terça-feira, 30 de maio de 2023

Sumidade

 

Sumidade

 

Aquele homem nem disfarça, gosta mesmo de ser do contra; sobre seja lá o que seja, diz-se que é pessoa livre, autônoma, independente, um pensador que não se sujeita; no fundo, se o carimbo de gente livre for examinado de perto, é evidente que a tinta ꟷ nem a cor verde nem a azul são empregadas, só o vermelhoꟷ não infunde fundamentos nem enraíza fundamentações, apenas mancham o caráter, contaminando a leitura da sua aura, essa aura em cujo espírito o ser humano de ideias precisamente dignas e sóbrias gera a identidade oportunista de quem sabe ganhar a vida, ainda que não assuma o otimismo.

Tal otimista não avalia como estapafúrdias as opiniões que dispara assim que a comichão acossa-o. Seus dedos são rápidos na digitação, seus olhos são pródigos em leitura enviesada, em seus lábios abunda a saliva do satisfeito. Pelo êxito alcançado: milhares de curtidas a cada postagem, milhões de neurônios recompensados pelo reconhecimento do seu afeto fundamental, que é contrariar a corrente majoritária que impregna com sensatez a mente da nossa gente.

“Tem brasileiro que samba ao ter sofrido outra derrota”: a primeira ideia estapafúrdia que o otimista que sabe contradizer-se teve durante a noite passada foi que a ventania uivante garantia que o final das eras aconteceria assim que a chuvarada caísse, rios transbordassem, ruas restassem alagadas e não fosse mais leviandade afirmar que os raios eram raios tão somente raios.

Duvidar do apocalipse no seio da madrugada? Céus!

Sendo um temporal, cadê que não se escutaram os estrondos? Isso foi o que foi, que o mais assustador da noite foi que houve relampejos, os clarões terríveis, e nada disso foi evidência que o fim do mundo iria ser escuro, silenciosamente apagado, aquele breu só.

Afeiçoado a repentes apocalípticos, o homem foi às compras.

Lá ele encontrou quem gosta de felicitá-lo ao encontrarem-se; e por nada, por qualquer coisa, como se a felicidade girasse feito o girassol, ao léu desses encontros circunstanciais.

A segunda ideia idiota, ele a pensou assim que se livrou do abraço: que o sol da lágrima não aquece a língua da gente porque não é sol, é sal, é amargo, e o sal da lágrima não é dor nem sofrimento, nem sequer dá paixão à alma.

A terceira idiotice veio da segunda, que ele não tinha como assumir a autoria daquela besteira, porque ele diz o que diz e esquece, vai em frente, como se a chuva caída de madrugada não tivesse acarretado o alagamento da rua nem que os bombeiros não vieram socorrer as duas mulheres, a cacatua, a calopsita e aquele gato angorá, que, por conta daquele olho esbranquiçado, é o Simão.

Comentaram que o homem que gosta de ser do contra não merecia audiência, que ele era uma pessoa nefasta, alguém indigno de dó, até porque ele repassou: “a gente quer bem o próximo quando está bem, o contrário é vulgaridade hipócrita”.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 30 de maio de 2023.

domingo, 28 de maio de 2023

Na retranca

 

Na retranca

 

Eu estava pensando em sair, mas chegou visita.

Pra minha diversão, quem veio nem teve o cuidado de perguntar se desagradava-me a sua chegada. Chegou e pronto: que fosse recebido com a simpatia costumeira, sem salamaleques.

Incapaz de mimimi, e por cultivar os bons modos de gente educada, eu não retruquei que fosse logo se sentando na minha poltrona.

Porque visita tem o privilégio de estar sempre com a razão, e antes que as costas indicassem desconforto, até lhe atirei uma almofada.

As pessoas que convivem comigo acham-me razoável. A elas o que vigora é a postura de sujeito que só explode quando bem contrariado.

Irreverências à parte, só tenho louvores a fazer a quem enxerga as qualidades que consideram primordiais em uma pessoa agradável, que nem eu, gente evidentemente nascida para bem servir.

Por possuírem um conhecimento profundo sobre mim, por saberem que sou fleumático, com enraizados acentos civilizados, escusando-as de elogiar-me a afabilidade, sinto-me gente verdadeiramente polida se abusam e tratam de extrair de mim o meu melhor.

Bem-criado, em vez de ter oferecido água, preferi os ouvidos.

Na verdade, ofereci água; não apenas um copo d’água, pois ofereci a escolha: água gelada ou nada.

Ora, estou ciente de que as boas maneiras dão-me consciência de que posso gentilezas e cortesias, que jogar a favor da identidade como bom jogador é apostar em mim como gente pragmaticamente servil.

Se posso ser útil, ainda que isso me vulgarize um serviçal esforçado aos olhos de quem sabe que sou capaz de vaidades menos banais, é perfeitamente natural que eu me realize gentil, cortês e aprovado.

Aprovo minha atitude, que a visita perceba que posso deixá-la leve, motivada a falar, porque eu sei ser o bom ouvinte.

E eu ouço o que o meu coração canta: que o corpo sente que é bom o pulso seguir tranquilo, leve, tão leve e tão tranquilo que minha mente capta o impulso constante que gera uma alegria serena.

Gente amena que sorri quando entende o mundo durante uma visita ao meio-dia, não me abate a felicidade que é a revelação desta faceta de ser humano feliz, alegre e satisfeito.

Se minha generosidade estivesse condicionada a biscoitos e sucos, eu me implicaria em separar as visitas: aquelas merecem ter estragada a saúde com salgadinho de camarão e estas, pessoas amigas que não se rebelam por ninharia, nego-lhes o copo estupidamente gelado.

Camaradinha a quem não me cativam os confrontos com o mundo, prudente ao refletir: que o sorriso de anfitrião desarmado comprovasse a ânsia de ser melhor compreendido, feito tolo.

Como perna de pau que não sabe fintar o instinto, abri o jogo:

ꟷ Vamos almoçar?

Ela tinha acabado de acender um cigarro, baforou-o, bateu a cinza no vasinho de violeta e, na marca da cal, foi elegantemente sábia:

ꟷ O que você ficou fazendo até agora que ainda nem almoçou?

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 28 de maio de 2023.

quinta-feira, 25 de maio de 2023

Zona de conforto

 

Zona de conforto

 

Para entrar no quarto, a porta foi aberta.

