Noite
de temporal
Não é à toa que me lamento, ouvira
atentamente o que disse a gente sabida das coisas do tempo: os ventos que viriam
vorazes provocariam chuva, lama e busca inflacionada por fósforo e vela.
Pitibiribas!
Da chuva que veio, e pouco importa por
que furo de ozônio tenha o temporal evaporado, resta ter errado de lombada em
lombada sem que aquela história fosse encontrada.
Aquela história, qual?
Aquela que minha mãe contava quando o
mormaço grudava na pele, as roupas encharcavam, pesavam, então, dormir era
muito dificultoso, e a história era contada de tal modo que o sono vinha.
Não me lembro dos pormenores, me recordo
da maneira como era contada, então, reproduzir com fidelidade não reproduzo,
mas sugiro.
“As nuvens passavam. O vento soprava
numa altura tal em que só as nuvens podiam senti-lo. Era forte o bastante para
apressarem-nas.
“Veio o momento em que havia muitas
nuvens àquela altura, então, as nuvens não perderam a pressa com que o vento as
tangia, então, o céu ficou nublado, preenchido completamente por nuvens.
“Com o céu atravancado de nuvens, o
vento achou caminho abaixo, veio baixando, baixando, até sacudir a copa das
árvores, até bulir nos arbustos, até mostrar-se arisco pra bicharada toda.
“As garças recolheram-se. As andorinhas copiaram-nas.
Também os pardais, as maritacas, os bem-te-vis. Recolheram-se aos ninhos, as aves
todas. Ao menos, a sábia maioria correu recolher-se.
“Lambida pelo vento, a anta abrigou-se.
“Lambido pelo vento, o tatu enfurnou-se.
“Lambidas e lambidos, cada qual fez o
que deveria fazer.
“Para cantar o temporal, um sapo não sumiu.
"O tal sapo não se evadiu nem se
acovardou porque desejava cantar a maravilha, o esplendor, a beleza terrível
que estupefica.
“Quem correu esconder-se mal o vento
começou foi o sapo que não sabia cantar, mesmo seus coaxos ele cessou porque
não queria que o vento soubesse dele, não queria de jeito nenhum que o vento
achasse onde estava.
“Os estrondos de tronco caindo não
assustaram o cantor.
“Os repentinos relâmpagos impressionavam,
maravilhavam-no.
“O cantor era antes um poeta, era poeta
da estirpe dos que cantam a fascinação dos abismos, vinha da linhagem dos
poetas que fascinam os abismos, um ser abismado que os abismos invocam para si.
“A coruja que não temia o temporal, não
temia o furor do temporal, a tal coruja sequer piscava, sequer piava, sequer se
quis seca, todavia ela observou, observou, ela somente se manteve observadora,
tão fiel a si no propósito da sua observância que sequer o cantor, a anta e um
jacaré que passou despercebido ao lado de um tronco abatido por um raio,
ninguém ousou dizê-la à toa no charco.
“Como não era tonta, sonsa, abestalhada,
como não era andorinha sequer era anta, quis o corpo da presa rasgado por suas garras
e bico, então, o sapo que sabia cantar foi seu pasto.”
Rodrigues
da Silveira
Ibiúna, dia 21 de novembro de 2023.
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