O
grande teste
Preciso entabular uma conversa franca.
De uma franqueza tal que só mesmo comigo eu consigo chacoalhar a minha
galhardia de cidadão consciente da honestidade nas palavras.
O meu tabuleiro tem quitutes que me
deixam preguiçoso, penso que não tenho que engolir brigadeiros, queijadinhas e
quindins como se um telefone estivesse chamando, me testando.
Que coincidência! Mal eu penso: tem
telefone tocando.
Aliás, nem me convidem pra festinha de
marmanjo. Eu me conheço, fico à vontade quando digo que sou fiel à tradição de
trair-me quando a pressão é pela estupidez. Embora produza pequenos estragos, acho
notável que os adultos na sala usem bandejas como arma. Entre comer e
defender-me, prefiro evitar a congestão.
Por leituras aleatórias soube que o
estômago tem neurônios, o que me permite prever que panduio empanturrado afete
as ideias. Uma vez que a leseira da cuca cheia possa gerar ideias das mais singelamente
lógicas às violentamente estapafúrdias, reajo.
Pela razão de que sou pessoa com os
nervos em dia, admito que é ridículo ir à varanda gritar que não preciso de
celular pra confessar que as minhas virtudes de sujeito do bem fazem de mim um camaradinha
astuto que não se esconde atrás do poste.
Postes têm lâmpadas; lâmpadas iluminam;
e a iluminação da minha consciência quer deixar claro aos vira-latas bons de
faro que não sou poste pra mijarem onde mais sou vulnerável, ao nível da
calçada.
Aliás, nem toquem em mim quando falo ao
telefone. Costumo tomar um susto quando o fluxo do pensamento é desviado. Isso
de ser levado a entender o que pretende a mão que me agarre pelo braço é um
fator desconcertante. Sim, por experiência, o mundo me desconcerta.
Que coincidência! Tem uma criança
querendo atenção.
Olho pra baixo; o baixinho é velho
conhecido; o infante quer que me abaixe, escute-o, que eu tome ciência do que
tenho a dizer.
Como se falasse como eu falo com todo
mundo, digo a mim mesmo que não tenho que atender o telefone quando ele está
tocando. Talvez seja prudente eu deixá-lo sem som.
Pode ser que me queiram bêbado de
euforia enquanto me vendem esse perfil de gente do bem que sabe que a digestão
de picanha com guaraná é comparável à digestão de picanha com cerveja.
Que coincidência! Tem gente tocando a
campainha.
A campainha está ligada, a porta está
fechada, as cortinas estão cerradas; e por imaginar a cara de quem toca a
campainha enquanto me telefona, eu fico eufórico.
Onipresente, onipotente, onividente, não
apenas porque monitora a pressão, o pulso e o açúcar no meu sangue, tanto o
telefone sabe mais sobre mim que ele já vem com a resposta sintomática:
ꟷ Posso ajudar?
Assimilado ao vício de não mais me
corrigir por amargores, mesmo sem beijinho, o jeito é atacarmos o pote de
napolitano que nunca falta no freezer.
Que coincidência! O menino que me abraça
sou eu que o abraço.
Rodrigues
da Silveira
Ibiúna, dia 04 de maio de 2023.
Nenhum comentário:
Postar um comentário