Como passara a manhã na rua, até se esquecera dos motivos pelos quais tinha que deixar fechada aquela porta.

Se tivesse dado crédito à sensação de que sair de novo seria o mais aconselhável pra lidar melhor com o momento, pois um picolé sempre cai bem quando a mente parece que está pedindo uma lufadinha de ar no rosto, uma boa caminhadinha à toa pelas alamedas do bairro, uma paradinha na praça pra maravilhar-se com os passarinhos que pipilam, cantam e, cantando, dizem que o mundo segue o seu curso.

Uma vez aberta a porta, percebe que não valorizara a intuição que tivera: o melhor teria sido mesmo ter entrado no quarto, não agora mas pela manhã, depois do café.

Se não tivesse saído pagar contas, em vez de tomar o quarto como mais outro campo de tarefas infindáveis, poderia vencer o esgotamento com um sorvetinho na praça.

Não que o raio caído tenha esvaziado o cérebro, o pressentimento basta pras mangas morais serem arregaçadas, pra que o cansaço não dê raiz a doença.

O cérebro conscientiza-se de que está cansado enquanto trabalha, e limpa o chão do quarto. Tira as roupas do chão. Tira o pó dos móveis. E varre o tapete, varre a flor de fiapinhos do tapete. Coloca os tênis no armário. Faz uma nova pilha com os livros que não foram lidos. Monta a pilha de livros que anda lendo antes de dormir; empilha-os no criado ao lado da guarda da cama. Limpa o abajur. Consulta o celular, nega-se a responder as mensagens. Limpa o celular. Cospe na tela e limpa. Varre o vão entre o tapete e o criado. Tira o pó do anjinho de plástico acima da guarda da cama. Limpa a Bíblia da Barsa. Limpa as imagens de Nossa Senhora de Fátima, Nossa Senhora de Medjugorje e Nossa Senhora Aparecida. Limpa cada uma das contas do terço que fica lado a lado com o anjinho que brilha no escuro.

Pleno de Deus em todo canto, por sombra e luz, Deus não brota no quarto, não é saliva, é o ar que se sente na respiração, que se respira.

Deus são os grãos de areia passando pelo poroso da mente, porque a mente cansada acumula-se de Deus, que as fissuras não Lhe barram a passagem, porque a mente cansada percebe a presença divina pela continuidade dos grãos, que a luz divina faz-se calor, vira água, nuvens são o rastro, o pensamento pipocando na mente, dão carne ao brilho, passam mas aderem, são cores, manchas de calor e água, o cansaço que pensa é cérebro a se retroalimentar.

Deus é presença contínua, não se ausenta, não falta, os seus grãos vão passando, aderindo sem assoreamento, sem afogar a correnteza, sem interromper o fluxo, tornando mais e mais perceptível o cansaço, mas com a sutileza de um cansaço moral que não se impõe como dor nem obstáculo pra fazer, a consciência é feita enquanto se faz.

Por óbvio, quarto arrumado, a pessoa que se deita para tirar a sua pestana só pode mesmo chamar-se Felícia ou Feliciano.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 25 de maio de 2023.

terça-feira, 23 de maio de 2023

A homenagem

 

A homenagem

 

No e-mail, a pessoa informa que nos conhecemos em uma escola, fomos convidados a falar a alunos sobre meio-ambiente e palestramos sobre as coisas do clima como poetas bem-humorados.

Faz anos que não cometo poemas, por isso não me recordo do que sequer palestrou àquelas alunas e àqueles alunos o tal bem-humorado que eu teria lá me apresentado.

A legenda da fotografia anexada identifica: exibindo, sorridentes, os nossos certificados, ladeamos a professora que nos convidara para o bate-papo com os estudantes.

Diante desta prova material, embora não guarde maiores detalhes do muito que realizei ao longo da vida, já fui gente certificada.

Como escassamente chegam os convites, sem estar em dívida com quem me procura até que eu seja encontrado, recuso-os.

Há quem se ofereça para comprar um exemplar dos meus livros; há os abusados que incluem outra cópia, autografada, para a biblioteca ꟷ mas respondo com firmeza a quem me assedie: não se empolgue.

Pelo visto, eu era um camarada animado, aceitava tudo de primeira, até conversar sobre reciclagem e compostagem do lixo.

Se me faltava conhecimento, fazia gracinhas. Com as informações que houvera pesquisado, pra arejar o ambiente, eu brincava.

Fazendo rir, achava que conseguia convencer que o entretenimento não era um disfarce, era um jeito de passar o tempo de modo divertido.

Eu acreditava, como ainda hoje eu acredito, que a informalidade me ajudava a suportar minha timidez e a minha insegurança.

Eu atuava e minha espontaneidade era um truque para envolver as pessoas. Eu improvisava e me enrolava, mas despistava, queria o riso, pois, embora surgissem incoerências e contradições, as pessoas não duvidavam que aprendiam sem dor enquanto riam.

Improvisação é instrumento para a surpresa, pois surpreender-se é produzir desvio, mudança de rumo, revisão, é retomada por ângulo não calculado. Surpreender-se é descobrir-se novo, fazer-se outro. E sem medir o próximo passo, coerente e alegre ao mesmo tempo, a pessoa que sabe rir de si é capaz de esconder-se a olhos vistos.

A partir da leitura deste e-mail inesperado, sinto que estou mudado, sinto-me livre de muitas daquelas ansiedades.

Hoje eu entendo que cada novo bate-papo era um palco que a mim era oferecido. E eu ocupava cada um deles com desembaraço porque gostava de estar no centro, me animava saber que eu era invejado por meu talento pra agir naturalmente.

Hoje não quero mais aquela confiança: fosse qual fosse a situação, eu perseguia o apoio de quem interagia com alegria.

Frente às demandas do mundo, respondo-lhe:

“Caro confrade, para falar com sinceridade, preciso saber o que tem feito, os prêmios que anda recebendo, quais postagens têm provocado rebuliços.

“Por respeito, enviar-lhe-ei no prazo a devida homenagem.

“Ao poeta que salva o dia, um fraterno abraço”.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 23 de maio de 2023.

domingo, 21 de maio de 2023

A noite do sereno

 

A noite do sereno

 

Para diminuir meu cansaço, foi-me recomendado que mantivesse a tranquilidade por um dia, todo, as vinte e quatro horas, porém no último quarto, na madrugada, latidos na vizinhança me acordaram.

