O
amigo do Raul
Se não tivesse dito que levaria os
documentos, eu ficaria em casa. Como garoou a manhã toda, decidi que sairia
depois do almoço. Faria o prometido, ainda que continuasse a garoar, porque meus
atos teriam que falar por mim. Como contava ser julgado pelo que faria, nunca
pelo que escamotasse, não adiaria o que tinha para fazer. Entre cochilar no
sofá e cair na malha fina, enfiei os papéis num saquinho plástico e abri o
guarda-chuva.
Evidente, na praça nua de árvores, as
rajadas de garoa pediam que agisse tal qual os prudentes, e foi o que fiz, agi
racionalmente.
A última vez que o coreto me abrigou acabei
dormindo, tão bêbado. Todavia sóbrio, desta vez, não rememorei as varejeiras no
vômito nem me apoquentaram as pessoas passando.
Lá ia a senhora que organizava a tarde dominical
no salão da igreja. Não gostei do primeiro prêmio que ganhei, pois me pareceu
mixuruca aquele jogo, uma vez que não sabia que um pote ficava escondido no
outro, indo do menor para café ao maior para arroz.
Embora quisesse ganhar a bicicleta,
nunca responsabilizei aquela dona pelas suas mãos aziagas. Embora a bicicleta
nunca tenha saído pra mim, sequer às vésperas do Natal, também comprei para a mamãe
as seis pilhas grandes pra que Nat King Cole cantasse no rádio.
Cá vinha o senhor que esculpia pequenas
peças sacras, uns cristos em pau-ferro para oratórios de mesa. O bom homem nem
sabia dar-se o devido valor pelo seu artesanato apurado, vendia tudo que punha
na bancada, mas, todo mês, davam-lhe a esmola básica de uma cesta.
Cuidando para não escorregar, ia indo a
cantora das pedras; vinha vindo devagar o entalhador de ébano; e a ambos chegava
aquela peça rara, desgraçadamente famigerada, o tal embusteiro a quem os justos
jamais lhe suportavam as velhacarias.
ꟷ Não tem trambique, não. E a foto é verdadeira,
sim.
A fotografia era do Raul Seixas. Empunhava
uma guitarra. O colírio eram os seus óculos escuros. De cavanhaque ruivo e
lenço vermelho no pescoço, era o próprio em carne e osso.
ꟷ Tenho certeza que ele estava fazendo
tipo por causa dos óculos escuros. E a barba pintada nessa cor acobreada bem
forte é de roqueiro exagerado, o tipo que ele sempre foi. Por isso, o autógrafo
é autêntico. Confie na imagem, é o Raul Seixas sem tirar nem pôr.
A todo mundo que passava, o súdito fiel
queria vender a única cópia do Rei do Rock pela bagatela de cem reais. Que lhe dessem
cinco, era o mínimo que aceitaria pela preciosidade autêntica.
Educado na malandragem da vida, nos
primórdios de sua trajetória, dava a impressão de espertinho, coisa que o
deprimia.
Houve isso com a história do canário que
vendeu sem nem o ter em mãos. Cadê que o canarinho entrasse na arapuca? Haja
paciência pra apanhar esse danado; e quem tinha pago o cobrava com a intolerância
dos impacientes que não aceitariam sequer um pardalzinho travestido de sabiá.
Rodrigues
da Silveira
Ibiúna, dia 27 de abril de 2023.
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