O
atontado
Feito artefato explosivo, o canto do
joão-de-barro detonou em mim um deslocamento abrupto de consciência: vivo entre
fricções, pois as belezuras do mundo entortam o rebolado do cronista que faz de
conta que não o deslumbra sambar sem os pés.
Nessa soalheira manhã, mais pacato do que
pateta, eu descia a rua de casa quando o joão-de-barro implodiu-me em dois: o
pedestre com um bolo nas mãos; o embevecido que mal disfarçou o enlevamento.
Ainda que o ninho com morango pesasse
dois quilos e quatrocentos gramas ꟷ de acordo com o comprovante fiscal que me
foi ofertado na doçaria ꟷ, busquei o cantor nas palmeiras e primaveras.
Conquanto o céu estivesse ensolarado, foi
preciso que o pequenito cantasse de novo para que o avistasse no cimo de uma
arvoreta, cujas raízes caminharam calçada adentro.
Como braços têm limite e porque eu não
colocaria a embalagem no chão, alegrou-me não ter o celular comigo. Sem
recursos artificiais: os olhos míopes captaram a figura do passarinho; no
avesso da algazarra urbana, aquele canto humanizou-me pelos tímpanos.
Já em casa, com o bolo na mesa, pus-me à
espera de que viessem os meus familiares mais próximos, e tão somente eles.
Embora me tornasse sexagenário naquele
dia, não me percebi mais cansado ou triste; não me sentia de alguma maneira
mais desmedido, a fim de revelar intimidades a qualquer um; não passaria a mentir
mais que o habitual; as minhas banalidades não seriam menos melancólicas nem as
minhas felicidades, mais arrebatadoras.
Sem referendar o óbvio, daria a primeira
fatia à pessoa mais amada de todos à mesa.
Uma vez que acredito que a transparência
revela o quão complexa é a realidade, eu minto para conhecer melhor as pessoas.
No último dia do mês, narro os eventos
que aconteceram há quatro semanas e você não se questiona, aceita que aquela
manhã foi mesmo ensolarada, havia um joão-de-barro na palmeira e eu estava
alegre por completar mais um ano de vida.
Em paz consigo por assegurar-se das
minhas palavras, verdadeiras e autênticas, você não duvida que uma picape tenha
passado tocando uma valsa vienense, embora visualizasse a voz da Anitta.
Nem Anitta nem Strauss, apenas algumas
memórias a compor-me um escrevinhador de verdade, um legítimo inventor de
verdades.
Se você me lê pelo crédito que lhe
ofereço, ouça o vento bafejando palmeiras e primaveras, saboreie o bolo, brinde
com refrigerante e siga surdo aos flibusteiros que se negam a um mundo melhor.
Efetivamente! Melhora-me muito querer
melhorar o mundo.
Pelas circunstâncias da virtude, é
válido dizer o quão sinceras são as palavras que não digo ꟷ embora não as diga,
eu sugiro dizê-las.
Como não sou mentiroso à toa nem me
obrigo a desmentidos, estou certo de que só um tonto não sabe que um Jean
Cocteau não diria: “Eu sou, antes, uma mentira. Uma mentira que diz sempre a
verdade”.
Rodrigues
da Silveira
Ibiúna, dia 30 de novembro de 2023.
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