Como o cotidiano não se pauta somente por orientações razoáveis, sem nem pensar nisso, acordei, mas eu não precisei me acalmar.

Os cães latirem, algo banal, não foi o que me levou ao micro.

No computador tenho instalado um programa de monitoramento por câmera e a parte externa da casa pode ser vigiada.

Embora tivesse tomado uma sopa à noite e bebido um copo de leite quente pouco antes de deitar-me, o tumulto me atiçou à curiosidade.

Como as máquinas funcionavam, eu não estava às cegas.

Além dos muros, nenhum gatuno atrás dos limões verdes. No meio do quintal, nada de gatos assanhados. Na lavanderia, roupas pegavam a umidade da noite.

Só que os cães não paravam.

As câmeras da frente de casa também estavam ligadas.

Nas calçadas, ninguém. Sob a marquise do lado de lá, ninguém. Os automóveis, todos estacionados como sempre.

Por que latiam tanto?

De repente, escutei um barulho. Tinha alguma coisa no telhado.

Não tenho arma de fogo em casa, tenho telefone. Se fosse o caso, pediria que enviassem uma viatura. Queria não precisar que a polícia viesse, mas, de modo nenhum, eu bobearia. Como os cães do vizinho latiam sem parar, poderia realmente ter ladrão.

Fiz bem em não me afobar, porque as ações monitoradas contaram: de cima da casa, veio uma coruja; no chão, as garras da ave cravaram num rato.

Já coruja e rato sumirem limoeiro adentro, eu supus.

Com o desfecho, a cachorrada largou do escarcéu. Restabelecido o silêncio, deitei-me e eu logo adormeci.

A madrugada foi fria, mas eu estava bem aquecido; por acolchoado e meias e touquinha de lã, estava muito bem aquecido.

Dormi tranquilo. Não porque não sonhei com a caçada noturna, pois eu estava naturalmente calmo. Não precisei tomar remédios nem tomei outro copo de leite, nem mesmo morno, pois ter tido um dia em que as coisas transcorreram-se de modo sereno favoreceu a chegada rápida do sono.

Acredito que a tranquilidade possibilitou aquelas minhas boas horas de sono.

Pouco depois do café, quando fui verificar se o portão dos fundos do quintal ainda estava com o cadeado, foi que achei a cobra morta.

O mais estranho é que não acordei com o alvoroço dos cachorros, que deve ter acontecido, porque aquela matilha pequena, formada por três animais, sabia fazer uma barulheira e tanto.

Se a coruja atacou a cobra, aquele circo canino deve ter acontecido outra vez, mas, sem nenhum lamento, não fui acordado novamente.

Como despertei bem-disposto, atribuí à calmaria noturna do quintal, ao silêncio dos cães ou à cama quente ter conseguido dormir sem me sobressaltar com outra algazarra.

E foi pra ver nascer grama ou tiririca que cavei rasa a cova da cobra.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 21 de maio de 2023.

quinta-feira, 18 de maio de 2023

O foco

 

O foco

 

A apresentação dos eventos pode ser dada com o realismo do osso, que é o que dispõe ereta a cerviz, no epicentro do que é dito: na manhã de outono dessa cidade: à sombra, o friozinho; vinte graus ao sol.

Qual é a versão da mulher sobre o que teria feito?

Ela não punha em dúvida de que chegara a tempo. Embora o último sinal tivesse sido tocado, era imperativo que o seu filho entrasse.

Para que não acabasse atrasada pro trabalho, ela pediu ao inspetor que fosse permitida a entrada imediata do seu menino.

Ela insistiu pra que lhe dessem a permissão pra correr à sala porque haveria prova e seria uma injustiça o seu filho ficar com zero por causa daqueles cinco minutos.

Achando-se convincente, a mulher narrou que: houve um problema com o despertador, que não tocou na hora; houve um problema com o gás, cujo botijão achou de esvaziar bem na hora de ferver a água a ser usada para fazer o café; houve um problema com a partida elétrica do carro, justo no instante em que acabou ciente, pelos dígitos do celular, que avançaram os atrasos: dela pro trabalho, do filho pruma prova.

Certa de que estava no direito de apontar terceiros como culpados, a mulher disse que o problema não fora agravado por ela, uma vez que a sirene tocou antes do horário. Sem dúvida! Seu menino tinha o dever de fazer a prova, mas ninguém podia sacanear com ambos: o seu filho nunca faltava, nem mesmo tossindo; e ela jamais admitiria ser vista no papel de vítima, ainda mais num processo tão abjeto.

Contudo, o inspetor de alunos disse que: o relógio da escola estava certo; o portão foi fechado no momento certo; a mulher estava certa ao reclamar como um direito de seu filho tirar nota maior do que zero, mas qualquer valor acima de zero era dever do professor não atribuí-lo, nem a um aluno cujo atraso do dia de ontem deu-se porque o seu cachorro teve de ser levado às pressas a uma clínica, nem ao citado aluno que, realmente febril e mesmo tossindo, veio ao dia de prova, veio, portanto, para confirmar por atos seu envolvimento pessoal com o futuro, como cidadão que conhece e preza os preceitos da Constituição Federal, um dos quais assegura que todo mundo é igual perante a Lei.

Por deferência às regras, o funcionário disse que a mulher atrasada responsabilizava-se pela acusação de que o relógio da escola estaria adiantado em cinco minutos, mas que só responderia verbalmente pela dita acusação porque teria mesmo de passar pela leitura biométrica da sua chegada ao posto de trabalho, sofrendo desconto do ordenado de acordo com o tempo de atraso.

Para maior credulidade, desloquemos o nosso olhar para a porta de entrada dos alunos que estão atrasados, pois aí o encontramos: assim como consultava as suas redes trinta minutos antes da saída de casa, o carinha nem dá pelota pros vinte graus Celsius, bacana é o Papa do Casacão atendendo o telefone lá no Vaticano.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 18 de maio de 2023.

terça-feira, 16 de maio de 2023

Censura livre

 

Censura livre

 

Abro a porta e Dona Cremilda, “este presidente não me representa”, chega de zap aberto pra mostrar que o meme inteligente, que debocha no ponto justo, fala por ela.

