quarta-feira, 3 de maio de 2023

Nem pro santo

 

Nem pro santo

 

ꟷ Seu Osman, o que me diz da volta da cobrança do sindicato?

O homem só moveu o charuto de um canto da boca para o outro.

ꟷ Romualdo, seu paspalho, o certo não é cobrança do sindicato, o certo é dizer que é contribuição sindical, não é, Seu Osman?

De volta pra esquerda, o homem moveu o charuto.

ꟷ Deixem ele em paz; disse a mulher atrás do balcão.

ꟷ Dona Josefa, a gente quer ouvir a opinião do Seu Osman porque ele trabalhou no sindicato até se aposentar.

ꟷ Dona Zefinha, Seu Osman trabalhou por mais de trinta anos sem nunca ter saído do sindicato, sempre fiel, né, Seu Osman?

O homem tirou-a, bateu-lhe a cinza e repôs a bituca na boca.

Trazendo em cada mão um menino, o pai pediu dois pastéis: um de queijo e outro de carne. Mas os filhos queriam, ambos, pastel de queijo e de carne, os dois. Se tivesse pimenta, queriam. Se tivesse mostarda, também queriam. Se o pai pudesse, queriam ainda um quibe cada um, desde que tivesse limão cortado na hora.

Pondo os salgados num prato, a mulher abriu-se em sorriso:

ꟷ As crianças de hoje em dia sabem bem o que querem. Dá gosto ver que fazem questão de pedir sem constrangimentos. No meu tempo da idade deles, era impossível de acontecer. Não se podia abrir a boca pra dizer qual a vontade que a gente tinha.

Quando ia enfiando na maquininha o cartão de débito:

ꟷ Não esquece da Coca família, pai.

ꟷ E tem que ser beeem gelada, pai.

Nisso, a TV exibia imagens relativas ao Primeiro de Maio.

ꟷ Aumenta o volume, Zefinha.

Apareceu um sindicalista, o presidente do sindicato que era o líder dos operários há mais de quarenta anos. Ele dizia da importância de o salário-mínimo ter aumentado. Pois os dezoito reais farão a economia girar. O povo não comprará somente o básico da sobrevivência. Além de bife, arroz e feijão, irá comprar um par de sapatos novo, realizará o sonho de ter um celular muito moderno. O mercado ficará satisfeito. A indústria aumentará a produção. O comércio facilitará o crédito. E todo mundo do Brasil vai sorrir outra vez. A dignidade do trabalhador estará no sorriso de quem paga as contas e pode planejar aquela viagem pra praia, pra montanha, pro parque aquático, pra pizza com a família. Pra dar o animalzinho de estimação pro filho caçula que tanto pede pra ter um pastor chamado Pequeno Polegar, igual ao do seu avô.

O homem que permanecera mudo durante a fala inteira do tal herói da classe trabalhadora, levantou-se, pediu café e virou o copo de vez; pegou um fósforo da caixa que ficava disponível para os fregueses em cima do balcão, acendeu o charuto; bebeu outro copo.

ꟷ Ouviu, Seu Osman. O trabalhador ajudará a reconstruir o Brasil. Ganhando mais, será feliz do jeito que tem que ser. Sem espertalhão pra doutrinar pra que não seja.

Sem abrir a boca, o homem pegou a gaiola ꟷ pena que o corrupião não cantou ꟷ e saiu.

Disse a dona:

ꟷ Seus idiotas, o nome dele é Altair, Altair Filho.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 02 de maio de 2023.

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