quinta-feira, 30 de novembro de 2023

O atontado

 

O atontado

 

Feito artefato explosivo, o canto do joão-de-barro detonou em mim um deslocamento abrupto de consciência: vivo entre fricções, pois as belezuras do mundo entortam o rebolado do cronista que faz de conta que não o deslumbra sambar sem os pés.

Nessa soalheira manhã, mais pacato do que pateta, eu descia a rua de casa quando o joão-de-barro implodiu-me em dois: o pedestre com um bolo nas mãos; o embevecido que mal disfarçou o enlevamento.

Ainda que o ninho com morango pesasse dois quilos e quatrocentos gramas ꟷ de acordo com o comprovante fiscal que me foi ofertado na doçaria ꟷ, busquei o cantor nas palmeiras e primaveras.

Conquanto o céu estivesse ensolarado, foi preciso que o pequenito cantasse de novo para que o avistasse no cimo de uma arvoreta, cujas raízes caminharam calçada adentro.

Como braços têm limite e porque eu não colocaria a embalagem no chão, alegrou-me não ter o celular comigo. Sem recursos artificiais: os olhos míopes captaram a figura do passarinho; no avesso da algazarra urbana, aquele canto humanizou-me pelos tímpanos.

Já em casa, com o bolo na mesa, pus-me à espera de que viessem os meus familiares mais próximos, e tão somente eles.

Embora me tornasse sexagenário naquele dia, não me percebi mais cansado ou triste; não me sentia de alguma maneira mais desmedido, a fim de revelar intimidades a qualquer um; não passaria a mentir mais que o habitual; as minhas banalidades não seriam menos melancólicas nem as minhas felicidades, mais arrebatadoras.

Sem referendar o óbvio, daria a primeira fatia à pessoa mais amada de todos à mesa.

Uma vez que acredito que a transparência revela o quão complexa é a realidade, eu minto para conhecer melhor as pessoas.

No último dia do mês, narro os eventos que aconteceram há quatro semanas e você não se questiona, aceita que aquela manhã foi mesmo ensolarada, havia um joão-de-barro na palmeira e eu estava alegre por completar mais um ano de vida.

Em paz consigo por assegurar-se das minhas palavras, verdadeiras e autênticas, você não duvida que uma picape tenha passado tocando uma valsa vienense, embora visualizasse a voz da Anitta.

Nem Anitta nem Strauss, apenas algumas memórias a compor-me um escrevinhador de verdade, um legítimo inventor de verdades.

Se você me lê pelo crédito que lhe ofereço, ouça o vento bafejando palmeiras e primaveras, saboreie o bolo, brinde com refrigerante e siga surdo aos flibusteiros que se negam a um mundo melhor.

Efetivamente! Melhora-me muito querer melhorar o mundo.

Pelas circunstâncias da virtude, é válido dizer o quão sinceras são as palavras que não digo ꟷ embora não as diga, eu sugiro dizê-las.

Como não sou mentiroso à toa nem me obrigo a desmentidos, estou certo de que só um tonto não sabe que um Jean Cocteau não diria: “Eu sou, antes, uma mentira. Uma mentira que diz sempre a verdade”.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 30 de novembro de 2023.

terça-feira, 28 de novembro de 2023

Mente educada

 

Mente educada

 

Educadamente, a educada cumprimentou o educado.

Educadamente, ambos estacionaram os carrinhos de maneira que não atravancassem a passagem das demais pessoas, que passavam empurrando educadamente os seus carrinhos.

Educadamente, a educada pediu novidades ao educado.

Educadamente, o educado disse à educada que não tinha novidade alguma para compartilhar. O educado, educadamente, não as solicitou em recíproca à educada, porque os seus bons modos eram realmente de gente educada, pois eram modos oriundos do seio familiar, modos devedores ao pai e à mãe, pessoas sempre tão inspiradoras.

Educadamente, a educada entendeu que poderia mudar o rumo do diálogo. A educada falou que, no seu quarto, foi instalado um aparelho de ar-condicionado, cujos mecanismos, embora fossem potentes, não produziam tanto barulho.

Educadamente, o educado felicitou-a, que fizera o certo ao instalar um condicionador de ar, porque as temperaturas têm custado a baixar mesmo à noite, afetando negativamente o descanso do corpo.

Educadamente, a educada demandou a vênia para prosseguir em sua jornada, que era comprar os itens constantes na lista. A educada, precisamente por ser educada, para não melindrar o educado, ela nada falou do que tanto trazia listado numa tira de papel.

Educadamente, o educado cedeu à educada a licença e solicitou-a também para si, porque também viera às compras, embora sua compra estivesse ao sabor dos olhos, uma vez que era naturalmente impulsivo, era pessoa sujeita aos anseios de momento.

A educada e o educado despediram-se educadamente, para um 'até mais ver' de uma rotina educadamente convergente, pois só ao futuro cabe dizer quando haverá de calhar outro encontro.

A educada dirigiu-se para o setor de grãos, uma vez que faltavam na despensa arroz, ervilha, feijão e lentilha.

O educado dirigiu-se à geladeira de congelados, pois, obviamente, repunham lasanha, escondidinho e estrogonofe de frango.

A educada cumprimentou outra educada, e ambas falaram do calor e das tempestades. A educada declinou de expressar o temor, de que gente impulsiva costuma comprar o que nem tem necessidade, apenas para satisfazer desejos que desconhecem satisfação.

A outra educada despediu-se da educada porque tinha que terminar logo a compra, afinal era ela que preparava o almoço da família e todos estariam à mesa ao meio-dia em ponto.

Na fila da carne, a educada e o educado retomaram a conversa.

A educada estava sensivelmente impressionada, até surpresa, com tantos carrinhos que iam e vinham lotados, mostrando que a saúde da economia ia indo bem.

Educadamente, o educado concordou com a educada, pois o país parecia ter recuperado o fôlego, ter saído da depressão e estar dando oportunidades a tanta gente.

Em virtude das circunstâncias, é educado não discordar.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 28 de novembro de 2023.

