terça-feira, 21 de novembro de 2023

Noite de temporal

 

Noite de temporal

 

Não é à toa que me lamento, ouvira atentamente o que disse a gente sabida das coisas do tempo: os ventos que viriam vorazes provocariam chuva, lama e busca inflacionada por fósforo e vela.

Pitibiribas!

Da chuva que veio, e pouco importa por que furo de ozônio tenha o temporal evaporado, resta ter errado de lombada em lombada sem que aquela história fosse encontrada.

Aquela história, qual?

Aquela que minha mãe contava quando o mormaço grudava na pele, as roupas encharcavam, pesavam, então, dormir era muito dificultoso, e a história era contada de tal modo que o sono vinha.

Não me lembro dos pormenores, me recordo da maneira como era contada, então, reproduzir com fidelidade não reproduzo, mas sugiro.

“As nuvens passavam. O vento soprava numa altura tal em que só as nuvens podiam senti-lo. Era forte o bastante para apressarem-nas.

“Veio o momento em que havia muitas nuvens àquela altura, então, as nuvens não perderam a pressa com que o vento as tangia, então, o céu ficou nublado, preenchido completamente por nuvens.

“Com o céu atravancado de nuvens, o vento achou caminho abaixo, veio baixando, baixando, até sacudir a copa das árvores, até bulir nos arbustos, até mostrar-se arisco pra bicharada toda.

“As garças recolheram-se. As andorinhas copiaram-nas. Também os pardais, as maritacas, os bem-te-vis. Recolheram-se aos ninhos, as aves todas. Ao menos, a sábia maioria correu recolher-se.

“Lambida pelo vento, a anta abrigou-se.

“Lambido pelo vento, o tatu enfurnou-se.

“Lambidas e lambidos, cada qual fez o que deveria fazer.

“Para cantar o temporal, um sapo não sumiu.

"O tal sapo não se evadiu nem se acovardou porque desejava cantar a maravilha, o esplendor, a beleza terrível que estupefica.

“Quem correu esconder-se mal o vento começou foi o sapo que não sabia cantar, mesmo seus coaxos ele cessou porque não queria que o vento soubesse dele, não queria de jeito nenhum que o vento achasse onde estava.

“Os estrondos de tronco caindo não assustaram o cantor.

“Os repentinos relâmpagos impressionavam, maravilhavam-no.

“O cantor era antes um poeta, era poeta da estirpe dos que cantam a fascinação dos abismos, vinha da linhagem dos poetas que fascinam os abismos, um ser abismado que os abismos invocam para si.

“A coruja que não temia o temporal, não temia o furor do temporal, a tal coruja sequer piscava, sequer piava, sequer se quis seca, todavia ela observou, observou, ela somente se manteve observadora, tão fiel a si no propósito da sua observância que sequer o cantor, a anta e um jacaré que passou despercebido ao lado de um tronco abatido por um raio, ninguém ousou dizê-la à toa no charco.

“Como não era tonta, sonsa, abestalhada, como não era andorinha sequer era anta, quis o corpo da presa rasgado por suas garras e bico, então, o sapo que sabia cantar foi seu pasto.”

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 21 de novembro de 2023.

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