Tenho paciência, mas paciência não é condescendência. Peço-lhe que diga por quais razões a imagem merece aprovação e publicidade. Faço-o, não por ter achado o meme, que associa uma pessoa de roupa laranja com a marca de certo refrigerante laranja, uma piada fácil, faço-o, pois cabe à Dona Cremilda falar o que pensa.

Ao vê-la contrariada, cujo semblante diz que pessoa inteligente não precisa que lhe expliquem a sacada de uma piada engraçada, confirmo o desembaraço: quando aguardam benevolência, ajo com a tolerância de quem ri por dentro.

Seria divertido se me negasse espirituoso no que digo, mas ser uma pessoa preconceituosa não é bonito, lindo é chatear quem aborrece.

Faz bem ser o chato; mesmo que não levite, eu sinto.

Meu método pra levitação é simples: tolero como favas contadas as características que as pessoas elegem pra diferenciá-las das demais.

Dona Cremilda segue algumas figurinhas das redes sociais, mas só troca mensagens com quem pensa a vida tal qual ela pensa.

Discricionária, Dona Cremilda tem consciência de que é preciso ser rigorosa com o critério. Ela acha correto compartilhar o que as estrelas escrevem na internet, mas, do que vê, ela aprova apenas o que é útil, o que sirva de ajuda, ou o mundo seria pior. Sem precisar ser inventado a cada post, a Terra tem que ser esse lugar menos terrível.

O mundo horroriza porque não é mais como foi nos idos da infância: lá, quem trabalhava fora era o pai; lá, sua mãe cuidava do dia a dia da casa; lá, na ausência do pai e da mãe, quem lhe devia obediência eram os seus irmãos mais novos. Poxa, a sua casa era o mundo.

Dona Cremilda compartilhar o meme da Fanta é seu direito, mas a mim me parece mais engraçado irritá-la.

Se Floriano, Vargas, Juscelino ou Collor estivessem na presidência, a senhora os julgaria como seus dignos representantes?

ꟷ Quem vive de passado é colecionador de selos.

Dona Cremilda, curtidas carimbam, são a sua chancela pra memes, fotos e opiniões. Páginas são álbuns, e a senhora vai preenchendo-os, seja por amor, seja por raiva.

ꟷ Minhas redes só têm figurinhas de valor acentuado, pois não vou na onda. Eu só cancelo quem tem mesmo de ser cancelado. Sigo quem tem verdades pra dizer. Porque as verdades incomodam quem espalha mentiras, acodem os bobinhos seduzidos pelos espertalhões, afastam da beira do abismo quem pensa que basta falar que honra pai e mãe pra honrá-los de fato.

Sou paciente, também tolerante, mas o complacente pisca gostoso, para que diga o sal da ojeriza.

ꟷ Agora diga se estou errada no que vejo: quem casou com a fulana aparecida foi esse danado de sapo. Mas, olhe direito. Se a ridicularizo pela foto, é porque a censura ainda é livre.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 16 de maio de 2023.

domingo, 14 de maio de 2023

A confissão

 

A confissão

 

Por estar com dor na mão direita, estou impedido de escrever. Com tempo pra pensar, penso na ociosidade.

Sem nada para fazer, a pessoa fique à vontade para ter ideias. Sem necessidade de que suas ideias formulem respostas aos problemas do mundo, pense espontaneamente. Aliás, ideias gratuitas não precisam ser aberrantes, porque ideias familiares satisfazem a alma ociosa tanto quanto os pensamentos mais severos. A quem não apraz render-se ao choque pelo choque, a liberdade sugere à mente entusiasmar-se com ângulos não usuais. Ou seja, libertar-se é revelar-se felizmente outro.

Assim, ao destro impossibilitado de redigir a lápis, a felicidade pode estar na digitação com o indicador canhoto. Digito, logo eu sou feliz por catar milho enquanto penso. Alegro-me por ter encontrado a superação da dificuldade: com o dedo indicador, digito letra a letra; com o polegar, dou espaço. Tecla a tecla, as palavras brotam na tela; todavia a crônica ganhar corpo não enche a minha pança porque a fome que sinto é fruto do desassossego. O que quero dizer com desajuste? Não temo que as ideias sucumbem na cachola, meu desapontamento é comigo, pois sou sagaz o bastante pra registrar apenas as últimas impressões, uma vez que as originais estão dobradas, emaranhadas, enoveladas. Angustio-me, pois o fio a ser puxado talvez nem resista se esticado. E angústias dão esse nó, o pânico da página em branco. Enfim, preciso me segurar da euforia, preciso dosar a confiança na razão, pois ela não se mantém o tempo todo no comando, como se manejasse minhas vontades com alguma autoridade inquestionável, e verdadeiramente justa. Por sabê-lo um pensamento ilusório, isso de crer que ideia puxar ideia possa me entreter, isso empaca. Comigo empacado, haja frustração.

Já o sol...

Como o sol nada tem de decepcionante, largo a escrita da crônica.

Saio do quarto, mantenho a porta aberta. Passo pela sala, ignoro a TV desligada. Deito-me na rede da varanda; não, não esqueci o micro ligado. Ligado, o computador que fique de prontidão.

De repente posso confiar que posso dar conta do que posso pensar de repente, porque, assim, a confiar de novo que posso acompanhar a correnteza da vida, posso cochilar de olhos abertos.

Há tanta gente na rua. Há tanta vida no esgoto do meio-fio. Há o sol que brilha sem saber de mim que estou me preparando para escrever a crônica. Na rua, há dois meninotes chutando uma bola de plástico; o que irrita alguns motoristas, que buzinam e xingam e querem, na real, é juntar-se aos garotos nessa alegria gratuita que é chutar bola no meio da rua, como se a vida não cobrasse da gente um pouco mais de vida, outra vida festiva, outra vida alegre, uma vida mais gostosa, e com refri ou sorvete, ou ambos.

Agora, a vida são crianças a chutar de primeira, a dar de letra, a dar de bico, a cabecear de olhos fechados.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 14 de maio de 2023.

quinta-feira, 11 de maio de 2023

Canoa furada

 

Canoa furada

 

Em pé numa escadinha, perco o equilíbrio porque pedem algumas palavras sobre a Rita Lee. Pelo enfoque, falar da morte da cantautora, faz sentido bater-me com o espanador. Mas só depois de reequilibrado é que me bato com o cabo; e uma batida basta pra constatar que estou mesmo desnorteado.