 

domingo, 26 de novembro de 2023

Viva!

 

Viva!

 

Tempo, tempo, mesmo que não entenda muito do que faço, mesmo que chegue a desconfiar da relevância do que tenho feito, sigo disposto a entender a realidade e a entender-me com a sua realidade, tempo.

Mas, precisa apressar o passo? Se não me permite, eu me permito: preciso desacelerar um tanto.

Desacelero, para respirar; para tirar a pressão, preciso andar; quero andar sem exigir de mim o que me exaure, esgota e idiotiza.

Tempo, não me engano, sei que às vezes ajo feito idiota, mas o que me exaspera é manter o passo para não perder tempo.

Quero perder tempo, e vou perdê-lo o quanto eu queira.

Compreendo, preciso seguir atento, ou a corrente afogar-me-á. Os acontecimentos atropelam, abalroam, fazem adernar, passam rasteira, e eu naufrago, me afogo, morro na praia e engulo areia, saliva e ar.

Para que a mente não se perca, é importante manter-se informado. Navegando no oceano de informações, é fundamental fazer perguntas e encontrar respostas que não confundam. Se as respostas estão além de alguns cliques, primordial é não se entontecer com a barafunda dos acontecimentos.

Será que os devaneios não puxam a corda que torna difícil respirar, mantêm a asfixia que desatina e enforcam quando não se observa que o ar já anda tóxico à pessoa abilolada?

Apatetado, o juízo nem percebe a lucidez da sujeição. No mar dos fatos, entre surfar e navegar, entre mergulhar e boiar: não transformar as mágoas em âncora.

Essencial é pensar o que seja relevante, prioritário, indispensável.

O que parece enovelado é o fio da meada; e pelo pouco que esteja embaraçado, o fio embaça, filtra o olhar pela névoa, e segue impedindo que, entre os acontecimentos, seja percebido um nexo.

E a realidade diz que: o raio cósmico Amaterasu fritou os sensores do Telescópio Array; as duas tangerinas da senhora Vilma Nascimento foram obrigadas à exposição no aeroporto; o chapéu de Napoleão foi leiloado por dez milhões de reais.

O rio de eventos segue em frente; eu sobrevivo à margem.

Não abocanho as palavras. Mastigo pão e bife. Engulo água e leite. Dou-me por satisfeito ao alimentar-me da ração diária do que preciso e do que nem imagino que me seja importante, relevante ou um bocado revigorante.

O meu consumo de notícias inclui chuvaradas no Sul, greve em SP e aquelas filas pro maior espetáculo da hora, agora sob chuva.

Concluo: os 40 mil pints de Guinness, arrecadados por vaquinha on line, são um presentão para um brasileiro, o entregador de comida Caio Benício, que derrubou com capacetadas um criminoso que esfaqueava crianças à saída de uma creche em Dublin.

Pra arredondar a conta: à base de quatro copões irlandeses por dia, só depois de vinte e sete anos que os 22.720 litros serão zerados.

Como o mundo não para de parir fatos atrás de fatos, paro e penso, encontro esse respiro: ler é aprender a desafogar-se das mágoas.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 26 de novembro de 2023.

quinta-feira, 23 de novembro de 2023

Ou seja

 

Ou seja

 

Ontem você passou e me viu, mas, com pressa, provavelmente indo almoçar, você sequer me acenou.

Hoje você tornou a me achar na esquina. Como devia ter almoçado, pessoa simpática que sabe ser, você possivelmente pretendia inteirar-se do que estava acontecendo comigo.

Coube-me a descortesia de franzir a testa ao grunhir que estava pra poucos amigos, e você, pessoa amiga que não contava comigo assim, troglodita encarnado, você reagiu, que eu fosse pro inferno.

Já estava lá.

Sem disposição para comentar o que se havia passado comigo, eu voltei atrás, despi-me do camarada odiento.

Gosto de queijo minas. Gosto de goiabada. Gostar disso e daquilo não acarreta que eu goste de Romeu e Julieta, embora eu goste.

Eu como queijo quando quero, independentemente de que me seja oferecida goiabada. Me chateia quem me rotula apreciador de Romeu e Julieta apenas porque gosto de queijo e goiabada. Posso muito bem gostar separadamente.

Gosto da noite. Gosto mais ainda da noite de sexta. Também gosto de pizza. Mas eu gosto tanto de pizza que a como quando quero, pode ser na noite de sexta ou no almoço da quarta, ou seja, no instante em que me dá vontade de papar uma muçarela com guaraná.

Cuido eu das minhas vontades, poxa.

Você poderia ter ido em frente. No entanto, parou. No entanto, ouviu as minhas miudezas. Contudo, soube ser inútil a alguém inutilizado por ideiazinhas subjetivamente, individualmente minúsculas, de boboca.

Continuei mesquinho, subjetivo, um indivíduo de mal consigo e com os demais. Continuei travado. Sequer formulei a questão:

Que sei eu da máquina psíquica que me põe ranzinza?

Você deu-me as costas. Soube ir cuidar da vida, da sua vida, pois da minha, ao saber-me um babaquara, sequer da minha vida eu estava em condições de cuidar.

Sei que vivo apegado ao dia a dia, que vivo pautado pelos afazeres de cada dia, que eu sou muito útil quando o mundo me considera capaz de resolver problemas. Útil, porém, quando me entrego.

Todavia na esquina ontem e hoje e amanhã também, pelo jeito que a minha rispidez revela-me hostil, é preciso passar reto, ignorar-me, ir fazer uma aposta, ir tomar um refrigerante, ir sentar na praça, nem que seja tão somente para limpar as sujeirinhas das unhas; ir-se.

Não vou. Não mudo um passo. Eu fico na minha. Deixo a realidade circunscrever-me no mundo da lua, viajando na maionese, vivenciando hipóteses astrais, mergulhado em mim. De todo, um inútil.

