A
aura da inocência
Fotografias contam essa história que vai
se desenrolando sem que se pense que ela pudesse ter sido manipulada, guiada
pro sentido que garantisse coerência, ainda que as poses não escondam o recurso
ao artifício, à virtualidade do espontâneo controlada pelo banal, pelo trivial
de um cotidiano que se volta sobre si como originalidade, uma vez que o encadeamento
das imagens narra uma identidade fictícia, obtida pela compreensão de que uma vida
pode ser lida a partir do mundo passado pela sensibilidade, porque estes
registros ideais permitem a revelação: um dia, esse garoto que não usava óculos
passou a usá-los.
Adeus, menino triste.
Feita a transição dos fundos para a primeira
carteira, a próxima foto, se não esconde a face do garoto de armação de
tartaruga saboreando a manipulação freudiana da massa, acha-o deitado num
colchonete.
Não é à toa que o assombrado está
deitado, é para dominar-se, ter o controle físico da respiração. Na difícil
prática de suportar-se sereno, é preciso esvaziar a mente, silenciá-la em tal
grau que a entrada de ar nos pulmões não cale no cérebro a oxigenação
necessária para que a consciência não apague o entorno.
Como festa atrai outra, embora o boca a
boca alardeie que tomar cerveja por canudinho acelere a embriaguez, ficar
doidão sem soluçar é assumir-se inepto pra bebedeiras, uma vez que, sem soluços,
ânsias e ideias salvacionistas, pilequinhos apressados nem dão barato.
É preciso identificar autoridades que enchem
a cara para remendar o mundo, a começar pela pátria. Mas, rebeldes que amam a revolução
têm línguas, usam-nas também porque salivam pela carne.
É bom saber respirar. Faz bem livrar-se
dos canudinhos. Age certo quem reaprende a viver pela dor. É bom crescer sem
ser preciso.
Adeus, adeus.
De vez em quando, a terceira das fotos
sobe à linha d’água. Respira e deixa respirar quem não se afoga nas mágoas,
cujas cicatrizes não impedem que nuvens virem borrascas e copos enxuguem
oceanos.
Ainda que o olhar não passe mais pelas
lentes de Paulo Francis, as retinas seguem inquietas, severamente míopes,
esteticamente éticas, retraídas à humildade; observe-se, um tanto torto.
Veja-se: há poucos dias do Natal, o
shopping-center lotado, o rapaz anda em vão, a água do relógio prolonga a
espera, as compras zanzam em sacolas, o barulho aumenta, pressiona, cola nos
pensamentos, que os novos óculos digam que é possível arrancar a própria pele,
trocá-la, desvestir-se em público.
Sorridente tagarela, adeus.
Da ótica do Iguatemi ao ponto da
Rebouças: num fôlego, sem noção da caminhada; num lapso, sem a percepção de ter
saído; noutra cópia de si, sombra desassombrada; sósia de si, tão familiar que
estranha; o revelado se reconhece essa pessoa a reviver-se naquele 1984.
Grande Irmão, diga a que veio, não
banque o sábio, perca a pose.
Rodrigues
da Silveira
Ibiúna, dia 30 de abril de 2023.
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