quinta-feira, 4 de maio de 2023

O grande teste

 

O grande teste

 

Preciso entabular uma conversa franca. De uma franqueza tal que só mesmo comigo eu consigo chacoalhar a minha galhardia de cidadão consciente da honestidade nas palavras.

O meu tabuleiro tem quitutes que me deixam preguiçoso, penso que não tenho que engolir brigadeiros, queijadinhas e quindins como se um telefone estivesse chamando, me testando.

Que coincidência! Mal eu penso: tem telefone tocando.

Aliás, nem me convidem pra festinha de marmanjo. Eu me conheço, fico à vontade quando digo que sou fiel à tradição de trair-me quando a pressão é pela estupidez. Embora produza pequenos estragos, acho notável que os adultos na sala usem bandejas como arma. Entre comer e defender-me, prefiro evitar a congestão.

Por leituras aleatórias soube que o estômago tem neurônios, o que me permite prever que panduio empanturrado afete as ideias. Uma vez que a leseira da cuca cheia possa gerar ideias das mais singelamente lógicas às violentamente estapafúrdias, reajo.

Pela razão de que sou pessoa com os nervos em dia, admito que é ridículo ir à varanda gritar que não preciso de celular pra confessar que as minhas virtudes de sujeito do bem fazem de mim um camaradinha astuto que não se esconde atrás do poste.

Postes têm lâmpadas; lâmpadas iluminam; e a iluminação da minha consciência quer deixar claro aos vira-latas bons de faro que não sou poste pra mijarem onde mais sou vulnerável, ao nível da calçada.

Aliás, nem toquem em mim quando falo ao telefone. Costumo tomar um susto quando o fluxo do pensamento é desviado. Isso de ser levado a entender o que pretende a mão que me agarre pelo braço é um fator desconcertante. Sim, por experiência, o mundo me desconcerta.

Que coincidência! Tem uma criança querendo atenção.

Olho pra baixo; o baixinho é velho conhecido; o infante quer que me abaixe, escute-o, que eu tome ciência do que tenho a dizer.

Como se falasse como eu falo com todo mundo, digo a mim mesmo que não tenho que atender o telefone quando ele está tocando. Talvez seja prudente eu deixá-lo sem som.

Pode ser que me queiram bêbado de euforia enquanto me vendem esse perfil de gente do bem que sabe que a digestão de picanha com guaraná é comparável à digestão de picanha com cerveja.

Que coincidência! Tem gente tocando a campainha.

A campainha está ligada, a porta está fechada, as cortinas estão cerradas; e por imaginar a cara de quem toca a campainha enquanto me telefona, eu fico eufórico.

Onipresente, onipotente, onividente, não apenas porque monitora a pressão, o pulso e o açúcar no meu sangue, tanto o telefone sabe mais sobre mim que ele já vem com a resposta sintomática:

ꟷ Posso ajudar?

Assimilado ao vício de não mais me corrigir por amargores, mesmo sem beijinho, o jeito é atacarmos o pote de napolitano que nunca falta no freezer.

Que coincidência! O menino que me abraça sou eu que o abraço.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 04 de maio de 2023.

Nenhum comentário:

Postar um comentário