É bem gostoso não pegar gosto pela aporrinhação cotidiana, dá pra afagar Argos sem irritar Penélope, dá pra cavalgar Bucéfalo ainda que Alexandre nem saiba disso; e bebericar uma chávena de chá, será que isso também dá?

Ou seja, a sanidade cobra inutilidades: tragam-me goiabada, queijo e guardanapo; tragam pastel, guaraná e mais um guardanapo; depois a conta me será cobrada por comer, beber e rabiscar.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 23 de novembro de 2023.

terça-feira, 21 de novembro de 2023

Noite de temporal

 

Noite de temporal

 

Não é à toa que me lamento, ouvira atentamente o que disse a gente sabida das coisas do tempo: os ventos que viriam vorazes provocariam chuva, lama e busca inflacionada por fósforo e vela.

Pitibiribas!

Da chuva que veio, e pouco importa por que furo de ozônio tenha o temporal evaporado, resta ter errado de lombada em lombada sem que aquela história fosse encontrada.

Aquela história, qual?

Aquela que minha mãe contava quando o mormaço grudava na pele, as roupas encharcavam, pesavam, então, dormir era muito dificultoso, e a história era contada de tal modo que o sono vinha.

Não me lembro dos pormenores, me recordo da maneira como era contada, então, reproduzir com fidelidade não reproduzo, mas sugiro.

“As nuvens passavam. O vento soprava numa altura tal em que só as nuvens podiam senti-lo. Era forte o bastante para apressarem-nas.

“Veio o momento em que havia muitas nuvens àquela altura, então, as nuvens não perderam a pressa com que o vento as tangia, então, o céu ficou nublado, preenchido completamente por nuvens.

“Com o céu atravancado de nuvens, o vento achou caminho abaixo, veio baixando, baixando, até sacudir a copa das árvores, até bulir nos arbustos, até mostrar-se arisco pra bicharada toda.

“As garças recolheram-se. As andorinhas copiaram-nas. Também os pardais, as maritacas, os bem-te-vis. Recolheram-se aos ninhos, as aves todas. Ao menos, a sábia maioria correu recolher-se.

“Lambida pelo vento, a anta abrigou-se.

“Lambido pelo vento, o tatu enfurnou-se.

“Lambidas e lambidos, cada qual fez o que deveria fazer.

“Para cantar o temporal, um sapo não sumiu.

"O tal sapo não se evadiu nem se acovardou porque desejava cantar a maravilha, o esplendor, a beleza terrível que estupefica.

“Quem correu esconder-se mal o vento começou foi o sapo que não sabia cantar, mesmo seus coaxos ele cessou porque não queria que o vento soubesse dele, não queria de jeito nenhum que o vento achasse onde estava.

“Os estrondos de tronco caindo não assustaram o cantor.

“Os repentinos relâmpagos impressionavam, maravilhavam-no.

“O cantor era antes um poeta, era poeta da estirpe dos que cantam a fascinação dos abismos, vinha da linhagem dos poetas que fascinam os abismos, um ser abismado que os abismos invocam para si.

“A coruja que não temia o temporal, não temia o furor do temporal, a tal coruja sequer piscava, sequer piava, sequer se quis seca, todavia ela observou, observou, ela somente se manteve observadora, tão fiel a si no propósito da sua observância que sequer o cantor, a anta e um jacaré que passou despercebido ao lado de um tronco abatido por um raio, ninguém ousou dizê-la à toa no charco.

“Como não era tonta, sonsa, abestalhada, como não era andorinha sequer era anta, quis o corpo da presa rasgado por suas garras e bico, então, o sapo que sabia cantar foi seu pasto.”

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 21 de novembro de 2023.

domingo, 19 de novembro de 2023

Tudo mais

 

Tudo mais

 

Larga o celular. Senta-se. Que leseira é essa? Sua. Fecha os olhos. Que claridade! Treme. Baixa a cabeça sobre as mãos. Pega o telefone. Cadê que não atendem? Tem ânsia. Deita-se. Cadê que não ouvem o telefone? Que desespero!

Quando carece de assistência, está só. No súbito do abandono, sua fragilidade transparece. Medida pelo desamparo, a sua existência está restrita à família e aos amigos. Ninguém sabe que a sua condição beira o trágico. Que uma fatalidade é iminente, não tem dúvida.

Em busca de causas pro estupor, a pessoa pensa, repensa, reflete, e o excesso de luz faz opaco o diamante.

Quando a pedra conhecer-se pela pedrada, calculem o prejuízo.

Quando a cana encarnar-se caninha em pé, embriaguem-se.

Quando a razão for febre que rebenta de repente, gozem.

Pronto! Com as condições de volta aos conformes, quer trabalhar, quer retomar o trabalho, já confiante de que os aborrecimentos ou as interrupções não tornarão a desequilibrar.

Se precisa fechar a janela ou colocar os fones, as circunstâncias do mundo ao seu redor mostram o quão tola é a sua empáfia.

Uma ova que você pode trabalhar porque tem vivências. Não conte como vantajoso o seu otimismo, pois o mundo faz pirraça.

Se os cães não param de latir nem a música sossega a cachola, a realidade não passa vergonha quando desconfia de quem diz desejar tanto que a vida não desande, apesar das piruetas.

Não ria. Cerre as cortinas. Aumente o som. Rebele-se. Mesmo que o mundo diga que os cristais são fajutos, não o deixe estilhaçá-los.

No calor do momento, ainda que a vida anuncie que o pior está por vir, precisamente por lhe faltar preparo, sue e trema, titubeie mas não sucumba, preserve-se das fragilidades, arrisque, encare-se.

Vindo o pior, é humano sentir-se despreparado pros pessimismos.

Embora derrotas ponham amarga a boca, o sal é natural.

Embora sussurros façam apurados os ouvidos, a mentira corre.

Embora mãos trêmulas possam indicar medo, é fraqueza.

De efemeridade em efemeridade, de instabilidade em instabilidade, transitando na selva iluminada por relâmpagos, o pensamento é de que o momento permite ouvir a viola fora do saco, permite morder o pão de ontem, permite irritar-se.

