domingo, 19 de novembro de 2023

Tudo mais

 

Tudo mais

 

Larga o celular. Senta-se. Que leseira é essa? Sua. Fecha os olhos. Que claridade! Treme. Baixa a cabeça sobre as mãos. Pega o telefone. Cadê que não atendem? Tem ânsia. Deita-se. Cadê que não ouvem o telefone? Que desespero!

Quando carece de assistência, está só. No súbito do abandono, sua fragilidade transparece. Medida pelo desamparo, a sua existência está restrita à família e aos amigos. Ninguém sabe que a sua condição beira o trágico. Que uma fatalidade é iminente, não tem dúvida.

Em busca de causas pro estupor, a pessoa pensa, repensa, reflete, e o excesso de luz faz opaco o diamante.

Quando a pedra conhecer-se pela pedrada, calculem o prejuízo.

Quando a cana encarnar-se caninha em pé, embriaguem-se.

Quando a razão for febre que rebenta de repente, gozem.

Pronto! Com as condições de volta aos conformes, quer trabalhar, quer retomar o trabalho, já confiante de que os aborrecimentos ou as interrupções não tornarão a desequilibrar.

Se precisa fechar a janela ou colocar os fones, as circunstâncias do mundo ao seu redor mostram o quão tola é a sua empáfia.

Uma ova que você pode trabalhar porque tem vivências. Não conte como vantajoso o seu otimismo, pois o mundo faz pirraça.

Se os cães não param de latir nem a música sossega a cachola, a realidade não passa vergonha quando desconfia de quem diz desejar tanto que a vida não desande, apesar das piruetas.

Não ria. Cerre as cortinas. Aumente o som. Rebele-se. Mesmo que o mundo diga que os cristais são fajutos, não o deixe estilhaçá-los.

No calor do momento, ainda que a vida anuncie que o pior está por vir, precisamente por lhe faltar preparo, sue e trema, titubeie mas não sucumba, preserve-se das fragilidades, arrisque, encare-se.

Vindo o pior, é humano sentir-se despreparado pros pessimismos.

Embora derrotas ponham amarga a boca, o sal é natural.

Embora sussurros façam apurados os ouvidos, a mentira corre.

Embora mãos trêmulas possam indicar medo, é fraqueza.

De efemeridade em efemeridade, de instabilidade em instabilidade, transitando na selva iluminada por relâmpagos, o pensamento é de que o momento permite ouvir a viola fora do saco, permite morder o pão de ontem, permite irritar-se.

Irrite-se com o carro do cloro, peça pela pamonha.

Fique mais irritado, pense na alegria do aniversariante quando lhe cantam que a data é querida, quando lhe desejam muitos anos de vida, quando lhe felicitam: ra-tim-bum!

Largue o trabalho. Esqueça a serenidade. Vá à janela, escancare-a e grite. Berre que não aguenta mais, o incômodo é demais, a cabeça vai explodir. Ter paciência é para mansos, não pra você.

Com tanta coisa errada na sua vida, que terceiros paguem a conta; se não pagarem, não se desiluda, pois o mundo sonha com você.

Não caia na cilada de sair de casa ao primeiro sinal de fúria, brilhe, assobie aquela canção do Roberto.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 19 de novembro de 2023.

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