Pasmo de susto, justo eu que me asseguro que os arroubos sempre dão merda. Descontrolado, não hesito e me machuco. Exagero, e trago à pele o amor de fã. Logo quem odeia fanatismos, amo de paixão.

Não me envergonha o quanto dói a notícia.

Não fantasio. A dor lateja, pulsa, faz brotar a aflição. Meu corpo é a dor que aflige, e arrepia. O coração, a espinha, a cabeça, olhos, língua e ouvidos, estou mexido. Respiro com dificuldade. Com as dificuldades de pensar em pé na escadinha, ainda respiro.

Embarcado nessa canoa furada, remo rio acima e rio abaixo, a favor da correnteza, contra, remo porque remar é o meu jeito de lidar com a certeza da perda, com o ganho que possa ter. Remar é redimensionar-me. Não imagino: me afoga o que vivo; me afogo no que vivo. Faço da água a fonte, o rio, a canoa. E o que me faz vivo, eu experimento.

E essa, agora: viver é navegar numa escadinha?

Lutar para não cair, brigar para não afundar, batalhar pra subir, pirar pra ficar à linha d’água, beber da água, mijar n’água, sentar no degrau, descer um, descer outro, brigar para não pular, voltar a subir, pois sim: viver é manter-se de pé em uma escadinha.

Esta metáfora não é muito feliz; ela, no fundo, é ridícula.

Mas não é ridículo rir de si. Rir das próprias bobagens. Há situações que pedem o riso, que precisam do riso para serem melhor percebidas, para mais bem serem ingeridas, digeridas e excretadas.

Como diz Madame Lee: tudo vira bosta.

Orra meu! As coisas da vida, pepino e camarão; arroz e risoto; cerva e tubaína; uísque e cachaça; o pé-de-valsa e o rabo-de-saia; linho cru e a seda pura; bota e botina; o bocudo e o sisudo; carranca e pelanca; cocar e coqueiro; a cama e o sofá; ipê, saquê e a cana caiana; suruba e sururu; a mão amiga e a língua de sogra; o dente de alho e o olho de vidro; o dente de leite e a bala de prata; a colher de chá e a pá de cal; o papagaio do pirata e a mulher do padre, dão vida às coisas.

Faço festa. Acho bom me achar festivo. Ainda que a felicidade ande distante, difícil de vir, além do horizonte, nem que eu limpe a casa.

Não quero mais tirar o pó. Não quero saber dos livros empoeirados. Me desnorteio das palavras. Se os clichês falam da Rita Lee mutante, a mina maluca da Vila Mariana, puta, santa, a emponderada Santa Rita de Sampa, o meu discurso talvez constranja.

Criança distraída, nem noto que endosso os clichês que destacam, naquilo que todo mundo sabe, o que toda gente ama.

Então, carolas, caretas e cafonas podem xingar à vontade, mas eu não cancelo mais esta outra verdade, bem comum:

Rita Lee Jones virou pó; Rita Lee é para sempre.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 11 de maio de 2023.

terça-feira, 9 de maio de 2023

A busca

 

A busca

 

Alguém diz o que eu estava pensando nem faz um segundo, sorrio, porque a confirmação da ideia me tranquiliza. Penso o que mais gente tem pensado, isso indica que o tempo ao qual me vejo circunscrito está a me configurar como mais uma pessoa perpassada pelo momento.

Sem que me faça excluído do presente, posso opinar.

Por índole e idiossincrasia, trago o desejo de afirmação como o ser humano que posso representar: não me satisfaço nos confrontos; uma vez que é necessário o pertencimento a uma comunidade, não afronto meus semelhantes; entendo a felicidade compartilhada, porque a mim me compreendo como um a mais, caso não subtraia.

Tanta gente no mundo e tanto em comum, viver é concordar.

Tanta gente vírgula porque o meu mundo é pequeno, umas poucas veredas de uma cidade de não mais do que trinta mil habitantes.

Dentro deste meu mundinho, é ainda menor o círculo das pessoas que conheço, por proximidade amistosa ou esbarrões fortuitos.

Por último mas não menos enfático, destaco que as concordâncias com quem pensa como eu são fundamentais pro meu equilíbrio.

Estar bem de cabeça é meio caminho andado pra estar sintonizado com o pensamento do dia. E fazer o que me cabe é dar elo ao corrente. Sei, faço minha parte para que as situações transitórias de convivência urbana sejam geradas e monitoradas amiúde.

Amiúde, mas sem as banalizações que causem apatia ou tédio. Só vulgarizo a vida social envaidecendo-me da realidade cidadã.

Todavia, se a pessoa não tem resposta própria frente às azáfamas da vida, trato de ouvi-las; reflito sobre o que escuto e busco estabelecer as relações entre o que dizem e o que julgo ter compreendido.

Dispenso maiores cordialidades com quem não responde de pronto aos desafios da hora, pois é gente que titubeia, e flerta com o acaso.

O acaso é perigoso pelas dissimulações, pela máscara que afeiçoa, que constrói a imagem apropriada, que fabrica o que se espera como se a esperança fosse o xis da questão ou outra bugiganga.

Vermelho de raiva, não mais um democrata socialista:

ꟷ Pra evitar discussões pouco gentis, não argumentemos contra os juros altos, falemos do calor absurdo em pleno outono.

Amarelando de fome, operário atarraxado à máquina:

ꟷ Não falemos de água encanada e coleta e tratamento de esgoto, paguemos pelos dividendos estatais.

Verde por dentro e por fora, com a melancolia até o pescoço:

ꟷ Torremos o pasto das emendas ou procriaremos outros monturos com a mais azeitada das inteligências, a artificial.

Como sinônimos perfeitos são arapucas da semântica, raciocina o reacionário: digo farol, ouço semáforo, vejo o sinal.

Ignoro os noves fora?

Até pra não dar a impressão de que me desonram os bons modos, não sorrio feito besta, não ignoro quem me ignora e cumprimento quem sequer cumprimenta.

Fazer do não outro talvez com cara de sim, isso eu também busco.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 09 de maio de 2023.

domingo, 7 de maio de 2023

Coração bestificado

 

Coração bestificado

 

A taxista foi protocolar ao cumprimentar o passageiro, a quem pediu o endereço de destino e, antes da partida do automóvel, advertiu-lhe que colocasse o cinto.