Irrite-se com o carro do cloro, peça pela pamonha.

Fique mais irritado, pense na alegria do aniversariante quando lhe cantam que a data é querida, quando lhe desejam muitos anos de vida, quando lhe felicitam: ra-tim-bum!

Largue o trabalho. Esqueça a serenidade. Vá à janela, escancare-a e grite. Berre que não aguenta mais, o incômodo é demais, a cabeça vai explodir. Ter paciência é para mansos, não pra você.

Com tanta coisa errada na sua vida, que terceiros paguem a conta; se não pagarem, não se desiluda, pois o mundo sonha com você.

Não caia na cilada de sair de casa ao primeiro sinal de fúria, brilhe, assobie aquela canção do Roberto.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 19 de novembro de 2023.

quinta-feira, 16 de novembro de 2023

Sonho realizado

 

Sonho realizado

 

Dona Cremilda pede que eu vá buscar o celular.

ꟷ Que cabeça! Só tenho a lhe agradecer por avisar que o aparelho, logo agora em que o estou usando aqui, está na sua casa, parado.

Imprecando, minha querida amiga desligou.

De jeito nenhum que eu me abateria pelas pessoas estarem de mal com a manhã, de tão bela luz, tão iluminada azul pelo sorrisão do sol, por este sol maravilhosamente primaveril, como rei de fevereiro, astro de carnaval, suor, praia, cerveja e verão ꟷ e bota estaçãozinha arteira, que vem picar no novembro marasmento suas dissonâncias pícaras.

Brindo e celebro, vivas! Brindo com água gelada e celebro sozinho, vivas! Vivas! Viva! Vivo na alegria da solitude, vivas!

Pelo que mostra a manhã de trinta graus, passarei o dia em casa.

Aproveito para ler os e-mails. Hora proveitosa, reduzo o lixo.

Abro as redes. Viajo por ali e volto por aqui. Embora siga ignorado, eu solicito uma entrevista a quem tanto admiro.

Uma vez que a resposta é não receber nenhuma resposta: será por falta de tempo que não terei tal oportunidade? “Tenho medo de andar na rua e, de repente, ser nocauteado.”

A entrevista será virtual e curta. Como fã, não posso colher algumas palavras? “Sei que tem gente que valoriza meu trabalho e tem gente que não entende nada do que eu faço.”

Senhor, fale um pouco da faixa O trenzinho do caipira. “Tem gente que acha que ela é minha; se estou com tempo, explico que não.”

E a ideia de gravar um disco todo com Tom Jobim? “Eu já me sentia perto do céu, de tão feliz.”

E gravar permite aprimorar-se? “Aprendi que trabalhar sob pressão é fundamental. Quando você tem todo o tempo do mundo, você tem todo o tempo do mundo para fazer nada”.

Perdoe-me que insista: trabalhar não o faz melhor? “Sinceramente, não consigo julgar o perfeccionismo como defeito, atraso ou mesmo um tipo de perturbação psicológica. Acho mesmo que o rigor na hora de construir alguma forma de trabalho serve bastante para garantir o nível mais elevado de que o artista seja capaz.”

Qual é o sentimento de chegar aos 80 anos? “Acho que faço o que eu posso, do jeito que quero, isso sim é um grande orgulho.”

Sentir-se orgulhoso é a sua maior vaidade? “Acho que a vida acaba no dia que paramos de respirar. Olhar para a minha história me dá esse sentimento de ter cumprido um plano.”

E você não improvisa? “Não duvido dessa capacidade de pessoas que estão no meio do jantar, ouvem uma melodia, um pedaço de letra e têm que sair correndo. Sinto muito, mas comigo nunca aconteceu. Eu sou um cara que tem que procurar a música.”

Na sua opinião, por que Beatriz é uma obra-prima? “É muito longa, muito lenta, muito lírica.”

Para encerrar, Mestre, e os balés? “Eu adoro ter personagens para os quais vou ter que compor. Isso me motiva, isso me tira da cadeira para sentar no piano e começar a procurar.”

Grato pela oportunidade, #eduemepebista.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 16 de novembro de 2023.

terça-feira, 14 de novembro de 2023

Coração alado

 

Coração alado

 

É humano ter apreensões; sondá-las, também.

Não as compreendo inteiramente. Sofro apagões desconcertantes. Ainda que me resguarde ou tente resguardar-me o tanto que eu possa, atormentam-me miasmas animais, vegetais, minerais e artificiais.

Ainda há pouco, na escuridão da madrugada, uma quentura veio de repente. Percebi que havia algo a direcionar meu interesse. Senti esse espectro no escuro do quarto, no íntimo muito escuro de mim.

Em subterfúgio tão silencioso, restava morta uma barata.

Quis ajuda e fui ajudado. Fiz a leitura até que os olhos informaram: baratas que não se sabem mortas seguem mordendo papéis, plásticos e neurônios.

Diante desse diagnóstico, estou corroído por dentro.

Perturbado em meu ceticismo pelas manifestações, provavelmente, anímicas, me sujeito aos remordimentos morais e meu cérebro aponta como veneno às minhas excitações, o celular.

Há sinapses que indicam a trilha a ser evitada. Farto das teimosias, espero escutar as canções que ontem escutei; ao ouvi-las, darei saída ao cansaço de querer evitado o caminho, outra vez percorrido.

O quarto continua silencioso. O asco é maior do que as ansiedades. Não penso na chinelada. Como devia ter tirado o bicho, não me exulto. Pego o cadáver, jogo-o na lixeira e levo-a ao pé do poste.

Mesmo sem varrê-lo, abro o quarto.

Cotovia pousada no espelho, a alma inquieta-me. Tenho cansaços camerísticos, sem arroubos sinfônicos, pois o que orquestra em mim a percepção do momento é a sanha lírica das pedras.

Embora os meus olhos brilhem feito esmeraldas acinzentadas, não diviso o caminho sob as folhas mortas. Ninguém me conduz pela mão.

