quinta-feira, 30 de novembro de 2023

O atontado

 

O atontado

 

Feito artefato explosivo, o canto do joão-de-barro detonou em mim um deslocamento abrupto de consciência: vivo entre fricções, pois as belezuras do mundo entortam o rebolado do cronista que faz de conta que não o deslumbra sambar sem os pés.

Nessa soalheira manhã, mais pacato do que pateta, eu descia a rua de casa quando o joão-de-barro implodiu-me em dois: o pedestre com um bolo nas mãos; o embevecido que mal disfarçou o enlevamento.

Ainda que o ninho com morango pesasse dois quilos e quatrocentos gramas ꟷ de acordo com o comprovante fiscal que me foi ofertado na doçaria ꟷ, busquei o cantor nas palmeiras e primaveras.

Conquanto o céu estivesse ensolarado, foi preciso que o pequenito cantasse de novo para que o avistasse no cimo de uma arvoreta, cujas raízes caminharam calçada adentro.

Como braços têm limite e porque eu não colocaria a embalagem no chão, alegrou-me não ter o celular comigo. Sem recursos artificiais: os olhos míopes captaram a figura do passarinho; no avesso da algazarra urbana, aquele canto humanizou-me pelos tímpanos.

Já em casa, com o bolo na mesa, pus-me à espera de que viessem os meus familiares mais próximos, e tão somente eles.

Embora me tornasse sexagenário naquele dia, não me percebi mais cansado ou triste; não me sentia de alguma maneira mais desmedido, a fim de revelar intimidades a qualquer um; não passaria a mentir mais que o habitual; as minhas banalidades não seriam menos melancólicas nem as minhas felicidades, mais arrebatadoras.

Sem referendar o óbvio, daria a primeira fatia à pessoa mais amada de todos à mesa.

Uma vez que acredito que a transparência revela o quão complexa é a realidade, eu minto para conhecer melhor as pessoas.

No último dia do mês, narro os eventos que aconteceram há quatro semanas e você não se questiona, aceita que aquela manhã foi mesmo ensolarada, havia um joão-de-barro na palmeira e eu estava alegre por completar mais um ano de vida.

Em paz consigo por assegurar-se das minhas palavras, verdadeiras e autênticas, você não duvida que uma picape tenha passado tocando uma valsa vienense, embora visualizasse a voz da Anitta.

Nem Anitta nem Strauss, apenas algumas memórias a compor-me um escrevinhador de verdade, um legítimo inventor de verdades.

Se você me lê pelo crédito que lhe ofereço, ouça o vento bafejando palmeiras e primaveras, saboreie o bolo, brinde com refrigerante e siga surdo aos flibusteiros que se negam a um mundo melhor.

Efetivamente! Melhora-me muito querer melhorar o mundo.

Pelas circunstâncias da virtude, é válido dizer o quão sinceras são as palavras que não digo ꟷ embora não as diga, eu sugiro dizê-las.

Como não sou mentiroso à toa nem me obrigo a desmentidos, estou certo de que só um tonto não sabe que um Jean Cocteau não diria: “Eu sou, antes, uma mentira. Uma mentira que diz sempre a verdade”.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 30 de novembro de 2023.

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