domingo, 30 de abril de 2023

A aura da inocência

 

A aura da inocência

 

Fotografias contam essa história que vai se desenrolando sem que se pense que ela pudesse ter sido manipulada, guiada pro sentido que garantisse coerência, ainda que as poses não escondam o recurso ao artifício, à virtualidade do espontâneo controlada pelo banal, pelo trivial de um cotidiano que se volta sobre si como originalidade, uma vez que o encadeamento das imagens narra uma identidade fictícia, obtida pela compreensão de que uma vida pode ser lida a partir do mundo passado pela sensibilidade, porque estes registros ideais permitem a revelação: um dia, esse garoto que não usava óculos passou a usá-los.

Adeus, menino triste.

Feita a transição dos fundos para a primeira carteira, a próxima foto, se não esconde a face do garoto de armação de tartaruga saboreando a manipulação freudiana da massa, acha-o deitado num colchonete.

Não é à toa que o assombrado está deitado, é para dominar-se, ter o controle físico da respiração. Na difícil prática de suportar-se sereno, é preciso esvaziar a mente, silenciá-la em tal grau que a entrada de ar nos pulmões não cale no cérebro a oxigenação necessária para que a consciência não apague o entorno.

Como festa atrai outra, embora o boca a boca alardeie que tomar cerveja por canudinho acelere a embriaguez, ficar doidão sem soluçar é assumir-se inepto pra bebedeiras, uma vez que, sem soluços, ânsias e ideias salvacionistas, pilequinhos apressados nem dão barato.

É preciso identificar autoridades que enchem a cara para remendar o mundo, a começar pela pátria. Mas, rebeldes que amam a revolução têm línguas, usam-nas também porque salivam pela carne.

É bom saber respirar. Faz bem livrar-se dos canudinhos. Age certo quem reaprende a viver pela dor. É bom crescer sem ser preciso.

Adeus, adeus.

De vez em quando, a terceira das fotos sobe à linha d’água. Respira e deixa respirar quem não se afoga nas mágoas, cujas cicatrizes não impedem que nuvens virem borrascas e copos enxuguem oceanos.

Ainda que o olhar não passe mais pelas lentes de Paulo Francis, as retinas seguem inquietas, severamente míopes, esteticamente éticas, retraídas à humildade; observe-se, um tanto torto.

Veja-se: há poucos dias do Natal, o shopping-center lotado, o rapaz anda em vão, a água do relógio prolonga a espera, as compras zanzam em sacolas, o barulho aumenta, pressiona, cola nos pensamentos, que os novos óculos digam que é possível arrancar a própria pele, trocá-la, desvestir-se em público.

Sorridente tagarela, adeus.

Da ótica do Iguatemi ao ponto da Rebouças: num fôlego, sem noção da caminhada; num lapso, sem a percepção de ter saído; noutra cópia de si, sombra desassombrada; sósia de si, tão familiar que estranha; o revelado se reconhece essa pessoa a reviver-se naquele 1984.

Grande Irmão, diga a que veio, não banque o sábio, perca a pose.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 30 de abril de 2023.

Nenhum comentário:

Postar um comentário