No espelho não há dúvida nem problema, pressinto a eternidade.

Desde que optei pelo tempo, parei de ocupar-me com rugas.

Não parei de envelhecer a partir do instante em que parei de cultivar rugas. Não desnorteie, envelhecimento. Atrás de mim, o rastro mostra coisas interessantes. Não encaro o mundo apenas pelas ansiedades. Pés de galinha, achei de envelhecer passo a passo.

Por outro lado, gentes angustiadíssimas têm grave envelhecimento, pois não conseguem parar de criticar carros-bomba, drones de ataque e memes de nenês nas redes.

Também há grandes homens que não se restringem a analgésicos, anti-inflamatórios e soníferos. Eles não vacilam, pisam barata mortinha da silva.

Pessoas interessantes sabem que miolos são lentes, aumentam ou diminuem. Quando repreendidas e avacalhadas, é bem chato.

Ainda que nem sempre a realidade chateie com náuseas em quem mata barata, é para, instante a instante, ir sumindo o cheiro dessa coisa seca que tantas casas são escancaradas.

Tocado pelo horror à ideia de ter no mundo mais barata que gente, minha pessoa beira o pânico quando preciso ir confirmar que, na lixeira posta ao pé do poste, a barata permanece morta.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 14 de novembro de 2023.

domingo, 12 de novembro de 2023

Carinha de quero mais

 

Carinha de quero mais

 

Basta que eu facilite, que ceda um instante ao disparate de não me contrariar enquanto sonho que eu estou sonhando.

Se fosse simples, seria simples, mas não ando sonhando que estou sendo simples enquanto caminho na direção desejada.

Quando não sei por que estou indo em frente, é aí que não paro.

Se não me viesse a vontade de urinar, continuaria dormindo com o pescoço forçado no desvio da vértebra. Ou seja, seguiria estimulando o desconforto, continuaria aumentando a sensação de desconforto, eu seguiria sendo o agente do sofrimento que a mim me fustigará quando eu for urinar.

Deixe-me ir, ô diabo, que preciso mesmo dar uma mijadinha.

O diabo põe-me dengoso quando estou tentado a falar do que não gosto, então, seu danado, não falo do que não gosto porque aceito sua influência, seu magnetismo.

Deixo-me ir por onde queira que eu vá; ele fica aperreado.

Comigo ao seu comando, quem sofre é ele, porque quem gosta de sofrimento não sou eu. Ele tenta não sentir o tanto que gosta de sentir-se sensível à dor que poderia afetar-me. O danadinho dengoso adora tudinho que o desgosta a ponto de gostar-se tão sofredor.

Ô diabo que não gosta de mim quando o acato, eu deveria recusar as suas ofertas, deveria contestá-lo, contrapor-me a suas demandas?

O aperreado desconversa, diz que não o entendo, não estou sendo correto quando digo que o compreendo e aprovo. Ele me assegura que distorço o meu papel apenas pra espicaçá-lo.

Demônio contrariado, diga que minha frivolidade me faz beber água usando as mãos em vez dos pés. Sombra que vocifera, seja racional, mefistofélico, radicalmente calculista, pois minha porção de gente feliz quer deixá-lo feliz na sua rebeldia.

Acordo com a nuca dura. Estou obrigado a ir ao banheiro sem girar o pescoço. Estou ciente do que fiz: deitei-me incomodado mas não fiz o certo, que seria ter deitado de costas.

Acordo agastado comigo.

Não volto pro quarto. O sono me pega na poltrona.

Contemplo-me, sonhando. De olhos abertos, ando. Contemplo-me que estou sonhando que caminho. Dormindo de olhos abertos no meio da rua, dou-me conta das tarefas, trabalho o sonho.

Sou esse sujeito que trabalha sem sentir cansaço.

Canseira dá essa contemplação, que posso acreditar-me um cara de sorte, um camarada forte, uma pessoa obcecada.

Observo-me: parado na esquina, parado um instante, não consigo influenciar-me à fortaleza.

E a realidade percebe: trabalho para não me cansar.

De fato, que soe a campainha para acordar-me.

Recebo visita. Ela chega dizendo que a lasanha de berinjela foi feita especialmente pra mim. Como não gosto de berinjela, faço questão de comer um pedacinho bem na sua frente.

Feliz comigo por ter aprovado seu quitute com a carranca de quem gostou pra caramba, como um emoji simpático, eu arremato:

ꟷ Ô mão abençoada pra trazer uma iguaria tão divina.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 12 de novembro de 2023.

quinta-feira, 9 de novembro de 2023

O fio da meada

 

O fio da meada

 

Percebo um certo desprezo, mas atravessei a rua. Embora estejam rindo às minhas costas, vim pra cá sem pressa ꟷ uma vez que há uma lombada, a velocidade dos automóveis está baixa.

Depois de cruzada a rua, entendo-me com esta percepção; tanto a entendo desprezível que nem encaro as pessoas do lado de lá. Porque dei com a fuça num fio esticado barrigudamente entre um poste e outro, elas têm motivo para rir.

Deste fio, protegeram-me os óculos. É da minha indiscrição que não estou protegido: dou uma olhadinha envergonhada, aquela espiadinha de curioso, de rabo de olho: como a vida sabe ser decepcionante, vejo que ninguém mais está rindo.

Com mais ninguém interessado em mim, pensaroso como sempre, vou de olho no que piso. Sem temer por minha vida, volto pra casa.

Já que a ventania não é ardilosa, não a culpo pelos ciscos nos meus olhos ꟷ como a poeira é do mundo, acerte-se consigo, mundo.

A culpa é dos meus olhos. Se estivessem olhando além, certamente eu enxergaria o que uma árvore esconde.

E não falo das folhas secas derrubadas dos galhos, porque o vento enfrenta os obstáculos, suplanta-os. O vento não teme desafios porque sabe aonde quer chegar: às pás do moinho; às pás à beira-mar.

