Ou
seja
Ontem você passou e me viu, mas, com
pressa, provavelmente indo almoçar, você sequer me acenou.
Hoje você tornou a me achar na esquina. Como
devia ter almoçado, pessoa simpática que sabe ser, você possivelmente pretendia
inteirar-se do que estava acontecendo comigo.
Coube-me a descortesia de franzir a
testa ao grunhir que estava pra poucos amigos, e você, pessoa amiga que não
contava comigo assim, troglodita encarnado, você reagiu, que eu fosse pro
inferno.
Já estava lá.
Sem disposição para comentar o que se
havia passado comigo, eu voltei atrás, despi-me do camarada odiento.
Gosto de queijo minas. Gosto de
goiabada. Gostar disso e daquilo não acarreta que eu goste de Romeu e Julieta,
embora eu goste.
Eu como queijo quando quero,
independentemente de que me seja oferecida goiabada. Me chateia quem me rotula
apreciador de Romeu e Julieta apenas porque gosto de queijo e goiabada. Posso
muito bem gostar separadamente.
Gosto da noite. Gosto mais ainda da
noite de sexta. Também gosto de pizza. Mas eu gosto tanto de pizza que a como
quando quero, pode ser na noite de sexta ou no almoço da quarta, ou seja, no
instante em que me dá vontade de papar uma muçarela com guaraná.
Cuido eu das minhas vontades, poxa.
Você poderia ter ido em frente. No
entanto, parou. No entanto, ouviu as minhas miudezas. Contudo, soube ser inútil
a alguém inutilizado por ideiazinhas subjetivamente, individualmente minúsculas,
de boboca.
Continuei mesquinho, subjetivo, um
indivíduo de mal consigo e com os demais. Continuei travado. Sequer formulei a
questão:
Que sei eu da máquina psíquica que me
põe ranzinza?
Você deu-me as costas. Soube ir cuidar
da vida, da sua vida, pois da minha, ao saber-me um babaquara, sequer da minha
vida eu estava em condições de cuidar.
Sei que vivo apegado ao dia a dia, que vivo
pautado pelos afazeres de cada dia, que eu sou muito útil quando o mundo me
considera capaz de resolver problemas. Útil, porém, quando me entrego.
Todavia na esquina ontem e hoje e amanhã
também, pelo jeito que a minha rispidez revela-me hostil, é preciso passar
reto, ignorar-me, ir fazer uma aposta, ir tomar um refrigerante, ir sentar na
praça, nem que seja tão somente para limpar as sujeirinhas das unhas; ir-se.
Não vou. Não mudo um passo. Eu fico na
minha. Deixo a realidade circunscrever-me no mundo da lua, viajando na
maionese, vivenciando hipóteses astrais, mergulhado em mim. De todo, um inútil.
É bem gostoso não pegar gosto pela
aporrinhação cotidiana, dá pra afagar Argos sem irritar Penélope, dá pra
cavalgar Bucéfalo ainda que Alexandre nem saiba disso; e bebericar uma chávena
de chá, será que isso também dá?
Ou seja, a sanidade cobra inutilidades: tragam-me
goiabada, queijo e guardanapo; tragam pastel, guaraná e mais um guardanapo; depois
a conta me será cobrada por comer, beber e rabiscar.
Rodrigues
da Silveira
Ibiúna, dia 23 de novembro de 2023.