Por conta da morosidade do trânsito, a motorista atalhou por becos e ruas transversais, o que alongou o trajeto mas encurtou o tempo de chegada.

Ela encostava o carro; ele tinha o valor exato da corrida.

Se soubesse que o médico atrasaria o começo da consulta, mesmo assim teria mantido as críticas à demora do táxi, que levou vinte e cinco minutos pra pegá-lo à porta de casa, onde ficou esperando por longos, esses longuíssimos vinte e cinco minutos.

Assim como foi educado ao deixar de dizer à taxista o que pensava, agradecendo-lhe como sói a quem educado, ele esperou calado que o cardiologista o recebesse com as banalidades usuais.

Continuava com aquele formigamento esquisito no braço esquerdo. Sentia agulhadinhas quando subia apressado uma escada. Demorava a pegar no sono. Embora mantivesse o copo d’água pra molhar a boca, não dormia. Mesmo sem perceber formigamento e quaisquer pontadas no peito, queria ouvir do doutor qual o diagnóstico exato do que estava acontecendo com o coração.

O médico conferiu os resultados de ecocardiograma, radiografia do tórax, eletrocardiograma, teste ergonométrico e exame de sangue: era um órgão nas condições esperadas a uma pessoa sexagenária.

Caso prosseguisse com formigamento e sensações sufocantes, ele agendasse nova consulta: pra solicitação de ressonância magnética e exames complementares de sangue, fezes e alergia à realidade.

Que o paciente evitasse os alimentos gordurosos, caminhasse uma hora por dia, dormisse bem, não se entupisse de notícias ruins.

O que é uma notícia ruim? A gordura da picanha é ruim pras veias? O preço da picanha afeta a circulação sanguínea? A cabeça pesa mais o que o coração já anda sentindo? Como dormir tranquilo sabendo que amanhã o quilo da salada vai mesmo estar mais caro? Tivesse nascido coelho, levaria facadas na carteira ao roer cenouras? Ostentasse alma de poeta, diria ditirambos à lua vista do táxi?

Sim, sempre vem outro táxi.

O trânsito seguia tóxico, mas o motorista era outra pessoa.

Como a lua tocou em cheio a sua alma lírica, disse-a bela. O lar de São Jorge punha feliz o dragão a ser vencido pela lança. Entre a ânsia pela próxima contenda e a alegria da vitória, o taxista era um poeta.

Pouco lírico, o passageiro queria ignorar a eterna guerra do dragão da maldade contra o santo guerreiro; nem pensava em escutar o disco novo do Jards Macalé.

Tirando fuligem e o para-brisa empoeirado, claramente ocorreu-lhe: haverá uma Associação de Poetas Anônimos?

Não outro círculo de poetas buscando a glória, mas um grêmio de gente que tenta não soçobrar aos enlevos rastaqueras.

Deixe estar que a lua nua o bestifique, coraçãozinho.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 07 de maio de 2023.

quinta-feira, 4 de maio de 2023

O grande teste

 

O grande teste

 

Preciso entabular uma conversa franca. De uma franqueza tal que só mesmo comigo eu consigo chacoalhar a minha galhardia de cidadão consciente da honestidade nas palavras.

O meu tabuleiro tem quitutes que me deixam preguiçoso, penso que não tenho que engolir brigadeiros, queijadinhas e quindins como se um telefone estivesse chamando, me testando.

Que coincidência! Mal eu penso: tem telefone tocando.

Aliás, nem me convidem pra festinha de marmanjo. Eu me conheço, fico à vontade quando digo que sou fiel à tradição de trair-me quando a pressão é pela estupidez. Embora produza pequenos estragos, acho notável que os adultos na sala usem bandejas como arma. Entre comer e defender-me, prefiro evitar a congestão.

Por leituras aleatórias soube que o estômago tem neurônios, o que me permite prever que panduio empanturrado afete as ideias. Uma vez que a leseira da cuca cheia possa gerar ideias das mais singelamente lógicas às violentamente estapafúrdias, reajo.

Pela razão de que sou pessoa com os nervos em dia, admito que é ridículo ir à varanda gritar que não preciso de celular pra confessar que as minhas virtudes de sujeito do bem fazem de mim um camaradinha astuto que não se esconde atrás do poste.

Postes têm lâmpadas; lâmpadas iluminam; e a iluminação da minha consciência quer deixar claro aos vira-latas bons de faro que não sou poste pra mijarem onde mais sou vulnerável, ao nível da calçada.

Aliás, nem toquem em mim quando falo ao telefone. Costumo tomar um susto quando o fluxo do pensamento é desviado. Isso de ser levado a entender o que pretende a mão que me agarre pelo braço é um fator desconcertante. Sim, por experiência, o mundo me desconcerta.

Que coincidência! Tem uma criança querendo atenção.

Olho pra baixo; o baixinho é velho conhecido; o infante quer que me abaixe, escute-o, que eu tome ciência do que tenho a dizer.

Como se falasse como eu falo com todo mundo, digo a mim mesmo que não tenho que atender o telefone quando ele está tocando. Talvez seja prudente eu deixá-lo sem som.

Pode ser que me queiram bêbado de euforia enquanto me vendem esse perfil de gente do bem que sabe que a digestão de picanha com guaraná é comparável à digestão de picanha com cerveja.

Que coincidência! Tem gente tocando a campainha.

A campainha está ligada, a porta está fechada, as cortinas estão cerradas; e por imaginar a cara de quem toca a campainha enquanto me telefona, eu fico eufórico.

Onipresente, onipotente, onividente, não apenas porque monitora a pressão, o pulso e o açúcar no meu sangue, tanto o telefone sabe mais sobre mim que ele já vem com a resposta sintomática:

ꟷ Posso ajudar?

Assimilado ao vício de não mais me corrigir por amargores, mesmo sem beijinho, o jeito é atacarmos o pote de napolitano que nunca falta no freezer.

Que coincidência! O menino que me abraça sou eu que o abraço.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 04 de maio de 2023.

quarta-feira, 3 de maio de 2023

Nem pro santo

 

Nem pro santo

 

ꟷ Seu Osman, o que me diz da volta da cobrança do sindicato?

O homem só moveu o charuto de um canto da boca para o outro.