Precisamos pavimentar, asfaltar. Precisamos de calçadas. Pra que os fios bailem no ar sem que os acusem de ceifadores, os postes sejam mais altos. Para que prédios não sejam humilhados pelos postes cada vez mais altos, edifícios sejam construídos sem medo, eles sejam mais e mais encorpados. Porque o reino do grandioso tem que ser glorioso, precisamos de monstrengos que não temam a própria monstruosidade. Pra que porquinho convide porquinho pro cafezinho, não abjuremos o vidro, o aço e o concreto. Planejemos o que havemos de planejar.

Todavia ꟷ com problema pra associar nome a rosto conhecido?

É neste ínterim que me revelo essa pessoa amável, sociável, capaz de dar atenção a quem me chama pelo nome, me identifica em voz alta e diz que fazia tempo que não nos encontrávamos, nos abraçávamos, que podíamos rememorar algumas de nossas lutas inglórias.

Porque fomos rapazes de beber além da conta, pendurávamos em quem afiançasse nossa voragem. E bebíamos até a chuva passar.

Amantes da picanha, churrasqueávamos de quando em quando, ao léu de nossos boletos abduzidos, pois vão de porta tem esse hábito de soprar pra debaixo do tapete o que segue preso à folhinha.

Não vejo problema: abraço, rememoro, topo um churrasquinho.

Há pessoas que alegam dor na consciência porque estão mudadas, porque deixaram de ir a festas; que alegria é ter mudado, porque tenho dor de cabeça se não tenho seis horas de sono.

Há gente que diz odiar gente que a embarace; essa gente é gente exagerada, afinal: perder a graça não é cair de bunda, é razão para rir do ódio que não sente.

Doido varrido, culpo São Pedro por cinco dias no escuro.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 09 de novembro de 2023.

terça-feira, 7 de novembro de 2023

Bom garoto

 

Bom garoto

 

Quando a Cidade Eterna foi fundada?

Perguntaram, mas o problema é que responderam.

Ao ouvir a resposta, desdenhei. Sempre que eu desdenho, atazano-me. Se tivesse sido sarcástico, quiçá o desdém reverberasse na minha cachola de maneira mais luminosa. Indubitavelmente, o sarcasmo põe-me opaco, pois me suga ao humor que ofuscaria os demônios.

Como os demônios brilham, logo troco de pele.

Na verdade, nego aos outros o que a mim nem sei como me negar, que talvez eu devesse falar mais, que eu sofra menos por ficar de boca fechada quando tenho com o que contribuir, que forçosamente calado violentar-me-ia como pessoa.

De verdade, embora não comente o que falam por aí, não paro de especular sobre os uivos que escuto. É diabrura achar que me expor à lua é maluquice. Ainda que o luar afete o fluxo das ideias, esconderia melhor as minhas garras.

Quando o homem aflora, sacrifica-se a ovelha.

Será misteriosa a transformação por influência do mundo? Por que não atino de onde me vem o ímpeto carniceiro? Por que recuo quando estou às portas de outra resposta?

Quando tiro da cumbuca a lama que recobre o rosto, sorrio maroto, levemente endiabrado, sossego-me de algumas taras, nem as nomeio, penso nos guarás do Caraça, os de muros adentro e os de afora.

Eu falo de mistérios, lama misteriosa? Que nada.

Falo do espelho que enruga; do micro que estupefaz; do celular que confunde; da página que aprisiona; do fato que escala até o fundo; do lodo à tona; da pele recoberta por sedimentos de sentido, sentimentos doridos, assoreamentos pela miopia das retinas; até do lobo que lambe a faca, sangra e sofre; falo dessa dor afiada que fala ao poeta.

O poeta amestrado é lobo que finge canhestramente ser o cordeiro a balir vontades às portas da intoxicação. E suas vontades balidas não são tóxicas nem fundamentais, dão sono.

Erroneamente, o poeta acha que o casaco de lã diz à memória que o sol de 21 de abril também faz suar os albinos da Europa.

Tolo, o poeta pensa que os lobos de Minas comem mocotó.

Lupino, o poeta escreve um verso, escreve outro, funde os dois, e nada feito. Descontente e arisco, ele permanece à espera da lama que lhe mascare os desejos, à espera do lodo que o revele ovino.

Quem choca o ovo da serpente?

Três dias depois do temporal, do vendaval da tempestade, o poeta enlameado escreve no escuro, e continua sem banho.

Alegremente, o poeta sobrevive ao fim dos tempos, embora o lobo do poeta uive à TV. Alegremente, o uivo volta da TV como resposta à inocência do lobo. Inocentemente, o poeta pensa que comer o lobo que o come é o mesmo que amamentar-se pelo espelho.

Poeta renegado, quem imita o lobo e destroça o poema merece cem anos de perdão?

Ao poeta fala a loucura:

ꟷ O que os meus caninos sangram, o seu tormento não cura.

E o que fundamenta a alucinação renegada do poeta?

Remo e Rômulo, não falte vinho às tretas.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 07 de novembro de 2023.

domingo, 5 de novembro de 2023

Boca maldita

 

Boca maldita

 

Putisgrila, estão gritando. E a desgraça é que ninguém sai gritando de madrugada quando é dia de semana, então, acharam de vir berrar nos meus ouvidos justo no feriado.

Freguesia, bananas, abacaxis e laranjas estão quase de graça. Se não acredita, venha conferir. Mas venha logo, porque o caminhão das pechinchas está saindo. Freguesia, corre, corra, venha! Para já ir, é só o moço dar o troco. Estamos indo, freguesia. Banana, abacaxi, laranja, está tudo muito barato. Corre, corra, venha logo, freguesia!

Haja goela.

Quando era garoto, com o vendedor advertindo que aquilo era peso demais para criança mirrada, o sábado era reservado a torrar em frutas os cruzeiros que mamãe dispunha para que a sacola ficasse cheia.

Pelas lembranças do guri mirrado que não sossegava nem depois de ter esfolado os joelhos, conheci minhas fragilidades sem saber que criança feliz nem calcula o que seja infância.

