domingo, 26 de novembro de 2023

Viva!

 

Viva!

 

Tempo, tempo, mesmo que não entenda muito do que faço, mesmo que chegue a desconfiar da relevância do que tenho feito, sigo disposto a entender a realidade e a entender-me com a sua realidade, tempo.

Mas, precisa apressar o passo? Se não me permite, eu me permito: preciso desacelerar um tanto.

Desacelero, para respirar; para tirar a pressão, preciso andar; quero andar sem exigir de mim o que me exaure, esgota e idiotiza.

Tempo, não me engano, sei que às vezes ajo feito idiota, mas o que me exaspera é manter o passo para não perder tempo.

Quero perder tempo, e vou perdê-lo o quanto eu queira.

Compreendo, preciso seguir atento, ou a corrente afogar-me-á. Os acontecimentos atropelam, abalroam, fazem adernar, passam rasteira, e eu naufrago, me afogo, morro na praia e engulo areia, saliva e ar.

Para que a mente não se perca, é importante manter-se informado. Navegando no oceano de informações, é fundamental fazer perguntas e encontrar respostas que não confundam. Se as respostas estão além de alguns cliques, primordial é não se entontecer com a barafunda dos acontecimentos.

Será que os devaneios não puxam a corda que torna difícil respirar, mantêm a asfixia que desatina e enforcam quando não se observa que o ar já anda tóxico à pessoa abilolada?

Apatetado, o juízo nem percebe a lucidez da sujeição. No mar dos fatos, entre surfar e navegar, entre mergulhar e boiar: não transformar as mágoas em âncora.

Essencial é pensar o que seja relevante, prioritário, indispensável.

O que parece enovelado é o fio da meada; e pelo pouco que esteja embaraçado, o fio embaça, filtra o olhar pela névoa, e segue impedindo que, entre os acontecimentos, seja percebido um nexo.

E a realidade diz que: o raio cósmico Amaterasu fritou os sensores do Telescópio Array; as duas tangerinas da senhora Vilma Nascimento foram obrigadas à exposição no aeroporto; o chapéu de Napoleão foi leiloado por dez milhões de reais.

O rio de eventos segue em frente; eu sobrevivo à margem.

Não abocanho as palavras. Mastigo pão e bife. Engulo água e leite. Dou-me por satisfeito ao alimentar-me da ração diária do que preciso e do que nem imagino que me seja importante, relevante ou um bocado revigorante.

O meu consumo de notícias inclui chuvaradas no Sul, greve em SP e aquelas filas pro maior espetáculo da hora, agora sob chuva.

Concluo: os 40 mil pints de Guinness, arrecadados por vaquinha on line, são um presentão para um brasileiro, o entregador de comida Caio Benício, que derrubou com capacetadas um criminoso que esfaqueava crianças à saída de uma creche em Dublin.

Pra arredondar a conta: à base de quatro copões irlandeses por dia, só depois de vinte e sete anos que os 22.720 litros serão zerados.

Como o mundo não para de parir fatos atrás de fatos, paro e penso, encontro esse respiro: ler é aprender a desafogar-se das mágoas.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 26 de novembro de 2023.

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