ꟷ Romualdo, seu paspalho, o certo não é cobrança do sindicato, o certo é dizer que é contribuição sindical, não é, Seu Osman?

De volta pra esquerda, o homem moveu o charuto.

ꟷ Deixem ele em paz; disse a mulher atrás do balcão.

ꟷ Dona Josefa, a gente quer ouvir a opinião do Seu Osman porque ele trabalhou no sindicato até se aposentar.

ꟷ Dona Zefinha, Seu Osman trabalhou por mais de trinta anos sem nunca ter saído do sindicato, sempre fiel, né, Seu Osman?

O homem tirou-a, bateu-lhe a cinza e repôs a bituca na boca.

Trazendo em cada mão um menino, o pai pediu dois pastéis: um de queijo e outro de carne. Mas os filhos queriam, ambos, pastel de queijo e de carne, os dois. Se tivesse pimenta, queriam. Se tivesse mostarda, também queriam. Se o pai pudesse, queriam ainda um quibe cada um, desde que tivesse limão cortado na hora.

Pondo os salgados num prato, a mulher abriu-se em sorriso:

ꟷ As crianças de hoje em dia sabem bem o que querem. Dá gosto ver que fazem questão de pedir sem constrangimentos. No meu tempo da idade deles, era impossível de acontecer. Não se podia abrir a boca pra dizer qual a vontade que a gente tinha.

Quando ia enfiando na maquininha o cartão de débito:

ꟷ Não esquece da Coca família, pai.

ꟷ E tem que ser beeem gelada, pai.

Nisso, a TV exibia imagens relativas ao Primeiro de Maio.

ꟷ Aumenta o volume, Zefinha.

Apareceu um sindicalista, o presidente do sindicato que era o líder dos operários há mais de quarenta anos. Ele dizia da importância de o salário-mínimo ter aumentado. Pois os dezoito reais farão a economia girar. O povo não comprará somente o básico da sobrevivência. Além de bife, arroz e feijão, irá comprar um par de sapatos novo, realizará o sonho de ter um celular muito moderno. O mercado ficará satisfeito. A indústria aumentará a produção. O comércio facilitará o crédito. E todo mundo do Brasil vai sorrir outra vez. A dignidade do trabalhador estará no sorriso de quem paga as contas e pode planejar aquela viagem pra praia, pra montanha, pro parque aquático, pra pizza com a família. Pra dar o animalzinho de estimação pro filho caçula que tanto pede pra ter um pastor chamado Pequeno Polegar, igual ao do seu avô.

O homem que permanecera mudo durante a fala inteira do tal herói da classe trabalhadora, levantou-se, pediu café e virou o copo de vez; pegou um fósforo da caixa que ficava disponível para os fregueses em cima do balcão, acendeu o charuto; bebeu outro copo.

ꟷ Ouviu, Seu Osman. O trabalhador ajudará a reconstruir o Brasil. Ganhando mais, será feliz do jeito que tem que ser. Sem espertalhão pra doutrinar pra que não seja.

Sem abrir a boca, o homem pegou a gaiola ꟷ pena que o corrupião não cantou ꟷ e saiu.

Disse a dona:

ꟷ Seus idiotas, o nome dele é Altair, Altair Filho.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 02 de maio de 2023.

domingo, 30 de abril de 2023

A aura da inocência

 

A aura da inocência

 

Fotografias contam essa história que vai se desenrolando sem que se pense que ela pudesse ter sido manipulada, guiada pro sentido que garantisse coerência, ainda que as poses não escondam o recurso ao artifício, à virtualidade do espontâneo controlada pelo banal, pelo trivial de um cotidiano que se volta sobre si como originalidade, uma vez que o encadeamento das imagens narra uma identidade fictícia, obtida pela compreensão de que uma vida pode ser lida a partir do mundo passado pela sensibilidade, porque estes registros ideais permitem a revelação: um dia, esse garoto que não usava óculos passou a usá-los.

Adeus, menino triste.

Feita a transição dos fundos para a primeira carteira, a próxima foto, se não esconde a face do garoto de armação de tartaruga saboreando a manipulação freudiana da massa, acha-o deitado num colchonete.

Não é à toa que o assombrado está deitado, é para dominar-se, ter o controle físico da respiração. Na difícil prática de suportar-se sereno, é preciso esvaziar a mente, silenciá-la em tal grau que a entrada de ar nos pulmões não cale no cérebro a oxigenação necessária para que a consciência não apague o entorno.

Como festa atrai outra, embora o boca a boca alardeie que tomar cerveja por canudinho acelere a embriaguez, ficar doidão sem soluçar é assumir-se inepto pra bebedeiras, uma vez que, sem soluços, ânsias e ideias salvacionistas, pilequinhos apressados nem dão barato.

É preciso identificar autoridades que enchem a cara para remendar o mundo, a começar pela pátria. Mas, rebeldes que amam a revolução têm línguas, usam-nas também porque salivam pela carne.

É bom saber respirar. Faz bem livrar-se dos canudinhos. Age certo quem reaprende a viver pela dor. É bom crescer sem ser preciso.

Adeus, adeus.

De vez em quando, a terceira das fotos sobe à linha d’água. Respira e deixa respirar quem não se afoga nas mágoas, cujas cicatrizes não impedem que nuvens virem borrascas e copos enxuguem oceanos.

Ainda que o olhar não passe mais pelas lentes de Paulo Francis, as retinas seguem inquietas, severamente míopes, esteticamente éticas, retraídas à humildade; observe-se, um tanto torto.

Veja-se: há poucos dias do Natal, o shopping-center lotado, o rapaz anda em vão, a água do relógio prolonga a espera, as compras zanzam em sacolas, o barulho aumenta, pressiona, cola nos pensamentos, que os novos óculos digam que é possível arrancar a própria pele, trocá-la, desvestir-se em público.

Sorridente tagarela, adeus.

Da ótica do Iguatemi ao ponto da Rebouças: num fôlego, sem noção da caminhada; num lapso, sem a percepção de ter saído; noutra cópia de si, sombra desassombrada; sósia de si, tão familiar que estranha; o revelado se reconhece essa pessoa a reviver-se naquele 1984.

