domingo, 7 de maio de 2023

Coração bestificado

 

Coração bestificado

 

A taxista foi protocolar ao cumprimentar o passageiro, a quem pediu o endereço de destino e, antes da partida do automóvel, advertiu-lhe que colocasse o cinto.

Por conta da morosidade do trânsito, a motorista atalhou por becos e ruas transversais, o que alongou o trajeto mas encurtou o tempo de chegada.

Ela encostava o carro; ele tinha o valor exato da corrida.

Se soubesse que o médico atrasaria o começo da consulta, mesmo assim teria mantido as críticas à demora do táxi, que levou vinte e cinco minutos pra pegá-lo à porta de casa, onde ficou esperando por longos, esses longuíssimos vinte e cinco minutos.

Assim como foi educado ao deixar de dizer à taxista o que pensava, agradecendo-lhe como sói a quem educado, ele esperou calado que o cardiologista o recebesse com as banalidades usuais.

Continuava com aquele formigamento esquisito no braço esquerdo. Sentia agulhadinhas quando subia apressado uma escada. Demorava a pegar no sono. Embora mantivesse o copo d’água pra molhar a boca, não dormia. Mesmo sem perceber formigamento e quaisquer pontadas no peito, queria ouvir do doutor qual o diagnóstico exato do que estava acontecendo com o coração.

O médico conferiu os resultados de ecocardiograma, radiografia do tórax, eletrocardiograma, teste ergonométrico e exame de sangue: era um órgão nas condições esperadas a uma pessoa sexagenária.

Caso prosseguisse com formigamento e sensações sufocantes, ele agendasse nova consulta: pra solicitação de ressonância magnética e exames complementares de sangue, fezes e alergia à realidade.

Que o paciente evitasse os alimentos gordurosos, caminhasse uma hora por dia, dormisse bem, não se entupisse de notícias ruins.

O que é uma notícia ruim? A gordura da picanha é ruim pras veias? O preço da picanha afeta a circulação sanguínea? A cabeça pesa mais o que o coração já anda sentindo? Como dormir tranquilo sabendo que amanhã o quilo da salada vai mesmo estar mais caro? Tivesse nascido coelho, levaria facadas na carteira ao roer cenouras? Ostentasse alma de poeta, diria ditirambos à lua vista do táxi?

Sim, sempre vem outro táxi.

O trânsito seguia tóxico, mas o motorista era outra pessoa.

Como a lua tocou em cheio a sua alma lírica, disse-a bela. O lar de São Jorge punha feliz o dragão a ser vencido pela lança. Entre a ânsia pela próxima contenda e a alegria da vitória, o taxista era um poeta.

Pouco lírico, o passageiro queria ignorar a eterna guerra do dragão da maldade contra o santo guerreiro; nem pensava em escutar o disco novo do Jards Macalé.

Tirando fuligem e o para-brisa empoeirado, claramente ocorreu-lhe: haverá uma Associação de Poetas Anônimos?

Não outro círculo de poetas buscando a glória, mas um grêmio de gente que tenta não soçobrar aos enlevos rastaqueras.

Deixe estar que a lua nua o bestifique, coraçãozinho.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 07 de maio de 2023.

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