previsão que o domingo será chuvoso. Porque choverá, choverei. Virarei coruja,
piarei ao arrepio de ter que encarar sozinho o que houver para ser feito em
casa.
Abrirei a porta? Apanharei os jornais.
E serei informado do próximo jogo, da
próxima esperança, da futura assombração, e terei medo da fatura a ser paga.
Haverão de lembrar-me da carestia, do
desemprego, dos sem-teto, dos sem-terra, das queimadas, e terei medo da fuligem
no limoeiro.
Marx dá a pata? Dou-lhe a outra face.
Rodrigues
da Silveira
Ibiúna, dia 29 de agosto de 2024.