terça-feira, 25 de abril de 2023

A próxima atração

 

A próxima atração

 

23 de abril é o dia do escritor, porque William Shakespeare nasceu neste dia e, segundo alguns, ele teria falecido também neste dia. Mas nascimento e morte não justificam a eleição da data, Shakespeare tem fama mundial pela compreensão da alma humana, embora muita gente ache que o ser humano nem tenha alma para ser compreendida.

Sobre a alma, tenho certeza de que tudo o que eu disser vai gerar arrependimentos, tormentos e ventos, como se nas cavernas da minha mente, ao redor da fogueira da sabedoria, estivessem assando batata um ancião, um anacoreta, um eremita e um eremita ancião anacoreta. Caviloso, já que batata quente é refresco nas mãos dos outros, o meu inconsciente anarquista aproveita o vento infinito para girar o catavento dos desejos incomunicáveis, e deixo a alma me levar.

Arrastado de volta ao dia do escritor, acredito que instituíram a data para celebrar seja o dia do autor, o do dramaturgo ou o do ator. Sim, o Velho Bill foi uma pessoa de múltiplos talentos, tendo sido dramaturgo, autor e ator, e, segundo as más gentes daquela época, nosso Bom Bill, globe-trotter a seu modo, teria sido útil à sociedade como empresário, mandachuva de companhia teatral e dono de teatro.

23 de abril, em todo caso, também é o dia de nascimento de amiga minha muito fã do mesmíssimo William Shakespeare. Embora ela não seja nem escritora nem dramaturga nem atriz nem sequer inglesa, ela diz que Ariel e Caliban são unha e carne, cara e coroa, branco e preto, noite e dia, porque, amalgamados na tempestade cósmica, ambos dão em síntese o que seja a existência humana.

Existo, logo atraio e-mails e spams.

Minutinhos antes da meia-noite, já o calendário a ponto de virar dia 24, recebi e-mail da própria aniversariante agradecendo a mensagem que lhe enviei pela data importantíssima na sua vida.

Por óbvio, se eu tivesse mandado o tal e-mail, teria citado o dia do escritor por causa do nascimento do Bardo Inglês, mas fui devidamente lembrado que 23 de abril é o Dia Mundial do Livro.

Inteligente de minha parte foi vestir a carapuça do cético abismado que mora nas entrelinhas do que não digo. Desconfiado, a querer-me mais informado: busquei e li: 13 de outubro é o dia do escritor.

Como sábio que tira coelhos da cachola, pergunto:

1. Se a inteligência artificial em voga soube pôr no Papa o casacão da rapaziada antenada, não terá havido manipulação no famoso retrato do Bardo, por que o cara nem era ele e, sim, um lorde?

2. Se a rapaziada antenada trata russos na Crimeia como germanos nos Sudetos, que verdades ganharão o mundo quando libertadas pelos algoritmos do amanhã?

3. Quando o mundo for Edmundo lendo a um leão o Rei Lear, obra outrora dada a outrem que não o tal Shakespeare, que nunca foi visto ostentando o casacão da rapaziada antenada, será o Edmundo?

4. Mas, que amanhã?

Ao redator, as respostas.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 25 de abril de 2023.

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