terça-feira, 28 de novembro de 2023

Mente educada

 

Mente educada

 

Educadamente, a educada cumprimentou o educado.

Educadamente, ambos estacionaram os carrinhos de maneira que não atravancassem a passagem das demais pessoas, que passavam empurrando educadamente os seus carrinhos.

Educadamente, a educada pediu novidades ao educado.

Educadamente, o educado disse à educada que não tinha novidade alguma para compartilhar. O educado, educadamente, não as solicitou em recíproca à educada, porque os seus bons modos eram realmente de gente educada, pois eram modos oriundos do seio familiar, modos devedores ao pai e à mãe, pessoas sempre tão inspiradoras.

Educadamente, a educada entendeu que poderia mudar o rumo do diálogo. A educada falou que, no seu quarto, foi instalado um aparelho de ar-condicionado, cujos mecanismos, embora fossem potentes, não produziam tanto barulho.

Educadamente, o educado felicitou-a, que fizera o certo ao instalar um condicionador de ar, porque as temperaturas têm custado a baixar mesmo à noite, afetando negativamente o descanso do corpo.

Educadamente, a educada demandou a vênia para prosseguir em sua jornada, que era comprar os itens constantes na lista. A educada, precisamente por ser educada, para não melindrar o educado, ela nada falou do que tanto trazia listado numa tira de papel.

Educadamente, o educado cedeu à educada a licença e solicitou-a também para si, porque também viera às compras, embora sua compra estivesse ao sabor dos olhos, uma vez que era naturalmente impulsivo, era pessoa sujeita aos anseios de momento.

A educada e o educado despediram-se educadamente, para um 'até mais ver' de uma rotina educadamente convergente, pois só ao futuro cabe dizer quando haverá de calhar outro encontro.

A educada dirigiu-se para o setor de grãos, uma vez que faltavam na despensa arroz, ervilha, feijão e lentilha.

O educado dirigiu-se à geladeira de congelados, pois, obviamente, repunham lasanha, escondidinho e estrogonofe de frango.

A educada cumprimentou outra educada, e ambas falaram do calor e das tempestades. A educada declinou de expressar o temor, de que gente impulsiva costuma comprar o que nem tem necessidade, apenas para satisfazer desejos que desconhecem satisfação.

A outra educada despediu-se da educada porque tinha que terminar logo a compra, afinal era ela que preparava o almoço da família e todos estariam à mesa ao meio-dia em ponto.

Na fila da carne, a educada e o educado retomaram a conversa.

A educada estava sensivelmente impressionada, até surpresa, com tantos carrinhos que iam e vinham lotados, mostrando que a saúde da economia ia indo bem.

Educadamente, o educado concordou com a educada, pois o país parecia ter recuperado o fôlego, ter saído da depressão e estar dando oportunidades a tanta gente.

Em virtude das circunstâncias, é educado não discordar.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 28 de novembro de 2023.

 

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