Coração
bestificado
A taxista foi protocolar ao cumprimentar
o passageiro, a quem pediu o endereço de destino e, antes da partida do
automóvel, advertiu-lhe que colocasse o cinto.
Por conta da morosidade do trânsito, a
motorista atalhou por becos e ruas transversais, o que alongou o trajeto mas
encurtou o tempo de chegada.
Ela encostava o carro; ele tinha o valor
exato da corrida.
Se soubesse que o médico atrasaria o
começo da consulta, mesmo assim teria mantido as críticas à demora do táxi, que
levou vinte e cinco minutos pra pegá-lo à porta de casa, onde ficou esperando
por longos, esses longuíssimos vinte e cinco minutos.
Assim como foi educado ao deixar de
dizer à taxista o que pensava, agradecendo-lhe como sói a quem educado, ele
esperou calado que o cardiologista o recebesse com as banalidades usuais.
Continuava com aquele formigamento
esquisito no braço esquerdo. Sentia agulhadinhas quando subia apressado uma escada.
Demorava a pegar no sono. Embora mantivesse o copo d’água pra molhar a boca, não
dormia. Mesmo sem perceber formigamento e quaisquer pontadas no peito, queria ouvir
do doutor qual o diagnóstico exato do que estava acontecendo com o coração.
O médico conferiu os resultados de
ecocardiograma, radiografia do tórax, eletrocardiograma, teste ergonométrico e
exame de sangue: era um órgão nas condições esperadas a uma pessoa sexagenária.
Caso prosseguisse com formigamento e
sensações sufocantes, ele agendasse nova consulta: pra solicitação de
ressonância magnética e exames complementares de sangue, fezes e alergia à
realidade.
Que o paciente evitasse os alimentos
gordurosos, caminhasse uma hora por dia, dormisse bem, não se entupisse de
notícias ruins.
O que é uma notícia ruim? A gordura da
picanha é ruim pras veias? O preço da picanha afeta a circulação sanguínea? A
cabeça pesa mais o que o coração já anda sentindo? Como dormir tranquilo
sabendo que amanhã o quilo da salada vai mesmo estar mais caro? Tivesse nascido
coelho, levaria facadas na carteira ao roer cenouras? Ostentasse alma de poeta,
diria ditirambos à lua vista do táxi?
Sim, sempre vem outro táxi.
O trânsito seguia tóxico, mas o
motorista era outra pessoa.
Como a lua tocou em cheio a sua alma
lírica, disse-a bela. O lar de São Jorge punha feliz o dragão a ser vencido
pela lança. Entre a ânsia pela próxima contenda e a alegria da vitória, o
taxista era um poeta.
Pouco lírico, o passageiro queria
ignorar a eterna guerra do dragão da maldade contra o santo guerreiro; nem
pensava em escutar o disco novo do Jards Macalé.
Tirando fuligem e o para-brisa
empoeirado, claramente ocorreu-lhe: haverá uma Associação de Poetas Anônimos?
Não outro círculo de poetas buscando a
glória, mas um grêmio de gente que tenta não soçobrar aos enlevos rastaqueras.
Deixe estar que a lua nua o bestifique, coraçãozinho.
Rodrigues
da Silveira
Ibiúna, dia 07 de maio de 2023.
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