Quando sou forçado à reação, felizmente sigo infantil, birrento, faço bico, franzo a testa e fecho a cara.

Madrugadores, hoje é Finados.

Vocês bem que poderiam não ter vindo perturbar minha paz, porque o que nem imaginava neste feriado é ter sido acordado pelos anúncios de pencas baratas, unidade dulcíssima, dúzias do mais melífluo néctar, pois o que eu menos esperava é ter perdido um segundo de sono com gente muito viva que não deixa as oportunidades passarem.

Madrugadores, vocês deveriam espelhar-se nos mortos que pedem apenas que, uma vez ao ano, pensemos neles, e só neles.

E que possamos avaliar o que fizeram conosco, o que fizemos com eles, o que faremos conosco a partir do que deles pensarmos.

Contudo, o caminhão não veio num sábado, veio em Finados.

Com laranja a preço de banana, quem saboreia abacaxis?

Embora ache graça ao espiar-me enquanto faço a barba, não sorrio mas faço caretas; por distraído, corta-me a navalha.

A navalha que servira ao meu pai, agora ela me fere.

Para estancar o sangue uso a espuma do sabonete: isso quem fazia era o meu pai; isso funciona porque acredito que funcione: e da ferida, pai, mais uma vez não sai sangue.

Como não sei contar piada, prefiro anedotas.

Lembro-me, três caras entraram num bar: o bacana diz horrores de quem fala barbaridades; quem se recusa a dizer barbaridades mesmo de quem fala horrores é o sacana; é o cara legal que pede paciência a quem pensa que paciente é quem nem sabe a força que tem.

Entendo o que estou tentando dizer.

Uma vez que Deus está nos detalhes, sou detalhista: entre a cama e a janela, o tapete; entre o tapete e a janela, a cadeira; entre a cadeira e o caminhão, a janela; entre a janela e o caminhão, a boca.

Apesar de toda deferência pelos vendedores de abacaxi, o franzino franzido pede que parem, tenham dó, imploro que fechem a matraca.

Eles não param, não se apiedam nem cortam o megafone.

ꟷ Vão pro inferno, filhotes do capeta!

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 05 de novembro de 2023.

quinta-feira, 2 de novembro de 2023

Confissões de um comedor de bacon

 

Confissões de um comedor de bacon

 

É feriado, gente boa. Putisgrila! É feriadão prolongado.

Eu poderia chatear com muita coisa que é preciso debater, discutir, ratificar, retificar, coisa que não dá para deixar pra depois do chope, da pizza, do virtual campeão apurado no Engenhão.

Mas, gente boa, você fique em paz, que também não vim pedir-lhe que abone alguma reflexão extravagante pela qual me expresse mal e cause indignação, revolta, desperte em você a vontade assanhada de mijar na minha roseira.

É feriado, gente boa. Maravilha! É feriadão prolongado.

Em paz, esqueça guerras, a meta fiscal, a prometida ida do Papa à COP, e supere o espaventoso da virada do verdão no Tapetinho.

Gente boa, você não abra mão da tranquilidade, que não estou aqui pra manipular o seu entusiasmo, sua euforia, sua atenção, porque você não tem que receber o vil tratamento de quem seja público, audiência, doador de um realzinho a mais na minha conta.

É feriado, gente boa. Cáspite! É um feriadão prolongado.

Gente boa, você trabalha honestamente, gosta do que fabrica, tem orgulho de fazer um automóvel, é vaidoso quando vê o veículo rodando nas ruas, sente-se confortável por sabê-lo moderno, com airbags, freio a disco, um troço porreta, porquanto meio elétrico, meio a gasolina.

Você labuta arduamente, ardorosamente, porque ama os canaviais, ama essa caninha brasileira, boa de plantar, colher e ser destilada.

É feriado, gente boa. Caramba! É um feriadão prolongado.

Todavia, você se recorda, pode desconsiderar-se responsável pelo cachaceiro alucinado que trafega pelas avenidas, rodovias e infovias, porque cultiva minhocas na cachola.

Entranhado cachaceiro, suas minhocas arribam-no ao pedestal azul da planilha, pois tiram angústia, depressão e viés camicase.

É feriado, gente boa. Carambolas! É feriado prolongado.

Gente amiga, se me considera uma pessoa apta a merecer perdão, embora na surdina, no abafadiço dos meus silêncios, esteja em guerra, às armas, embora faça mortíferas as minhas mãos, perdoe-me.

Camaradinha, gente boa, fique sabendo que não recuo de tapas de mão aberta e sopapos sorrateiros, não temo noites em claro nem nego meus dias de cochilo mesmo em cadeira de assento duro.

É feriado, gente boa. Maravilha! É feriadão prolongado.

Gente boa, gente amiga, sou humano, fraquejo, me envergonho de mim por minhas pusilanimidades, sou uma pessoa sensível, tenho para mim que lhe pareço um sujeito vigoroso, mas não sou cidadão de fibra para ignorar o zunzunzum de um pernilongo.

Depois de outra noite dedicado à eliminação desse monstro que me quer desequilibrado, você sabe, o corpo humano não sobrevive a seis dias sem água, mas à minha mente, para me convencer de que posso ficar mal-humorado, bastam três madrugadas sem dormir.

Sei, porco esmeraldino, tem feriado que não me cai bem.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 02 de novembro de 2023.

terça-feira, 31 de outubro de 2023

Mais uma chance

 

Mais uma chance

 

A menina bateu, e aguardou. Com mais força, tornou a bater. Sem paciência para esperar, ela bateu e bateu.

Ficar batendo era inútil, uma vez que aquela porta era igualzinha à do quarto dos pais, que gostava de ficar trancada sempre que trovões arrancavam-na da cama dos sonhos.

Com medo dos clarões, quer que seus punhos virem machado para abrir passagem. Com tantos raios, implora ser abrigada entre o pai e a mãe. Com todas as suas forças, desespera a esmurrá-la.

Apesar daquele estardalhaço, ninguém apareceu.

