Tudo
mais
Larga o celular. Senta-se. Que leseira é
essa? Sua. Fecha os olhos. Que claridade! Treme. Baixa a cabeça sobre as mãos. Pega
o telefone. Cadê que não atendem? Tem ânsia. Deita-se. Cadê que não ouvem o telefone?
Que desespero!
Quando carece de assistência, está só.
No súbito do abandono, sua fragilidade transparece. Medida pelo desamparo, a sua
existência está restrita à família e aos amigos. Ninguém sabe que a sua condição
beira o trágico. Que uma fatalidade é iminente, não tem dúvida.
Em busca de causas pro estupor, a pessoa
pensa, repensa, reflete, e o excesso de luz faz opaco o diamante.
Quando a pedra conhecer-se pela pedrada,
calculem o prejuízo.
Quando a cana encarnar-se caninha em pé,
embriaguem-se.
Quando a razão for febre que rebenta de
repente, gozem.
Pronto! Com as condições de volta aos
conformes, quer trabalhar, quer retomar o trabalho, já confiante de que os
aborrecimentos ou as interrupções não tornarão a desequilibrar.
Se precisa fechar a janela ou colocar os
fones, as circunstâncias do mundo ao seu redor mostram o quão tola é a sua
empáfia.
Uma ova que você pode trabalhar porque
tem vivências. Não conte como vantajoso o seu otimismo, pois o mundo faz
pirraça.
Se os cães não param de latir nem a
música sossega a cachola, a realidade não passa vergonha quando desconfia de
quem diz desejar tanto que a vida não desande, apesar das piruetas.
Não ria. Cerre as cortinas. Aumente o
som. Rebele-se. Mesmo que o mundo diga que os cristais são fajutos, não o deixe
estilhaçá-los.
No calor do momento, ainda que a vida
anuncie que o pior está por vir, precisamente por lhe faltar preparo, sue e
trema, titubeie mas não sucumba, preserve-se das fragilidades, arrisque, encare-se.
Vindo o pior, é humano sentir-se
despreparado pros pessimismos.
Embora derrotas ponham amarga a boca, o
sal é natural.
Embora sussurros façam apurados os
ouvidos, a mentira corre.
Embora mãos trêmulas possam indicar
medo, é fraqueza.
De efemeridade em efemeridade, de
instabilidade em instabilidade, transitando na selva iluminada por relâmpagos,
o pensamento é de que o momento permite ouvir a viola fora do saco, permite
morder o pão de ontem, permite irritar-se.
Irrite-se com o carro do cloro, peça
pela pamonha.
Fique mais irritado, pense na alegria do
aniversariante quando lhe cantam que a data é querida, quando lhe desejam
muitos anos de vida, quando lhe felicitam: ra-tim-bum!
Largue o trabalho. Esqueça a serenidade.
Vá à janela, escancare-a e grite. Berre que não aguenta mais, o incômodo é
demais, a cabeça vai explodir. Ter paciência é para mansos, não pra você.
Com tanta coisa errada na sua vida, que
terceiros paguem a conta; se não pagarem, não se desiluda, pois o mundo sonha
com você.
Não caia na cilada de sair de casa ao
primeiro sinal de fúria, brilhe, assobie aquela canção do Roberto.
Rodrigues
da Silveira
Ibiúna, dia 19 de novembro de 2023.
Nenhum comentário:
Postar um comentário