Mente
educada
Educadamente, a educada cumprimentou o
educado.
Educadamente, ambos estacionaram os
carrinhos de maneira que não atravancassem a passagem das demais pessoas, que
passavam empurrando educadamente os seus carrinhos.
Educadamente, a educada pediu novidades
ao educado.
Educadamente, o educado disse à educada
que não tinha novidade alguma para compartilhar. O educado, educadamente, não as
solicitou em recíproca à educada, porque os seus bons modos eram realmente de
gente educada, pois eram modos oriundos do seio familiar, modos devedores ao
pai e à mãe, pessoas sempre tão inspiradoras.
Educadamente, a educada entendeu que poderia
mudar o rumo do diálogo. A educada falou que, no seu quarto, foi instalado um
aparelho de ar-condicionado, cujos mecanismos, embora fossem potentes, não
produziam tanto barulho.
Educadamente, o educado felicitou-a, que
fizera o certo ao instalar um condicionador de ar, porque as temperaturas têm
custado a baixar mesmo à noite, afetando negativamente o descanso do corpo.
Educadamente, a educada demandou a vênia
para prosseguir em sua jornada, que era comprar os itens constantes na lista. A
educada, precisamente por ser educada, para não melindrar o educado, ela nada falou
do que tanto trazia listado numa tira de papel.
Educadamente, o educado cedeu à educada
a licença e solicitou-a também para si, porque também viera às compras, embora
sua compra estivesse ao sabor dos olhos, uma vez que era naturalmente
impulsivo, era pessoa sujeita aos anseios de momento.
A educada e o educado despediram-se
educadamente, para um 'até mais ver' de uma rotina educadamente convergente, pois
só ao futuro cabe dizer quando haverá de calhar outro encontro.
A educada dirigiu-se para o setor de
grãos, uma vez que faltavam na despensa arroz, ervilha, feijão e lentilha.
O educado dirigiu-se à geladeira de
congelados, pois, obviamente, repunham lasanha, escondidinho e estrogonofe de
frango.
A educada cumprimentou outra educada, e
ambas falaram do calor e das tempestades. A educada declinou de expressar o
temor, de que gente impulsiva costuma comprar o que nem tem necessidade, apenas
para satisfazer desejos que desconhecem satisfação.
A outra educada despediu-se da educada
porque tinha que terminar logo a compra, afinal era ela que preparava o almoço
da família e todos estariam à mesa ao meio-dia em ponto.
Na fila da carne, a educada e o educado
retomaram a conversa.
A educada estava sensivelmente
impressionada, até surpresa, com tantos carrinhos que iam e vinham lotados, mostrando
que a saúde da economia ia indo bem.
Educadamente, o educado concordou com a
educada, pois o país parecia ter recuperado o fôlego, ter saído da depressão e estar
dando oportunidades a tanta gente.
Em virtude das circunstâncias, é educado
não discordar.
Rodrigues
da Silveira
Ibiúna, dia 28 de novembro de 2023.
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