Já que a chuva tinha engrossado, a menina colocou a assadeira no capacho em que estava escrito: ‘lar de gente feliz’.

Essa gente ficará mais feliz com o bolo de cenoura; feliz e satisfeita, pois o bolo de cenoura tem um toque especial: em vez da cobertura de chocolate, está coberto com coco, com o recheio de coco que torna os bolos de aniversário irresistivelmente saborosos.

A menina levantou o papel-alumínio; aqueles pedacinhos a fizeram salivar. Pra resistir àquela vontade, precisava ir embora, mas não tinha como ir-se dali porque a chuva estava bastante forte.

É preciso lucidez pra resolver problemas sérios. Mas pessoa lúcida não implica que esteja serena. Embora sofra antes de decidir-se, tendo em vista o pior que pode acontecer, é preciso querer o menos ruim.

Se fosse embora debaixo daquela chuvarada, levaria bronca pelas suas roupas ensopadas. Então, até que a chuva diminuísse um pouco, o jeito seria balançar-se na cadeira da varanda. Se sentasse sem pedir ordem, a gente da casa iria passar-lhe um pito. Tomar sabão era muito injusto, só porque estava balançando, isso não era para tanto; além do mais, o aguaceiro vinha do céu, ela não tinha como controlá-lo.

Nisso, veio um cachorro abanando-se à garota.

Porque gostou da companhia, afagou-o, chamou-o de amigão, quis colocá-lo no colo, mas o bicho foi bisbilhotar a coisa à porta.

Ele farejou que aquilo era algo comestível. A pata serviu para rasgar o papel-alumínio. Pra abocanhá-los, o focinho soltou tijolinhos de bolo. Sem ‘au-aus’ a denunciá-lo esfomeado, enfarou-se.

Com o celular, a menina gravou tudo.

Aquele cachorrinho era mesmo esperto. Tão logo sentiu o cheirinho de coisa boa, devorou a maior parte. Ele fez o certo, pois o vento faria com que a chuva estragasse o bolo.

A chuva diminuiu e ela correu pra casa.

Assim que a viu encharcada, com palmadas na bunda, a criança foi surrada pela mãe.

Ela não tinha nada que ficar mostrando gravaçãozinha de cachorro ou ficar inventando que tinha feito algo bom, porque não tinha nada de ter dado o bolo prum vira-lata de rua.

Ela fosse se enxugar, mas a menina correu pro seu quarto, trancou a porta, pulou a janela e foi sentar-se na jabuticabeira.

Sem casa na árvore, pôde esconder-se atrás das folhas; quietinha, iria provar o seu ponto, que as roupas secam por conta.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 31 de outubro de 2023.

domingo, 29 de outubro de 2023

A roupa do corpo

 

A roupa do corpo

 

Sobre a minha reserva, sou discreto. Mesmo que não me convenha, emudeço, fico retraído; já os fanfarrões mostram-se satisfeitos consigo; enquanto eu me absumo, espalhafatam-se.

Em meio a bruxos e mestres da natureza, faço a mágica de não me entregar à vaidade, vou vivendo. Pra não me apagar inteiramente, sigo existindo. De desaparição em desaparição, deixo migalhas.

Posso sumiços; e assentir-me poderoso, alegra-me.

Embora não sejam mágicos, meus poderes são potentes; tanto são que, atônito, fico convulsionado, bestificado, de queixo caído.

No esplendor de fazer-me tímido, recluso na tartamudez, torno-me observador concentrado no que vai pelo entorno; tanto me desconcerta o mundo que apuro o juízo pelo que avivo, à flor de mim, desabrochem idiossincrasias cristalinas; e deveras sensibilizado, tamanho o realismo da contenção, percebo-me: não sou mármore que respira.

Respiro mas sorrio a quem respira. Serenamente respiro; e cheguei a tal estado porque é deplorável quem vive na obsessão: a serenidade gere felicidade.

É feliz quem persevera no caminho da felicidade? Não creio.

Estou no mundo; e na ventura do instante, vivo e sobrevivo. Aceito a felicidade enquanto dure; só as frustrações martirizam-me; já que são efêmeras as decepções, consigo transformá-las ou superá-las.

Não é preciso um bom motivo para uma pessoa acreditar que possa imaginar-se o centro de cenas grandiosas, feito herói em ação.

O mundo basta a quem o observa, ele é real. Por ser real, o mundo não consola o cidadão. Pela realidade não ser bastante, o cidadão que tece linhas mentais usa da indivisibilidade pra notar o quanto às vezes o bem produz o mal e o mal, porventura, faz o bem.

No maniqueísmo dessa percepção, a fila do caixa anda.

ꟷ É azeite?

ꟷ É mel.

ꟷ Quanto custa?

ꟷ Não sei.

ꟷ Você compra as coisas sem saber o preço?

ꟷ Prefiro adoçar a vida naturalmente.

ꟷ Quer dizer que açúcar é química que prejudica a gente?

ꟷ Ele custa R$ 23,45, senhora.

ꟷ Que caro!

ꟷ O mel de casa empedrou, o senhor sabe como fazer voltar?

ꟷ Amiga, mel empedrado está estragado.

ꟷ Moça, é só colocar o mel cristalizado em banho-maria que o calor o deixará liquefeito novamente.

ꟷ Então, o mel ainda está bom?

Entre a ganância e o ressentimento, a máscara detestável que não uso é a de intermediário. E uma vez que não me seduzo a apaziguador ou a belicoso, converso com os meus botões.

“E as abelhinhas? Ninguém se preocupa com o aquecimento global matando milhares de milhões de abelhinhas mundo afora; ninguém se condói pelas pobrezinhas. E as pessoas têm orgulho de trabalhar pelo próprio sustento, e fazem questão de dizer que precisam ralar pelo pão de cada dia. As ignorantes reclamam do preço das frutas, lamentam a baixa qualidade dos frutos e não entendem a interligação de escassez e carestia.”

ꟷ Não tem nada pra dizer, padre?

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 29 de outubro de 2023.