Viva!
Tempo, tempo, mesmo que não entenda
muito do que faço, mesmo que chegue a desconfiar da relevância do que tenho
feito, sigo disposto a entender a realidade e a entender-me com a sua
realidade, tempo.
Mas, precisa apressar o passo? Se não me
permite, eu me permito: preciso desacelerar um tanto.
Desacelero, para respirar; para tirar a
pressão, preciso andar; quero andar sem exigir de mim o que me exaure, esgota e
idiotiza.
Tempo, não me engano, sei que às vezes
ajo feito idiota, mas o que me exaspera é manter o passo para não perder tempo.
Quero perder tempo, e vou perdê-lo o
quanto eu queira.
Compreendo, preciso seguir atento, ou a
corrente afogar-me-á. Os acontecimentos atropelam, abalroam, fazem adernar,
passam rasteira, e eu naufrago, me afogo, morro na praia e engulo areia, saliva
e ar.
Para que a mente não se perca, é
importante manter-se informado. Navegando no oceano de informações, é
fundamental fazer perguntas e encontrar respostas que não confundam. Se as
respostas estão além de alguns cliques, primordial é não se entontecer com a
barafunda dos acontecimentos.
Será que os devaneios não puxam a corda
que torna difícil respirar, mantêm a asfixia que desatina e enforcam quando não
se observa que o ar já anda tóxico à pessoa abilolada?
Apatetado, o juízo nem percebe a lucidez
da sujeição. No mar dos fatos, entre surfar e navegar, entre mergulhar e boiar:
não transformar as mágoas em âncora.
Essencial é pensar o que seja relevante,
prioritário, indispensável.
O que parece enovelado é o fio da meada;
e pelo pouco que esteja embaraçado, o fio embaça, filtra o olhar pela névoa, e segue
impedindo que, entre os acontecimentos, seja percebido um nexo.
E a realidade diz que: o raio cósmico
Amaterasu fritou os sensores do Telescópio Array; as duas tangerinas da senhora
Vilma Nascimento foram obrigadas à exposição no aeroporto; o chapéu de Napoleão
foi leiloado por dez milhões de reais.
O rio de eventos segue em frente; eu sobrevivo
à margem.
Não abocanho as palavras. Mastigo pão e
bife. Engulo água e leite. Dou-me por satisfeito ao alimentar-me da ração
diária do que preciso e do que nem imagino que me seja importante, relevante ou
um bocado revigorante.
O meu consumo de notícias inclui chuvaradas
no Sul, greve em SP e aquelas filas pro maior espetáculo da hora, agora sob
chuva.
Concluo: os 40 mil pints de
Guinness, arrecadados por vaquinha on line, são um presentão para
um brasileiro, o entregador de comida Caio Benício, que derrubou com capacetadas
um criminoso que esfaqueava crianças à saída de uma creche em Dublin.
Pra arredondar a conta: à base de quatro
copões irlandeses por dia, só depois de vinte e sete anos que os 22.720 litros serão
zerados.
Como o mundo não para de parir fatos
atrás de fatos, paro e penso, encontro esse respiro: ler é aprender a
desafogar-se das mágoas.
Rodrigues
da Silveira
Ibiúna, dia 26 de novembro de 2023.
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