Grande Irmão, diga a que veio, não banque o sábio, perca a pose.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 30 de abril de 2023.

sexta-feira, 28 de abril de 2023

O amigo do Raul

 

O amigo do Raul

 

Se não tivesse dito que levaria os documentos, eu ficaria em casa. Como garoou a manhã toda, decidi que sairia depois do almoço. Faria o prometido, ainda que continuasse a garoar, porque meus atos teriam que falar por mim. Como contava ser julgado pelo que faria, nunca pelo que escamotasse, não adiaria o que tinha para fazer. Entre cochilar no sofá e cair na malha fina, enfiei os papéis num saquinho plástico e abri o guarda-chuva.

Evidente, na praça nua de árvores, as rajadas de garoa pediam que agisse tal qual os prudentes, e foi o que fiz, agi racionalmente.

A última vez que o coreto me abrigou acabei dormindo, tão bêbado. Todavia sóbrio, desta vez, não rememorei as varejeiras no vômito nem me apoquentaram as pessoas passando.

Lá ia a senhora que organizava a tarde dominical no salão da igreja. Não gostei do primeiro prêmio que ganhei, pois me pareceu mixuruca aquele jogo, uma vez que não sabia que um pote ficava escondido no outro, indo do menor para café ao maior para arroz.

Embora quisesse ganhar a bicicleta, nunca responsabilizei aquela dona pelas suas mãos aziagas. Embora a bicicleta nunca tenha saído pra mim, sequer às vésperas do Natal, também comprei para a mamãe as seis pilhas grandes pra que Nat King Cole cantasse no rádio.

Cá vinha o senhor que esculpia pequenas peças sacras, uns cristos em pau-ferro para oratórios de mesa. O bom homem nem sabia dar-se o devido valor pelo seu artesanato apurado, vendia tudo que punha na bancada, mas, todo mês, davam-lhe a esmola básica de uma cesta.

Cuidando para não escorregar, ia indo a cantora das pedras; vinha vindo devagar o entalhador de ébano; e a ambos chegava aquela peça rara, desgraçadamente famigerada, o tal embusteiro a quem os justos jamais lhe suportavam as velhacarias.

ꟷ Não tem trambique, não. E a foto é verdadeira, sim.

A fotografia era do Raul Seixas. Empunhava uma guitarra. O colírio eram os seus óculos escuros. De cavanhaque ruivo e lenço vermelho no pescoço, era o próprio em carne e osso.

ꟷ Tenho certeza que ele estava fazendo tipo por causa dos óculos escuros. E a barba pintada nessa cor acobreada bem forte é de roqueiro exagerado, o tipo que ele sempre foi. Por isso, o autógrafo é autêntico. Confie na imagem, é o Raul Seixas sem tirar nem pôr.

A todo mundo que passava, o súdito fiel queria vender a única cópia do Rei do Rock pela bagatela de cem reais. Que lhe dessem cinco, era o mínimo que aceitaria pela preciosidade autêntica.

Educado na malandragem da vida, nos primórdios de sua trajetória, dava a impressão de espertinho, coisa que o deprimia.

Houve isso com a história do canário que vendeu sem nem o ter em mãos. Cadê que o canarinho entrasse na arapuca? Haja paciência pra apanhar esse danado; e quem tinha pago o cobrava com a intolerância dos impacientes que não aceitariam sequer um pardalzinho travestido de sabiá.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 27 de abril de 2023.

terça-feira, 25 de abril de 2023

A próxima atração

 

A próxima atração

 

23 de abril é o dia do escritor, porque William Shakespeare nasceu neste dia e, segundo alguns, ele teria falecido também neste dia. Mas nascimento e morte não justificam a eleição da data, Shakespeare tem fama mundial pela compreensão da alma humana, embora muita gente ache que o ser humano nem tenha alma para ser compreendida.

Sobre a alma, tenho certeza de que tudo o que eu disser vai gerar arrependimentos, tormentos e ventos, como se nas cavernas da minha mente, ao redor da fogueira da sabedoria, estivessem assando batata um ancião, um anacoreta, um eremita e um eremita ancião anacoreta. Caviloso, já que batata quente é refresco nas mãos dos outros, o meu inconsciente anarquista aproveita o vento infinito para girar o catavento dos desejos incomunicáveis, e deixo a alma me levar.

Arrastado de volta ao dia do escritor, acredito que instituíram a data para celebrar seja o dia do autor, o do dramaturgo ou o do ator. Sim, o Velho Bill foi uma pessoa de múltiplos talentos, tendo sido dramaturgo, autor e ator, e, segundo as más gentes daquela época, nosso Bom Bill, globe-trotter a seu modo, teria sido útil à sociedade como empresário, mandachuva de companhia teatral e dono de teatro.

23 de abril, em todo caso, também é o dia de nascimento de amiga minha muito fã do mesmíssimo William Shakespeare. Embora ela não seja nem escritora nem dramaturga nem atriz nem sequer inglesa, ela diz que Ariel e Caliban são unha e carne, cara e coroa, branco e preto, noite e dia, porque, amalgamados na tempestade cósmica, ambos dão em síntese o que seja a existência humana.

Existo, logo atraio e-mails e spams.

Minutinhos antes da meia-noite, já o calendário a ponto de virar dia 24, recebi e-mail da própria aniversariante agradecendo a mensagem que lhe enviei pela data importantíssima na sua vida.

Por óbvio, se eu tivesse mandado o tal e-mail, teria citado o dia do escritor por causa do nascimento do Bardo Inglês, mas fui devidamente lembrado que 23 de abril é o Dia Mundial do Livro.

Inteligente de minha parte foi vestir a carapuça do cético abismado que mora nas entrelinhas do que não digo. Desconfiado, a querer-me mais informado: busquei e li: 13 de outubro é o dia do escritor.

Como sábio que tira coelhos da cachola, pergunto:

1. Se a inteligência artificial em voga soube pôr no Papa o casacão da rapaziada antenada, não terá havido manipulação no famoso retrato do Bardo, por que o cara nem era ele e, sim, um lorde?

2. Se a rapaziada antenada trata russos na Crimeia como germanos nos Sudetos, que verdades ganharão o mundo quando libertadas pelos algoritmos do amanhã?

3. Quando o mundo for Edmundo lendo a um leão o Rei Lear, obra outrora dada a outrem que não o tal Shakespeare, que nunca foi visto ostentando o casacão da rapaziada antenada, será o Edmundo?

4. Mas, que amanhã?

Ao redator, as respostas.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 25 de abril de 2023.